Entrevista com o cartunista Miguel Paiva
March 20, 2007 by Mari Valadares
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01. Miguel, em uma entrevista de 1988, perguntaram como você preferia ser chamado, se era de cartunista, desenhista ou artista plástico. Você respondeu que preferia ser chamado de humorista, porque você possuía muitas atividades, que eram ligadas pelo humor. É para não levar a vida tão a sério, que você costurou seus trabalhos (cartunista, diretor de arte, autor de livro e teatro, publicitário, roteirista, ilustrador e jornalista) com humor?
Não necessariamente. Acho que o humor, além de ser um meio de expressão dos mais agradáveis, é também a melhor forma de se dizer alguma coisa e ser entendido. O humor não se leva a sério, se questiona, expõe nossas próprias mazelas, é revelador, surpreendente, subversivo e transgressor. Nada melhor para se comunicar.
02. Você trabalhou no jornal “O Pasquim”, criado em 1969 e famoso pelas críticas bem humoradas sobre a política brasileira, que na época era regida pelo governo militar. Em 2002, você participou do “O Pasquim 21”, lançado por Ziraldo, que durou apenas dois anos e meio. As comparações do novo com o antigo jornal foram inevitáveis. Como vocês driblaram essas comparações? Por que “O Pasquim 21” não teve uma vida longa?
Foram dois momentos bem diferentes na história do Brasil. O primeiro “Pasquim” foi heróico, transformador, irreverente e oportuno. Veio numa época em que a imprensa ainda era muito amarrada aos padrões mais conservadores. A revolução da linguagem foi evidente. Hoje, um “Pasquim” não caberia mais. Cabe sim um jornal de humor. Chamá-lo de “Pasquim21” foi uma tentativa afetiva do Ziraldo de ressuscitar o mesmo espírito. Acho que não deu certo por questões comerciais e de mercado, nada a ver com o nome.
03. “Radical Chic” e “Gatão de Meia Idade” são seus trabalhos mais conhecidos. “Radical Chic” surgiu em 1982 e até hoje, reflete os anseios de uma mulher moderna de 30 anos. “Gatão de Meia Idade” nasceu em 1994, mostrando os dilemas do homem moderno. Como surgiu “Radical Chic” e “Gatão de Meia Idade”? O que mais o atrai nesse universo das relações humanas?
São dois personagens muito ligados a minha vida pessoal, que surgiram em momentos muito particulares da minha vida. A Radical foi resultado da minha admiração pelo humor feminino, pelas mulheres em geral e pela fase em torno dos 30 anos que era a que mais admirava na época. Talvez porque a mulher ainda preserva a irreverência e a loucura da juventude, mas já rodou 30 mil quilômetros. O Gatão nasceu na minha crise dos 40. Daí a criar um quarentão foi um passo. Não é autobiográfico, mas revela muito do que eu penso. Surgiu naturalmente depois de tantos anos lidando com o universo feminino.
04. Seus personagens foram parar nas telinhas. “Radical Chic” virou programa de televisão em 1993, estrelado por Andréa Beltrão e “Gatão de Meia Idade” virou filme em 2006, estrelado por Alexandre Borges. Os protagonistas do programa e do filme saíram do jeito que você sempre imaginou seus personagens? Você achou que as produções foram cópias fieis de seus trabalhos?
Acho que sim. Fiquei super feliz com os dois. A Radical foi um trabalho super gostoso, pioneiro, numa época da televisão em que nem se sonhava com games shows. Hoje é o que mais se vê. Mas o produto ficou excelente, a Andréia maravilhosa e eu feliz. O Gatão também me deixou feliz. Nada mais “Gatão” do que o Alexandre Borges. O que é aquilo? Foi demais e o filme resultou divertido e despretensioso. Muito bom.
05.“Radical” e “Gatão” também foram parar nas livrarias, sendo quatro e três livros lançados respectivamente. Além dessas publicações, você lançou o livro “Sentimento Masculino – manual de sobrevivência na selva”, que também fala sobre relacionamentos, sentimentos e comportamentos. Seus livros são desabafos ou situações das pessoas nas quais você presta atenção no dia-a-dia?
No caso do “Sentimento Masculino” foi mais do que um desabafo, foi uma reflexão aprofundada, despudorado sobre como lidar com sentimentos. Para nós homens, não é matéria fácil. Nos livros de personagens, e no caso do “Livro de Pensamentos” e mais a minha observação transformada em humor. É o que faço o que gosto de fazer.
06. “O Livro de Pensamentos da Radical Chic”, mostra o lado reflexivo e filosófico da personagem. Você se considera um “expert” no universo feminino?
Considero-me um curioso, um pesquisador da alma feminina. Vou tateando e descobrindo, sei algumas coisas, aprendi a falar a língua, mas daí a ser um “expert” é um exagero. Tenho admiração pelo universo feminino, gosto de como as mulheres interpretam a vida e isso me atrai. É por aí.
07. Você possui um blog (http://www.blogdomiguelpaiva.blog-se.com.br/)*, que tem como “colunistas convidados” os dois personagens, a “Radical Chic” e o “Gatão”. Eles criaram vida própria?
Mais ou menos. Tem certas coisas que só eles diriam, eu talvez não. Além disso, é um recurso simpático para o blog.
O Blog do Miguel Paiva mudou de endereço. Agora é http://bloglog.globo.com/miguelpaiva/
08. Em parceria com Luis Fernando Veríssimo, Miguel também produziu cinco livros com as aventuras do detetive Ed Mort. Quando e como surgiu essa parceria? Vem desde “O Pasquim”?
Não, essa parceria surgiu bem depois, quando voltei da Itália. Levei para o Luis Fernando Veríssimo uma sugestão de quadrinhos para o “Ed Mort”. Ficou a idéia até que anos depois ele foi convidado a publicar as tiras do “Ed Mort” nos jornais e me convidou para desenhá-las. Foram 10 anos de parceria onde aprendi muito com o Veríssimo.
09. Você criou a personagem “Bebel, Top Top Model”. Ela é uma crítica ao mundo fashion?
Ela é mais uma divertida investida nesse mundo dos jovens, adolescentes, que querem virar celebridade a qualquer custo. São as verdadeiras “Fashion Victims”. Divirto-me muito fazendo.
10. Seus personagens são criados de acordo com o veículo que eles serão publicados?
Absolutamente! Criar personagens já não é fácil. Quando uma idéia vem é bom aproveitá-la. Depois de criado, sim, você pode até escolher o veículo ideal. Difícil é saber se o veiculo ideal vai escolher você.
11. Tem alguma novidade para este ano?
Estou preparando uma grande exposição com os meus trabalhos. São 40 anos de produção. Não sei se vai dar em uma exposição bonita, mas já está dando um enorme trabalho. Também estou, é claro, atrás de patrocinador para ela.
Fotos: Reprodução
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