Show de Michel Leme e A Firma no Instrumental Sesc Brasil

May 13, 2009 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Cenas

O Poucas e Boas da Mari esteve presente no show do guitarrista Michel Leme com A Firma, no Instrumental Sesc Brasil, no Sesc Paulista, em São Paulo, no dia 12 de maio. Quem foi no auditório do Sesc pode ouvir um som mais agressivo, improvisos e uma sintonia enorme entre os músicos. Vejas alguns momentos:

Fotos: Mari Valadares
Proibida a utilização das fotos sem a autorização da autora

Michel Leme se apresenta no Sesc Paulista

May 10, 2009 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Cultural

Michel Leme se apresenta no Sesc Paulista, no dia 12 de maio, às 19. O guitarrista divulga o CD “Michel Leme & A Firma”, acompanhado de Thiago Alves (contrabaixo), Jônatas Sansão (bateria) e Cássio Ferreira (sax). Entrada gratuita. Retirada dos ingressos 1h antes do início do espetáculo.

Serviço
Sesc Paulista
Av. Paulista, 119 – Térreo – São Paulo

Entrevista com o guitarrista e compositor paulistano Michel Leme

April 27, 2009 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Entrevistas

Há quase um mês, o site Poucas e Boas da Mari entrevistou o guitarrista e compositor paulistano Michel Leme. Michel toca desde os oito anos de idade e teve como principal influência sua família. No palco, o guistarrista já tocou com músicos de renome como Gary Willis, Michael Brecker, Nenê, Lee Konitz, Joe Lovano, entre outros. Atualmente, Michel está divulgando o seu trabalho mais recente “Michel Leme & A Firma” e desde novembro de 2007 apresenta o programa “Michel Leme & Convidados”, transmitido ao vivo, via internet, pela TV Cia da Música. A conversa durou mais de uma hora, o que rendeu aos frequentadores do PBM uma entrevista para refletir sobre o que consomem por aí. Leia o bate papo inteligente com Michel Leme.

01. Michel, você cresceu numa família musical e toca instrumento desde os oito anos de idade.  Apenas a sua família foi determinante em sua escolha profissional ou há outras influências?

Bom, meu avô tocava violão, meu irmão toca guitarra e meu pai era um amante da música. Minha mãe chegou a estudar piano e tocou harmônica (sanfona). Cresci com meus irmãos ouvindo The Beatles, Jimi Hendrix. Escutava as músicas regionais do meu avô, tenho todas na memória até hoje. Sempre fiquei em contato com isso. Não sabia falar e ia até a vitrola e ficava girando o disco, fazendo xixi no chão etc (rs).
Para mim isso foi determinante, porque o começo não foi dentro de uma escola, foi com o inexplicável. Como é que meu avô tocava tão bem assim? É uma coisa inexplicável. Simplesmente ele tocou a vida inteira. Eu não lidava com a música como uma relação numérica e nem lido, só ouvia. Então hoje em dia, mesmo depois de estudar algumas coisas e ter que ligar o microscópio em outras, ouço música como se eu fosse uma criança ainda. Algumas instituições propõem que música é Matemática, querem a música explicável e isso é uma coisa muito pobre e mentirosa. O barato é o inexplicável. Por que você se arrepia quando ouve Bach? Ou algum acorde de Stravinsky? Não tem explicação. A minha influência inicial foi através do inexplicável mesmo, simplesmente ouvia as pessoas tocarem.
Minha família foi a grande catalisadora para eu começar a respeitar a música. Meu avô falava para mim: “a música sempre foi a minha companheira”. Eu via a música como algo nobre, relativo à experiência humana, não só como algo para ter status.

02. Em sua casa você teve contato com vários estilos de música. Seu irmão Mauro Leme o apresentou o jazz…

É! O meu irmão me apresentou basicamente o rock n´roll, mas ele começou a ouvir alguns caras, tipo John McLaughlin e George Benson. Ele me mostrou esses caras e foi determinante para mim, vi que aquilo era uma música de alto nível, sabe? Não que Jimi Hendrix não seja, é de alto nível igual… Tem muita gente que começa a tocar “jazz” e começa a cuspir no prato do rock, isso é uma imbecilidade. Vai fazer esse cara que acha que toca jazz tocar rock n´roll, ele não vai fazer nada.

Você teve uma fase roqueira. Hoje seus trabalhos é uma mistura de música brasileira com jazz. O que o atrai mais no jazz e no rock n´roll?

Algumas pessoas percebem essa mistura da minha história na minha música. Tem uma amiga que fala: “Você é o jazzista mais rock n´roll que conheço”. (rs) Eu vejo isso como um elogio sincero da parte dela e uma coisa profunda. Isso quer dizer que não nego minhas raízes. Se vier na minha mente algo que remeta a viola caipira no meio de um standard de jazz, não vou pensar duas vezes. A energia do rock está presente sempre, assim como a energia que sinto quando escuto John Coltrane. É uma coisa muito visceral, são faces da mesma moeda. Sinto a nobreza tanto ouvindo John Bonham, quanto ouvindo Elvin Jones.
A razão pelo qual comecei a tocar jazz foi porque queria ser músico, não só um fã ou um cover. E percebi que em um determinado estágio, eu ficava tirando os discos de rock. Queria criar e para criar você tem que conhecer pelo menos os vários tipos de acordes que existem e isso só se encontra no jazz e na música brasileira em geral, que é bem rica, pois bebeu dessa fonte também.

Era difícil ser músico com o rock?

Não cheguei a ser profissional com o rock, comecei a viver profissionalmente de música em 1990. Em 1988, tive vários baques na minha vida, dizendo assim: “Você é um moleque vagabundo e você precisa estudar”. E fui atrás das coisas. Trabalhava em banco e depois fui trabalhar em uma empresa de seguros. Nessa empresa de seguros, eu saí na hora do almoço, vi uma guitarra e a testei. Nisso, um cara me chamou para escrever em uma revista. Eu disse ok e esse mesmo cara fez umas vídeo aulas comigo e não me pagou. Enfim, comecei a viver de música visando tocar mais livre, realmente livre, porque eu não ensaio com os caras que toco. Simplesmente faço questão que eles conheçam a música, mas não ensaio.

Por que não ensaiar? Você não acha importante?

Se tenho um tema, aí ele se repete e depois vai para a parte B e essa parte se repete também, qual a necessidade de ensaiar um negócio desse tamanho? É lógico que tenho músicas mais complexas, mas não vejo sentido em chamar músicos criativos para terem a função de executante comigo. Se eu quisesse um cara executante, chamaria o pessoal da sinfônica ou alguma coisa assim. Não gosto quando as pessoas me chamam para cumprir script, gosto quando elas me chamam para criar, por isso não acredito no ensaio. Para os trabalhos que faço geralmente realizo um ensaio só para os caras conhecerem as músicas e depois a gente toca. E nesse ensaio, não fico falando para eles: “agora vai para o chimbal”.

Você não os direciona.

Não, porque eu confio neles. É a mesma coisa se combinarmos de fazer um almoço juntos. Você fala: “levo as batatas e vou fazer uma salada lá na hora”.  Eu não vou ficar enchendo seu saco para você fazer a salada do jeito que quero, sendo que estou fazendo bife. É uma questão humana. Tento aplicar as coisas que sinto, que tem ligação com uma noção de justiça, por mais idealista que isso possa parecer. A definição de justiça, acho que do Lavoisier, é “ter e fazer o que nos cabe”.  No meu som a mim cabe participar, nada além disso. O disco tem meu nome, porque banco o negócio e tem que ter um direcionamento. Até se eu fosse bom para nomes de grupos seria mais fácil. (rs) Ponho Michel Leme e um disco é “Quarteto”, o outro disco é com o Alex (Alex Buck) e o outro disco chama “Michel Leme e a Firma”. Eu consegui inventar um nome. Na verdade já existia o The Firm, né? Mas aqui no Brasil não tinha A Firma e o The Firm acabou. Então, no meu som sou participante, assisto-o e sinto que os caras que tocam comigo também têm essa mesma posição.

03. Por falar em seus trabalhos (“Michel Leme – Quarteto”, “Alex Buck e Michel Leme – Trocando Idéias” e “Michel Leme & A Firma”), que são todos autorais, o que o faz compor, Michel?

Primeiro que o esquema todo de direitos autorais é muito engraçado. Se eu quero gravar uma música do Tom Jobim, vou gastar uma puta grana, isso me incentiva a fazer minhas próprias músicas. O que acontecia desde a época do Charlie Parker era que ele fazia um lance. Pegava a harmonia de uma música conhecida e colocava outra melodia. Charlie Parker fez isso, acho um puta exemplo, é um jeito também de você não precisar ensaiar. As músicas que faço aparecem quando estou estudando, praticando, como se fosse um estalo. Se eu não ficar esperto e não guardar, não lembro, guardo na hora. Muitas músicas eu salvei gravando a melodia no celular, cantando no carro. Quando você está no fluxo da coisa é óbvio que vai vir algumas ideias, depois procuro trabalhá-la de uma forma intuitiva. Não fico indo atrás de regras de composição ou blá blá blá para desenvolver uma melodia, simplesmente fico tocando. A hora que eu sinto… Você já viu fazer glúten?

Não!

Para fazer glúten, você pega a farinha e faz um bolo com ela e deixa descansando. No dia seguinte, você tira essa farinha que está em volta e só tem glúten no meio. Parece um plástico transparente. Faço isso com as músicas. Fico tocando-as para ficar só o glúten. O que me motiva a compor é que faço molduras para as pessoas criarem e as exigências que eu tenho comigo mesmo é que elas tenham substância. É o tipo de música que você ouve e vai assobiar a melodia depois. As músicas que os caras fazem em teorias, regras e decisões “intelectualóides” não ficam na cabeça.  As sacadas e as coisas que sinto que são mais puras são as que deixo na música.

A sua opção de gravar discos independentes está relacionada com a questão dos diretos autorais?

Sim! Mas a questão de gravar um disco dessa maneira não é justamente por isso, é o contrário. Se eu tivesse uma gravadora poderia gravar qualquer coisa, porque eles iam bancar os direitos autorais, mas não tenho. Não sou adequado para os selos de música instrumental, pelo menos os que conheço.

O que seria adequado para eles?

As pessoas acham que toco um som muito “power” para ser considerado música brasileira. Não faço um som para agradar ou para as pessoas conversarem em cima. O som que faço é mais visceral, vai chegar uma hora que vai pegar fogo e isso não é em todo lugar que se pode fazer. Acho que não me adéquo a essa cultura de música morna que existe por aí. Há alguns selos, que tem até coisa bonita, mas é morno. Cresci ouvindo coisas viscerais e sou um cara intenso. Não consigo falar com você sobre uma coisa sem me envolver. Encontrei isso no jazz, não preciso cumprir o script dentro das minhas próprias músicas, posso virá-las do avesso a hora que vou tocar.

Você acha que hoje o Brasil está apreciando mais a música instrumental?

Existe o jazz universitário. Então os caras falam: “Eu vou naquele barzinho ouvir jazz”. Só que eles chegam lá e falam desde o momento que entraram até a hora de sair, mais alto que a banda. Agora as pessoas que vão tocar em determinados bares têm que tocar mais baixo do que o barulho da torneira. Não toco mais nesses lugares.  Existe esse lado do jazz universitário, a história do cara que ouve o galo cantar, mas não sabe nem onde. Vejo os caras que estudam guitarra comigo, eles chegam de um jeito e saem de outro. Começam apreciar a beleza e a verdade que a música tem, não só no jazz.  Indico muitos tipos de músicas, principalmente erudita e brasileira. Para quem não conhece eu falo: “Você já ouviu Slayer?”  Tem algumas músicas do Slayer que eu gosto, como por exemplo Bloodline, é fantástica . Quando estou bravo ouço essa música. Existe música para tudo e para qualquer hora, desde que seja honesta. Não suporto ouvir pessoas que querem agradar as outras, isso é morno demais. Como tem 6 bilhões de habitantes, obviamente que ia aumentar o número de pessoas que apreciam música instrumental, mas questiono a maior parte dessa apreciação. Às vezes acho que isso é mais uma modinha. O cara que aprecia mesmo é o que vai para o bar e não tem grana. Ele paga o couver e toma um Coca-Cola das 11 da noite até às 3 da manhã, saca? Toma uma menta. (rs) Eu me identifico com essas pessoas que buscam a verdade. O jazz universitário estou fora. Não estou a fim de tocar para essa gente, prefiro tocar num lugar que tenha 20 pessoas, mas que fiquem quietas.

Hoje tudo é universitário. Sertanejo universitário, forró universitário…

É! Teve o aniversário de um projeto, que chama ”Jazz nos Fundos” e estava lotado. Fizeram num lugar grande lá na Barra Funda (São Paulo). Achei legal a iniciativa, mas quem estava ouvindo o som mesmo eram umas 30 pessoas que estavam na frente do palco. Dali para trás era o pessoal a fim de baladinha. Virei para o baixista, o Thiago Alves que toca comigo, e disse: “Pois é, jazz universitário”. E a gente riu pra caralho, porque é isso que rola. Acho legal fazer parte dessas coisas, mas quando participo disso não faço nenhuma concessão para esses caras. “Vamos tocar uma do Luiz Gonzaga que o pessoal conhece”. Nem fodendo! Só toco minhas músicas basicamente, não por orgulho, é porque não importa se você está tocando isso ou aquilo, se está bom, está. Para quê agradar as pessoas? Eu não quero agradar ninguém mesmo.

04. Sobre o cd “Michel Leme & A Firma”, em janeiro 2008 a revista Guitar Player Brasil escreveu que você com seu estilo único vem desenvolvendo um belo trabalho de música instrumental. De que forma esse estilo único foi lapidado? Tem receio de ser comparado a outros músicos?

Para ser você mesmo na arte, você tem que ter um desprendimento muito grande, uma certa coragem para segurar a onda do que vão falar. Há pessoas que acham que uso mais notas do que cabe na guitarra e baboseiras assim. Não ligo muito, a opinião de pouquíssimas pessoas que realmente importam já me esclareceu enquanto a isso. Não tenho medo de ser comparado com ninguém, simplesmente não anda acontecendo. Acho isso um caminho natural, porque não estou numa gravadora e não fiz nenhum pacto com o sistema. Banco ser eu mesmo na hora de tocar e fico muito triste quando vou ver alguém tocar e está imitando o Pat Metheny, por exemplo. Ou quando vejo algum saxofonista tocar e ele está imitando o Michael Becker. Isso é muito triste! Tenho um sentimento de vergonha alheia muito sensível, acho que é hereditário isso. Às vezes meu pai via TV e chamava a minha mãe: “Marli, vem ver, tá me dando aquele dó”. Ele ficava com dó, ele não sabia o nome disso, mas é vergonha alheia.  Tenho vergonha alheia dos caras que se acham importantes e da pessoa que fala alguma coisa para você achando que aquilo vai ter um impacto. Cada vez mais aprendo que é legal ser você mesmo e foda-se o que os caras acham, por mais clichê de filme americano que possa aparecer. Toco guitarra e violão vai fazer 30 anos e é obvio que depois de um tempo começa aparecer você no negócio, só que desde o começo eu já estava atento a isso. Quando estava com alguma influência: “Opa! Para!”. Então, por exemplo, eu tomei cuidado de não ficar ouvindo guitarristas. Guitarrista imitando guitarrista é muito latente. Quando comecei a considerar mais seriamente esse tipo de música, ouvia os caras que improvisavam do jeito que eu gostaria de improvisar. Tem uns caras aqui que eu adoro ver tocar, mas não tenho uma influência direta deles. Heraldo do Monte, por exemplo, toca livre. E o Arismar (Arismar do Espírito Santo) também. Meu amigo e professor sem ele saber, mas sabendo. Quando vejo esses caras tocando é como se eu visse uma fonte pura, sem precisar copiar o que eles fazem. É isso que as pessoas não entendem. Influência não é você copiar a frase que o cara faz ou o trejeito dele, a influência é aprender o quanto você pode ser livre e quão longe pode ir. Quando falam que tenho o meu estilo para tocar, também não vejo isso para enaltecer meu ego, embora várias pessoas usem para isso.  Vejo como se fosse um sinal de que estou no caminho certo.

Não deixa de ser bom receber elogios.

Eu tenho uma vacina contra elogios das mais fortes, Mari. Fui vendo ao longo dos tempos como as pessoas reagem a isso. Às vezes escrevo no meu blog: “Cuidado!  Você não está aí para a música servir você, você serve à música”. Eu li isso no livro do Stravinsky e achei perfeito, “o músico serve à música” e não o contrário, como algumas pessoas querem fazer. Vejo alguns caras com talento entrando nessa onda, tocam bem, mas não são eles ainda. É como se as pessoas tivessem desfocadas. Procuro ler muito e avaliar as coisas que faço, tem a ver com auto-conhecimento. A música é auto-conhecimento. O “conhece-te a ti mesmo” está em todos os lugares, é só as pessoas estarem alertas e depreendidas do seu orgulho, do seu ego e da sede de ganhar grana.

05. Agora vou falar sobre os cursos que ministra. Você dá cursos de guitarra presencial e on-line.  Como funciona o curso on-line? Tem o mesmo efeito que o presencial?

Faço aulas auto-explicativas, por isso tenho uma preguiça muito grande de fazer. Estou na aula 03. (rs) Quem recebeu a aula 02 não me mandou uma pergunta, achei isso maravilhoso. Obviamente pode ser que eles não estudaram, mas por outro lado quem estudou viu que vai ter que tocar.

Você dá aula em duas escolas de música e conversando antes da entrevista, você disse que não segue métodos para dar aula e que é contra a isso. Não é um pouco contraditório?

Não acho contraditório, porque ensino música da maneira que eu gostaria de ter aprendido. Tive alguns professores, mas eles me mostraram alguns aspectos, não pegaram na minha mão e falaram: “Isso é uma guitarra”.  Ninguém fez isso, talvez meu irmão e meu avô. Procuro ensinar música me colocando no lugar do cara que está ali. Se você vai aprender música comigo, vou explicar de um jeito que realmente você vai entender, nem que para isso eu tenha que sangrar. Geralmente você mostra coisas na prática e explica na lousa de uma forma simples e o cara já entende. O grande lance é “faça música com o que estou ensinando você, faça música agora, é possível”. Então desde o primeiro momento que o cara está estudando comigo ele cria, improvisa.

Qualquer pessoa pode tocar guitarra ou é dom?

Acredito no dom e também acredito no esforço. Só acho que tem certas coisas que não fazem o cara músico, como por exemplo, um diploma. Mas se o cara ama música e ele sente que tem um jeito para aquilo, ele tem mais é que tocar, mesmo que seja um hobby para ele não sair atirando nas pessoas. A música só vai fazer bem. Agora, para o cara que realmente tem uma inclinação, nem precisa falar para ele fazer isso. A pessoa que desconfia que tem jeito deve fazer sim, porque ela só vai ajudar as pessoas que estão ao seu redor encararem a música de uma forma um pouco melhor, e não como uma coisa imbecil que “só vale a pena se você tocar no Faustão”. Você só é um artista de sucesso se você aparecer num programa dominical demoníaco? Demoníaco no sentido que aquilo é uma mentira, é ilusão. Por que os caras não enxergam quem realmente tem talento? Por que não tem música instrumental no Domingão do Faustão? O que será que tem por trás disso, qual é o esquema? Fica para cada um pensar e atestar a verdade, experimentar a verdade por si só. A gente tem internet agora, vai no Youtube e digita Olivier Messiaen e assiste os vídeos dele enquanto passa aquela merda do Faustão ou do Luciano Huck, esse tipo de lixo que tem em todos os canais. Quem esta atrás da cultura genuína deve ir atrás, a cultura não vai chegar até você. E nesses tempos travestidos de democracia mais ainda.

Qual é o perfil dos seus alunos?

É dos caras que começam a questionar as coisas.  O perfil dos meus alunos são os caras que fazem faculdade de música, outros são que estão inseridos em algum método dividido em fases de alguma escola e começam a questionar isso. Eu não dou aula de um jeito popular, não é muito agradável, (rs) mas é divertido. Você cria. Não estou dizendo que sou um cara desagradável e que exijo e dou bronca nos caras antes. Tem gente demais fazendo isso, não preciso fazer desse modo. Simplesmente se o cara não estudou uma coisa, eu falo “vamos tocar então aquela outra música” e a gente fica tocando. Uma hora o cara vai aproveitar e eu também. Geralmente os caras que vem tocar comigo, são os que estão fartos de alguma coisa. Eu sinto isso.

06. Você apresenta todas às quintas-feiras pela internet o “Programa Michel Leme & Convidados”, desde novembro de 2007, pela TV Cia da Música (http://www.tvciadamusica.com.br/). Como é feito o programa, Michel? Sempre há novidades?

Por várias vezes aconteceu de eu inventar uns projetos de tocar em lugares que não tinham música, como aconteceu em 2001, no Souza Lima (Conservatório). Estava de saco cheio dos bares, dos proprietários caprichosos e alucinados, do barulho, porque os cara fazem bar, querem ter música ao vivo, mas tratamento acústico que é bom nunca, com raríssimas exceções. Cheguei para o Mario de Souza Lima e falei: ”Tem um dia da semana que possamos tocar aqui?” E comecei a tocar com o Thiago do Espírito Santo e o Cuca Teixeira. Essa ideia foi minha e do Cuca. Chegamos a gravar um cd chamado “Um dois trio” nesta época. O que está acontecendo agora é a mesma coisa. No final de 2007 cheguei para o Klaus Ximenez, da Cia da Musica e disse: “Klaus, eu não tenho estômago para tocar nos bares”. Preciso tocar sempre, entendeu? Se eu não puder tocar, vou enlouquecer.  E perguntei se tinha um dia para poder tocar. E ele disse: “Tem, vamos fazer na quinta-feira, mas só dá para ser até 20:30”. Eu disse ok e ele teve a ideia de transmitir pela internet. Meu assessor de imprensa, o Bruno Bacchi, entrou na jogada e falou: “Não vamos fazer apenas uma transmissão pela internet, vamos fazer isso virar programa”.
No programa tem algumas coisas que acontecem tradicionalmente, mas que são engraçadas, como o “Pensamento do Dia”. Eu pergunto para o Klaus qual o pensamento do dia e ele fala qualquer coisa que acha que deva falar. Inaugurei quadro “Que som você está ouvindo essa semana”. O que tem de fixo também é o contato com os internautas, que fazem perguntas ao vivo. O formato é só uma moldura, porque as pessoas mudam e o contato com os internautas é direto. Eu estou tocando toda a semana lá, só que a gente agregou um valor de ser um programa. As pessoas ficam contentes quando chamo para tocar comigo. Para você ter uma ideia a gente não repetiu um convidado desde março até dezembro. Não tem uma rotina, é uma coisa fascinante. Aprendo músicas novas, aprendo músicas das pessoas que vão tocar comigo. Procuro deixá-los o máximo a vontade possível.  Vem sendo gratificante, porque é um movimento que está rolando.

A internet é o melhor meio de divulgação de trabalhos instrumentais?

O melhor não é, o melhor seria a TV, mas é o que temos, enquanto a gente pode. O que era uma coisa para isolar as pessoas acabou sendo o tiro que saiu pela culatra. Obviamente que as pessoas estão se isolando, um vizinho fala com o outro por MSN, mas tem um fator de democracia muito fudido. Você está no site da Madonna, depois vai para o meu. Às vezes você está no site de um cara bancado por gravadoras e vai no meu site, por exemplo, porque está mais atualizado. É um meio que a gente deve aproveitar, tento me utilizar disso. Às vezes me considero até um pouco nerd, porque fico muitas horas por dia respondendo as pessoas, respondo todas as mensagens que me mandam. Tento usar isso muito bem, sabe Mari? É por esse motivo que a gente está aqui também. Se for para inverter para o bem e para unir as pessoas acho que está valendo. O que o sistema não quer, o sistema entende-se como oligarquias, bancos e corporações multinacionais, são as pessoas se reunindo, é muito perigoso. Só que a gente está resistente.

Qual é o perfil do internauta que assiste ao programa? São só pessoas que gostam de jazz, guitarra?

Esse é o filão do negócio, mas pelo que o Klaus me fala na hora: “Tem um cara aqui do Espírito Santo e tem um cara de MG…” Toda semana aparecem pessoas diferentes. De fato, essas pessoas que entram em contato são as que falaram no MSN. A gente não sabe quem apenas assiste, porque o sistema de dados do servidor não é muito bom, não sabe precisar certas coisas. O feedback que tenho são das pessoas que comentam comigo no Orkut, são as que aparecem lá que eu nunca vi antes. Acho que é uma coisa boa para unir as pessoas. Outra coisa que acho interessante do programa é que é totalmente arriscado, não tem ensaio, livre.
Agora tem uma contradição, um paradoxo na história. Quanto mais livre você é, mais você é mandado pela música. Esse é o grande mistério. Só que quanto mais me desprendo do meu ego, de minhas idiotices e dos meus defeitos, mais eu vou ser um instrumento da música.

07. Tem algum trabalho que você mudaria?

Eu faria o “Um dois trio” completamente diferente. As músicas são boas, mas naquela época a gente gravou com tudo ensaiado. Os solos não eram ensaiados, mas os finais, como acabavam os solos e as convenções eram muito ensaiados. Hoje é possível você fazer isso na hora. Musicalmente é isso.  A mixagem e a máster também faria de novo, porque teve muitos problemas. Gente que acha que tem experiência mexendo no que não sabe. Tem muita gente que gosta desse disco. Acho que a parte musical é digna, honesta, só que faria diferente. O que olho em relação aos outros trabalhos é que quando gravo em um disco de alguém nem sempre estou tocando nas condições que gostaria. Às vezes o cara me apresenta uma cifra e fala “toca aí”. Solo em cima olhando uma cifra para não me dar mal. Não sai muito boa a música.

Você fez várias participações.

Sim! As melhores foram quando eu estava livre e sabia a música.

Como é feita a gravação dos discos já que você não segue um roteiro?

Você diz gravação em trabalhos de outras pessoas?

Isso!

Tem o cara que me dá uma cifra e eu aprendo a música na hora, lendo, porque às vezes são músicas complicadas e não intuitivas. Música intuitiva geralmente você decora fácil, mas quando não é, você não vai falar para o cara que não vai gravar porque ela não é intuitiva. Se ele chegou até ali vou respeitar a opção dele e fazer o meu melhor. Há trabalhos, por exemplo, que achei interessantes. Ocorreu há uns dois, três anos com o cd da Izzy Gordon…

Que eu adoro!

… é muito legal, né? E a Izzy é fantástica, uma das pessoas mais relax que conheço… Quem me chamou foi o produtor, o Eric Escobar. No dia da gravação, ele chegou atrasado e eu já tinha gravado tudo. Foi assim que gravei umas três faixas. Teve solos que eu pensei que não iam passar e eles adoraram. (rs) Toquei totalmente a vontade. Como não era uma produção de milhões, acho que pode rolar desse jeito. Fiquei muito contente, principalmente pela Izzy, que estava sentada lá, ouvindo e curtiu.

Como funciona uma gravação de disco?

Nesse caso já estava tudo pré-gravado, a voz dela e os instrumentos, eu só pus a guitarra. Alguns casos, por exemplo, fui gravar um disco com um baterista do interior de São Paulo, o Mateus Zani, e a gente gravou ao vivo, porque ele me perguntou como eu gostaria de gravar. Gosto de tocar a música sem ler. Quando você lê, você não está tocando 100%. Outra participação foi no disco do Arismar, chamado “Foto do Satélite”, na faixa “Terça às 13”. Eu conhecia a música mais ou menos e me avisaram que eu tinha que fazer a melodia na hora, só que eu não sou um músico leitor. Aí me virei na hora e gravamos no segundo take. Foi uma experiência boa, acho que foi um take bem honesto. Outro disco foi o do Bocato, “Os Reis do Samba Jazz”, que foi outro processo. A gente tocou pra cacete as músicas e gravamos. Inclusive esse disco foi muito louco. Chegamos às 7 da manhã para gravar e simplesmente um adat quebrou. Aí nós almoçamos, retomamos a gravação e outro adat quebrou. Nós tínhamos um trabalho num lugar que me recuso a dizer o nome e que começava umas 10:30 da noite. Nós gravamos o disco inteiro das 7:30 às 10h, sem take dois. Foi muito legal! Não gosto da minha performance, entende? Mas o espírito da coisa foi “do caralho”. O Bocato fez umas coberturas depois, acho que não precisava, mas enfim, cada um com sua visão. Eu não sou a fim de coberturas, a não ser em doces. (rs) Não faço overdub. Uso Photoshop em mim, porque sou feio (rs), mas na música não. Quanto mais arestas a música tem, mais honesta ela é.

08. Michel, quais são seus próximos projetos?

Eu ainda estou divulgando o cd “Michel Leme e a Firma”. Vou fazer um show no Sesc Paulista dia 12 de maio. Só que já estou em transição para outro, tocando músicas novas, basicamente com dois ou três grupos diferentes e provavelmente vou gravar quando eu sentir que é a hora, porque acho legal o exemplo de alguns caras que só gravam quando eles têm algo para dizer. Não gosto simplesmente de falar por falar. Meu pai já me dizia que quando você não tem nada para falar, fique quieto. Ele disse umas duas ou três vezes na minha vida e foi decisivo. Na música rola muito isso. Não gosto de fazer planos, o que tenho em mente agora é tocar as músicas novas.

Esse projeto não tem nada definido: nome por exemplo?

Não, mas quando tiver eu vou mandar para você.

Obrigada!

Eu acho que conforme o tempo passa a noção de que você está fazendo a contra cultura é cada vez mais clara. Quero cada vez mais tocar em lugares que crianças e velhos possam ir. Não estou mais a fim de ficar chafurdando no lamaçal do esquemão de bares de jazz em São Paulo. Isso é uma mentira muito grande. Os próprios donos não sabem porra nenhuma de jazz, não sabem o que é tocar livre, e nem sabem quem toca e quem não toca. A coisa funciona muito com simpatia. Quem sorri mais, toca mais nesses lugares. Eu nunca tive estômago para isso, então estou inventando meus lugares para tocar.

Engraçado você falar sobre esse assunto, porque conversando com uma tia (Eugênia Bueno) que adora jazz, ela me disse que freqüenta um jazz bar em São Paulo e que lá não é para conversar e sim, para apreciar a música.

Tia da Mari, por favor, me dá o endereço agora. (rs)…  Ainda sobre os projetos, ao invés de ficar reclamando que o cenário é esse, eu estou fazendo alguma coisa. Além de tocar na Cia da Música, aos sábados eu toco no Souza Lima, em Moema, na Matic, na Teodoro Sampaio e na Virtuose, na Zona Leste. Basicamente estamos fazendo entrada franca. Quero tocar onde as pessoas não querem tocar. Tocar livre, não quero ninguém enchendo o meu saco.

É muito complicado ir contra a corrente?

Sim! Para ser uma pessoa digna, eu sabia que seria assim. Conheço pessoas que dedicam seu talento para colocar azeitona na empada do sistema e das gravadoras. E asseguro que essas pessoas são tristes e cada vez mais problemáticas e deprimidas, enfim, elas estão se afundando cada vez mais nesse tipo de miséria, porque para manter um status material elas trabalham para isso. Prefiro pagar minhas contas dando aulas e a hora que eu for tocar, quero tocar onde posso realmente. Não toco para distribuir meus cartões, para aparecer. Só de poder tocar eu acho uma grande dádiva. Vi um documentário do Ray Brown falando que o objetivo sempre foi tocar e eu achei umas das coisas mais claras em relação a de você exercer a arte da música.

09. Uma mensagem para os frequentadores do site Poucas e Boas da Mari.

Continuem visitando o Poucas e Boas da Mari e não sejam passivos diante do que a mídia quer que você consuma ou seja. Fiquem alertas e busquem a cultura genuína, aquela que faz bem e que causa evolução em vocês. Cada um sabe o que realmente faz evoluir.

Muito obrigada, Michel

Obrigada você!

Fotos:
Giselly Gonçalves

Quer ter a entrevista com o guitarrista e compositor Michel Leme em seus arquivos? Clique aqui entrevista-com-michel-leme (para abrir o arquivo .pdf precisa ter o programa Adobe Reader – Imprima se necessário, preserve o meio ambiente)

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