Entrevista com o gaitista Gabriel Grossi

No dia 20 de julho, o Poucas e Boas da Mari bateu um papo com o gaitista Gabriel Grossi, minutos antes de subir ao palco do Teatro do Sesc Piracicaba. Acompanhado dos músicos Farias (piano), André Vasconcellos (Baixo), Edu Ribeiro (Bateria) e Sérgio Coelho (trombone), Gabriel, que acaba de voltar de turnê pela Europa, apresentou seu recente projeto Em Movimento, uma verdadeira homenagem às suas influências – Milton “Bituca” Nascimento, Raul de Souza, Toots Thielemans, além de Mauricio Einhorn e Hermeto Pascoal. Confira a entrevista com o músico brasiliense considerado um dos maiores representantes da harmônica no mundo:

POUCAS E BOAS DA MARI – É impossível não perguntar ou fazer alusão as suas influências. A sua carreira tem como base homenageá-las. O seu mais recente projeto, Em Movimento, é um exemplo, como também Nascente, We do it out of love. Como você define essas homenagens, Gabriel? Gratidão? Manter viva a arte, o talento e obra de suas influências?

GABRIEL GROSSI – Sem dúvida, tenho que reverenciar esses mestres. Sinto-me muito privilegiado, porque tive muito contato com eles. No caso do Toots (Thielemans), homenageado no We do it out of love, tive amizade até o ano passado, quando ele faleceu. Mandava tudo o que gravava para ele, falávamos por telefone, tocávamos juntos. Um papa da harmônica, o maior da história. Quem me apresentou foi o Maurício Einhorn, outro que produzi homenagem em um projeto chamado “Viva Maurício Einhorn”, que acabou de sair, um álbum duplo só com canções dele, juntando 27 gaitistas brasileiros. Em relação ao meu instrumento, esses dois caras são os mais importantes, realmente são a base da minha formação. Teve um dia que falei “preciso fazer um projeto a cada um deles”.  Virou necessidade agradecer o carinho pessoal que tiveram comigo. Tive essa sorte. No caso desse projeto agora, Em Movimento, é mais amplo. Tem homenagem a eles, mas também a outros artistas – Milton Nascimento, Raul de Souza. Tem uma música dedicada à África, uma dedicada a meus pais, que me aguentam tocando gaita há 20 anos o dia inteiro (rs).

PBM – Por que uma canção dedicada à África?

G.G. – A música brasileira é basicamente influência clássica erudita europeia, misturada com a rítmica africana. Sou fã da música africana. A canção que fiz chama Banzo. Ela é inspirada pelos Afro-Sambas, que para mim foi um marco, um dos mais importantes de nossa história.

PBM – Sobre o projeto de financiamento coletivo “Viva Maurício Einhorn”, que reuniu 27 gaitistas brasileiros. Sem o financiamento coletivo seria um projeto inviável?

G.G. – Acredito que sim. Completou a meta, porque completei o que faltava, mas chegamos próximos… Esse projeto na verdade é, principalmente, o resultado de todos esses gaitistas envolvidos. Cada um bancou a sua própria gravação. Foi muito legal da parte deles investirem. Todo mundo entregou a faixa já mixada, inclusive. Os gaitistas foram parceiros. Mas a parte de prensar o cd, fazer capa, tudo isso ficaria inviável se não tivesse o financiamento.

PBM – Em uma matéria do O Globo, ano passado, você disse que ficou um hiato entre a geração de suas influências (Toots Thielemans e Maurício Einhorn) e a sua em relação à gaita, mas agora vê uma renovação. Essa percepção é sentida de que maneira?

G.G. – Tenho notado, nesses dois projetos, por exemplo… Esqueci de falar, para o projeto do Toots convidei cinco harmonicistas, cada um gravou duas canções. São todos da minha geração. Têm alguns um pouco mais velhos. Entre a minha geração e a do Maurício e do Toots, estamos falando de um hiato de 50 anos. Tiveram algumas pessoas, mas não com tanto “peso” como agora vejo ver novamente. Por exemplo, Antonio Serrano, Grégoire Maret são músicos de altíssimo nível que viraram referência para o instrumento. Quando falo 27 gaitistas, o pessoal até assusta. Tem de tudo, o pessoal mais velho, da nova geração, mas é por isso que acredito muito, porque tem a safra de uns 20 anos que está vindo e tocando super bem, trazendo um frescor para a história do instrumento.

PBM – Em Movimento conta com um filme dirigido pelo cineasta brasiliense Alexandre Magno, que será lançado em meados de 2018. Fale um pouco sobre essa parceria e a ideia de unir música e cinema.

G.G. – Começou nos saraus que faço em casa, virou um hábito. Adoro fazer isso, chamo os amigos e ficamos tocando horas e horas (rs). É diferente de você estar em um estúdio ou em um show. São na verdade os momentos mais incríveis de música que acontecem, onde você se permite arriscar e consegue atingir de fato algo especial. Não só pela música propriamente dita, mas também a conversa. O público fica muito interessado pelos bastidores. É difícil reproduzir isso tudo de uma maneira natural. Mas rolou. Fizemos saraus em casa, em São Paulo, e tentamos reproduzir um pouco esse clima que acontece de forma espontânea, misturando música ao vivo, entrevistas. Em Movimento tem vários sentidos –  Em Movimento no sentido de estar correndo atrás e também um Movimento de vários músicos que têm visões parecidas sobre a música e que estão integrados. Somos quase uma família se reúne toda hora. É uma personalidade, jeito de tocar, uma maneira de ver uma nova música instrumental brasileira.

PBM – Seus trabalhos estão disponíveis em plataformas digitais, que tem transformado o hábito de ouvir música. E isso não atinge apenas o consumidor, mas todos os envolvidos no processo (gravadoras, artistas, etc). Essa mudança foi positiva?

G.G – É polêmico isso. Acho que tem os dois lados. Vamos falar do negativo primeiro. Acabei de voltar de uma turnê de mais de um mês pela Europa. Fazia uma conta antes, mais ou menos um terço da receita que conseguia nessas turnês era venda de cd. Isso acabou. O cd está nas últimas mesmo. Para o músico, de uma maneira geral, não é muito bom. Era uma fonte de renda que tínhamos e não temos mais. Por outro lado, com as plataformas digitais, acho que a música está mais democrática. Todo mundo pode chegar e mostrar o seu trabalho. Antes tinha uma coisa complicadíssima de gravadora, hoje qualquer um grava um disco, divulga na internet o que é muito bom. No aspecto de democratização da música e dar espaço a todos, tudo isso é muito positivo. O lado ruim é basicamente a fonte de renda a menos.

PBM – Como disse, você acaba de voltar de uma turnê na Europa, lugar onde se alimenta de cultura. No Brasil, vivemos momentos complicados na política brasileira e isso reflete na área cultural, totalmente sem incentivo e investimento. Estávamos sem Ministro da Cultura desde o dia 18 de maio. O abismo é grande?

G.G – A primeira coisa que o governo pensa em cortar é a da Cultura e é uma estupidez, uma ignorância absurda. Nesse sentido, o europeu e o norte-americano entendem que a cultura é importante. São mais educados, de maneira geral, têm maior respeito com a arte. Você é artista, tem o seu valor, as pessoas vão respeitá-lo. Aqui, até hoje, escutamos “Sou músico”, “Mas você vive de quê?”. O Brasil precisa evoluir. Por outro lado, somos um país de uma musicalidade que não tem em lugar nenhum do mundo, de uma criatividade absurda. O que me dá agonia, para nós envolvidos com cultura, é o desperdício. Você vê tanto talento, tanta coisa boa e as pessoas não dão importância. Isso me mata de tristeza. Somos extremamente ricos culturalmente e a nossa música, especialmente, é a mais rica do mundo em termos de composição. Temos um bem absurdo que infelizmente as pessoas não dão tanto valor ou dão metade do valor que deveriam. Mas sou otimista. A internet hoje, a força de todo mundo junto, vamos virar esse jogo. É um momento estranho em que vivemos, só que vai voltar o normal e a cultura vai voltar a ter mais espaço. Acredito! Torço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *