Entrevista com o multi-instrumentista André Siqueira

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…A música passa pela mesma crise que todas as áreas que geram, criam, renovam e claro, trazem beleza à sociedade. Sim, a beleza é uma forma importante de organização e as diversas formas de fazer música, seja com uma enorme orquestra sinfônica ou na voz de um cantador, devem ser preservadas com toda a nossa energia.
André Siqueira 

O blog Poucas e Boas da Mari conversou com o multi-instrumentista André Siqueira. A trajetória  do artista, que também é compositor, arranjador e docente, é composta por experiências em cultura popular e por pesquisas em música contemporânea. Ano passado, André lançou o seu segundo álbum solo, Catamarã, resultado de aproximadamente 15 anos de pesquisa em torno das técnicas composicionais da primeira metade do século vinte. Nesta entrevista, além de sua carreira artística, que completa 25 anos em 2017, ele opina sobre o atual momento de precarização da cultura.  “Passamos por um momento de quase fetiche da precarização, claro que há dinheiro, o que não tem havido é o olhar para a cultura. Tem sido normal não ter condições de realizarmos nossa arte”. Confira a entrevista completa com André Siqueira:

Foto: Saulo Haruo Ohara

POUCAS E BOAS DA MARI – André, ano passado você lançou o seu segundo álbum solo, Catamarã. A característica fundamental das composições foi a fusão de timbres e linguagens da música erudita contemporânea e da música popular. Este disco é resultado de sua “navegação” por suas influências artísticas e experiência acadêmica?

ANDRÉ SIQUEIRA – Primeiramente, muito grato por essa oportunidade de falar sobre música!

O “Catamarã” é resultado de aproximadamente 15 anos de pesquisa em torno das técnicas composicionais da primeira metade do século vinte, principalmente dos compositores Béla Bartók, Igor Stravinsky e Edgar Varèse. Porém, ouvindo o disco essas influências encontram-se bastante dissolvidas dentro da força motriz que conduz o trabalho: os procedimentos improvisativos e a rítmica da música brasileira. Eu sempre tive os pés em dois barcos, na pesquisa acadêmica e na música popular, tendo interesse muito grande pela música de viola caipira e outras manifestações rurais. O formato desse álbum acabou trazendo esses dois universos de modo bastante claro.

PBM – Tanto em Catamarã, como em seu primeiro cd, Lithos, você trabalhou o improviso. Trabalhar composições por meio de processo improvisativo é uma maneira de não limitar a sua criação, não fixar em roteiros prontos?

A.S. – O compositor russo Igor Stravinsky em seu livro “Poéticas musicais em 6 lições” coloca de modo brilhante uma questão que perpassa o processo composicional do Catamarã; “Não se pode provocar o que é acidental: pode-se observar e daí extrair inspiração. O acidental é talvez a única coisa que nos inspira. Um compositor improvisa sem direção da mesma maneira como um animal escava o terreno. Ambos vão escavando, porque cedem à compulsão de procurar coisas. Que necessidade do compositor é atendida por essa investigação? A das regras que ele carrega como um penitente? Não: ele está em busca de seu prazer. Ele procura uma satisfação sabendo perfeitamente que não a encontrará se não brigar por ela”. Tanto no “Lithos” como no “Catamarã”, o procedimento improvisativo está presente, no primeiro existem mais momentos da improvisação surgindo durante a gravação e gerando a forma de algumas músicas, no segundo a improvisação deu-se na gênese das músicas, de forma que uma vez fechada a composição o procedimento passa a ser o de lapidar o material gerado pelos improvisos e em seguida gravá-lo.

PBM – Das nove canções que compõem seu segundo cd solo, duas não são autorais – Toccata em Ritmo de Samba I (Radamés Gnatalli) e Chovendo na Roseira (Tom Jobim). Por que gravar essas canções e não manter um trabalho totalmente autoral?

A.S. – Durante os quatro anos que morei em Belo Horizonte (2003 a 2007), voltei-me de modo muito intenso ao violão. Apesar de ser meu instrumento de infância, nunca havia me dedicado de modo sistemático ao instrumento; até esse período, ainda flertava mais com o ofício de compositor do que com o de violonista. Essas músicas são, de modo singelo, uma homenagem ao instrumento e a dois compositores importantíssimos, que considero continuadores da obra do Villa-Lobos. Um terceiro seria o Egberto Gismonti, que não está representado com nenhuma música no disco, mas escreve o texto de abertura. Para mim esse diálogo é essencial, pois meu foco de atenção tem se voltado cada vez mais ao nacionalismo musical brasileiro, não aquele dos livros de história da música com seus rótulos, mas o que transita, realmente, no fio da navalha entre popular x erudito. 

PBM – Gabriel Zara, Leonardo Pires, Júlio Erthal, Bruno Pimenta, Vito Duarte, Luca Bernar, Tabajara Belo, Titane e Elizah Rodrigues. Fale um pouco sobre essa relação musical com esse “time” que embarcou em seu Catamarã.

A.S. – Primeiramente são todos excelentes músicos, mas muito mais que isso, são grande amigos. É impossível para mim pensar em fazer música sem uma relação de bem querer. A música tem se tornado um caminho, um modo de estar no mundo e isso não combina com a efemeridade das relações como elas têm se apresentado atualmente. Nós estamos muito distantes das relações de mercado que envolvem a maioria das produções fonográficas atualmente. É preciso, para fazer essa música, conversar sobre estética, ter um trânsito razoável entre diversas linguagens musicais e o principal, estar a serviço da Dona Música. Às vezes ela nos visita, não é sempre, mas quando isso acontece, nos faz ter certeza de que estamos aqui para coisas maiores do que tocar o hit do momento, de qualquer jeito, simplesmente para “matar um cachê”.

Catamarã (Arquivo pessoal do artista)

PBM – Para viabilizar Catamarã, você apostou no financiamento coletivo (crowdfunding). Foi a primeira vez que usou esse tipo de incentivo. O que achou da experiência? A receptividade das pessoas em relação à campanha foi positiva?

A.S. – O crowdfunding tem se revelado ótima estratégia para viabilizar trabalhos que estão fora do espectro de interesse de apoiadores vinculados a leis de incentivo. O que mais gostei nesse processo é o fato de que você deve tomar as rédeas do próprio trabalho e imprimir a energia necessária para que ele aconteça, além disso, foi muito bom o diálogo gerado com o público e me senti revigorado com a presença motivadora das pessoas que colaboraram. Isso me deu perspectiva mais real de um público que nem sequer sabia que existia.

PBM – A improvisação também é vista em seu trabalho em conjunto com o violonista Camilo Carrara, o Afternoon Improvisation. Todas as faixas do disco, lançado em formato digital, chamam Improviso.  Como se deu esse diálogo musical com tamanha afinidade?

A.S. – Esse é um trabalho do qual tenho muito orgulho. São aqueles presentes que a música nos dá. Conheci o Camilo quando morava em Minas, fomos juntos para um festival em Itabirito, terra natal do Carlos Drumond de Andrade, ele estava acompanhando a Cida Moreira e eu iria tocar com vários violeiros. Começamos a conversar sobre música e vimos que o interesse sobre improvisação livre era recíproco. Em 2008, quando me mudei para Londrina, nos encontramos novamente, dessa vez para tocarmos e a afinidade musical foi instantânea, daí a gravar o disco foi um processo muito natural. Fomos para o estúdio da faculdade Cantareira em São Paulo, sentamos com os instrumentos um de frente para o outro e gravamos duas horas de música que geraram as faixas do disco. O que me impressiona nesse trabalho é a coesão formal que conseguimos atingir, não parece um disco improvisado e gravado em duas horas apenas… Como disse, um presente da Dona Música!

PBM – Você é autor do livro Giacinto Scelsi: improvisação, orientalismo e escritura, lançado pela EDUEL. O seu interesse na obra e vida do compositor italiano veio durante a sua formação acadêmica? O que o levou a se dedicar a estudá-lo?

A.S. – Estudo o Scelsi desde 1998, o que me fascina nele é justamente a improvisação como força motriz, geradora das obras. Comecei a estudá-lo na graduação e esse livro é resultado da dissertação de mestrado defendida em 2006, na UFMG. Giacinto Scelsi para mim significa libertação das amarras formais da composição estrita. Foi a partir de suas ideias que me senti livre para poder realizar a minha música. Às vezes nós miramos em uma coisa para acertar em outra, mas foi isso mesmo que aconteceu. Estudei o Scelsi para me permitir uma fundamentação, a partir do cânone da música, para poder realizar minhas apropriações da música de matriz rural através da livre improvisação.

PBM – Há um movimento que quer tornar a viola brasileira patrimônio imaterial. A idealização é do músico, produtor e gestor cultural mineiro João Araújo, que com a supervisão do Iphan MG elaborou requerimento assinado pelo Secretário de Cultura de Belo Horizonte, Sr. Leônidas José de Oliveira, e protocolado no Iphan nacional, em Brasília no último dia 04. Imaterializar a viola é uma importante forma de dar valor e manter viva a cultura caipira para futuras gerações?

A.S. – Passamos atualmente no Brasil uma crise de percepção e perspectiva muito grande. A viola, assim como todas as outras manifestações de cultura popular (Congado, Catopês, Folias, Marujada, Cavalo Marinho, Maracatus, Fandango etc.) está intrinsecamente vinculada há uma visão de mundo, a uma percepção de tempo e de pertencimento a determinadas comunidades. A ideia, cada vez mais vigente no Brasil de hoje, de que a modernidade é um valor a ser perseguido e que esta modernidade está vinculada à negação da matriz rural, da qual provém a maioria dessas manifestações, por si torna-se um risco muito grande a todas esses modos do fazer artístico baseado na memória coletiva. A viola não foge a essa regra, porém, temos de estar “atentos ao soprar dos ventos” e verificar se há uma tentativa de fechamento com essa proposta. A cultura popular antes de mais nada é viva, dinâmica e adaptável. Qualquer tentativa de padronização põe em risco a própria essência dessa cultura.

PBM – Compositor, arranjador, multi-instrumentista e docente. Para você que respira e vive da música, como encara o desmonte de várias Orquestras Sinfônicas por todo o país?

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A.S. – Essa questão passa pela levantada mais acima. Vivemos em um país no qual a crise de identidade é tão grande que, ao avançar em tecnologia, questionam-se as cotas, sedia-se uma Copa do Mundo, mas não consegue-se resolver problemas de saneamento básico, vivemos em um país no qual o discurso polarizado e odioso suplanta a análise racional e crítica a partir de uma perspectiva histórica. É simples entender o porquê do desmanche das instituições públicas, não só as orquestras, mas a educação, previdência, saúde, segurança. Passamos por um momento de quase fetiche da precarização, claro que há dinheiro, o que não tem havido é o olhar para a cultura. Tem sido normal não ter condições de realizarmos nossa arte. Quando investimos no consumo e não na educação e formação de público (e isso tem ocorrido desde muito tempo) o ponto de chegada inevitavelmente seria o entendimento, por parte daqueles que estão no poder de que facilmente poderiam surrupiar o direito que temos às instituições geradoras de conhecimento. Sim, o interesse é que o conhecimento (pesquisa, artes, ciência) seja adquirido como produto, bens de consumo, e não através do processo natural de descoberta e invenção. A música passa pela mesma crise que todas as áreas que geram, criam, renovam e claro, trazem beleza à sociedade. Sim, a beleza é uma forma importante de organização e as diversas formas de fazer música, seja com uma enorme orquestra sinfônica ou na voz de um cantador, devem ser preservadas com toda a nossa energia.

PBM – Na Universidade Estadual de Londrina, onde leciona as disciplinas de Harmonia e Contraponto, Arranjo e Percepção, você coordena um sub projeto que trabalha novas alternativas para o ensino de música nas escolas públicas.  Fale sobre esse projeto, já que o ensino da música, a maioria das vezes, não acontece de forma efetiva nas escolas.

A.S. – Minha área dentro do curso de Música é de Linguagem e Estruturação Musical e Violão, portanto eu transito entre essas disciplinas que você citou e o instrumento. Atualmente tenho trabalhado com violão e uma disciplina chamada Música e Tecnologia, que consiste em trabalho de produção musical dentro de estúdio. Como o curso é de licenciatura, os projetos de educação musical sempre ocorrem. Atualmente meu projeto de pesquisa está focado na performance de música popular brasileira. Os cursos de licenciatura em música cumprem importante papel ao levar atualizações para o campo do ensino musical. Afinal, música é uma área de conhecimento, mais do que entretenimento, embora, devido ao culto à precarização citado acima, tenhamos nos acostumados a não ter direito e acesso a certos tipos de saberes. O estudo da música de modo precário e parcial (e muitas vezes tendencioso a esta ou aquela escola) faz parte dessa crise de percepção e perspectiva da qual falei anteriormente.

PBM – Você já iniciou este ano gravando, em Belo Horizonte, o novo cd da cantora Titane composto por canções de Elomar. Tem mais novidades para 2017?

A.S. – Esse foi o primeiro presente que ganhei em 2017, gravar no disco de minha querida amiga Titane que, sem dúvida, está entre as maiores cantoras atuais. O repertório me é muito familiar, porque conheço a obra do Elomar já há uns 20 anos e tive a oportunidade de tocá-la em algumas situações. A novidade neste trabalho é a proposição de um novo olhar sobre as composições e força de interpretação da Titane, uma alegria essa experiência!

Os planos para 2017 estão focados no lançamento do “Catamarã” e na realização de muitos shows com meu trabalho. Estou fazendo 25 anos de carreira como músico profissional e quero muito mostrar minha música para o mundo todo, com o desejo de levar beleza, paz, harmonia e reflexão através das minhas mãos e de meus instrumentos.

Gratidão pela oportunidade!

Site: https://www.andresiqueira.art.br/  
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2 Comentários

  1. José Carlos Porto Zitto disse:

    Mari, show de matéria. Parabéns. Beijos.
    Zitto

  2. Frederico Prestupa Neto disse:

    Parabéns, muito boa reportagem, a musica encantando nossa vida

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