Entrevista com a atriz Lena Roque
February 14, 2006 by Mari Valadares
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Mari Valadares com Lena Roque, no Ateliê de Artes e Ofícios, em São Paulo
01. Pra começar, conte um pouco da sua trajetória no meio artístico.
Sou formada como professora de teatro, dou aula há 15 anos já. Fiz licenciatura em artes cênicas na ECA, USP (1990-1995), mas sempre trabalhei como atriz profissional. Profissionalizei-me no teatro amador. Participei de teatro de rua, clown, comédia, tragédia, dirigi cinco espetáculos e agora to dirigindo outro. Escrevi texto para teatro e escrevi dois roteiros para curta metragem. Também fiz curso de iluminação no CPT, Sesc Consolação, em São Paulo, fiquei cinco anos fazendo iluminação para show, teatro, dança. Em 1998, fui fazer uma peça, que se chamava “Domésticas” e com esta, ganhamos vários prêmios e viajamos o Brasil todo e fora do país. Foram três anos de espetáculo. Daí surgiu a oportunidade de fazer um longa metragem. O diretor Fernando Meirelles foi assistir ao espetáculo, gostou da idéia e quis transformar a peça em filme. Fiz “Domésticas – o filme” e depois um outro longa que estreou ano passado, que se chama “Quanto Vale ou é Por Quilo”, do Sérgio Biachi. Esse ano estréia o terceiro no qual participei, que se chama “Bom dia Eternidade”, do diretor Rogério Moura, primeiro longa dele. E na televisão eu fiz minisséries, novelas. Minha última novela foi “Essas Mulheres”, da Rede Record. No total são 20 anos de trabalho.
02. Você participou da novela da Rede Record, “Essas Mulheres” e a emissora está investindo muito alto para derrubar o monopólio da teledramaturgia “global”. Essa estratégia da Record é como “dar um tiro no escuro”?
Eu acho que não, porque um tiro no escuro não ia atingir lugar nenhum, não ia atingir o alvo e a Record está com uma proposta muito boa, a emissora tem valorizado muito as pessoas que trabalham lá dentro. É claro que são pessoas que saíram da Globo, mas só tinha a Globo. Então essas pessoas são formadas pela Globo, tantos os técnicos, como os atores. A Globo tem o seu mérito, porque é especialista em teledramaturgia e a Record, então, pega essas pessoas e também investe no trabalho delas e quer ter um produto de qualidade. Isso gera um concorrência, que é muito saudável.
03. Dois longas metragens, dos quais você participou, “Domésticas – o filme” e “Quanto Vale ou é Por Quilo?”, tratam de assuntos polêmicos. O primeiro mostra a dura realidade e os sonhos de cinco pessoas diferentes, todas empregadas domésticas. O segundo, a visão nada positiva de Organizações Não Governamentais, ONGs, que fazem solidariedade de fachada. Você acha que o cinema, como produto de exportação, contribui para denunciar nossas políticas falhas?
Uma parcela dos cineastas brasileiros tem esse objetivo: denunciar. Mostrar as mazelas brasileiras, a falta de cuidado que se tem com a população. Eu acho que tem uma visão negativa do nosso país, mas tem seu mérito como produto artístico e também, tem o seu mérito como campo de denúncia. É positivo, que cada vez mais o cinema brasileiro possa ter várias facetas: comédia, documentários, curtas, animação, cada vez mais possa se explorar o universo brasileiro. Eu não gostaria que o Brasil fosse visto lá fora como um lugar onde as pessoas são maltratadas, onde as pessoas são rejeitadas, mas isso é uma realidade que acontece.
04. É muito difícil interpretar um papel que não tenha nada a ver com você, como a Créo de “Domésticas”, por exemplo?
Interpretar já é uma função muito difícil. Tem papéis que são mais difíceis do que os outros, mas todos são distantes da gente. Eles são ficcionais. A gente consegue abordar a humanidade dos personagens: o seu amor, o seu ciúme, suas dores, suas angustias, isso é universal. Qualquer pessoa, de qualquer classe social, ela vai passar por isso. Então, a universalidade dos sentimentos a gente consegue transmitir. Agora, as características daquela personagem, porque ela desempenha uma função, um papel social, uma coisa específica, isso tem que ser trazido de fora. Acho difícil, devemos ter um cuidado muito grande. Personagens próximo da nossa realidade, achamos que é mais fácil, mas podemos cair na mesmice.
05. “Domésticas – o filme”, como citado anteriormente, traz a dura realidade e os sonhos de cinco pessoas diferentes, todas empregadas domésticas. O fato de o filme mostrar essas mulheres falando errado o tempo inteiro, o gosto por novela, sonhos com galãs, músicas bregas não é estereotipar uma classe que já sofre com a realidade em que vivem?
Eu acho que não. Muitas dessas pessoas falam errado, o universo delas é televisivo, ele (o diretor) está retratando como são essas pessoas. Claro, que em uma classe de trabalhadoras, quatro, cinco, talvez 10%, 20% não falem errado, talvez não gostem de música sertaneja, brega, mas a maioria delas gostam, porque a gente fez entrevista quando fomos fazer o espetáculo e fizemos entrevista com quase 100 mulheres. A Renata Mello, que é diretora do espetáculo fez as entrevistas. Nós ouvimos e lemos as entrevistas, pois também estava documentado. Eu conheci muitas dessas mulheres, realmente o universo delas é o retratado no filme. Não acho estereotipado, acho real. È risível? Sim, é, porque a gente está olhando de cima, porque a gente está como ator, diretor, como jornalista, como público, mas a realidade dessas pessoas é essa.
06. “Domésticas”, antes de ser filme, era um espetáculo (teatro) e você fazia parte do elenco também. É difícil fazer a adaptação de linguagem e de atuação, já que esses dois meios de entretenimento são bem diferentes nesses dois aspectos?

Poster do filme "Domésticas"
Muito difícil, porque o espetáculo “Domésticas” é um espetáculo de teatro e dança, um gênero muito específico da linguagem teatral e o cinema não. O cinema não tem nada a ver com isso. A transposição é bastante difícil, pois as linguagens são totalmente opostas. Eu senti dificuldades, bastante, era meu primeiro longa, mas a minha sorte é que eu já dominava a personagem.
07. Filmes como “Cidade de Deus”, “Madame Satã e a novela da “Cor do Pecado”, da Rede Globo, trouxeram como protagonistas atores negros, situação que pouco se vê nos meios audiovisuais, já que sempre ocupam papéis secundários. Você acha que essa postura bastou para trazer alguma mudança para essa situação?
Não acho que bastou, é um começo, é um primeiro passo. Essa mudança para que atores negros possam ser sempre protagonistas ou ter muitas oportunidades ela demanda um tempo. Não é uma coisa a curto prazo, porque desde que a gente foi colonizado e que a escravidão se estabeleceu no país não faz tanto tempo assim. Então a gente tem um tempo para mudar essa realidade. Acho que depende muito dos atores negros terem uma postura firme, um profissionalismo muito grande, para que no momento certo, quando precisarem da gente, a gente possa responder a altura. A sociedade vai mudando, vai vendo outras questões que vão sendo abordadas e a realidade do povo negro tem que ser abordada de qualquer maneira, porque eles fazem parte da sociedade.
08. Qual o gênero (TV, cinema, teatro) que mais você gosta de fazer?
Adoro fazer televisão. Eu gosto muito de cinema. Cinema é uma magia, uma coisa linda. Quando você se vê naquela tela enorme seu rosto, sua interpretação é muito bom. E o teatro é nossa casa, nossa formação, eu devo tudo que eu sou ao teatro. Não tem como escolher. Acho que eu gosto mesmo é do meu ofício, eu gosto de ser atriz.
09. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.
“Sofra o que tiver que sofrer. Desfrute o que tiver pra ser desfrutado. Considere tanto alegria, como sofrimento uma fase da vida e não obstante ao que aconteça, continue a ter um pensamento positivo e acreditar na felicidade.”
Fotos: Márcio Mehiel e Reprodução
Trailer: Domésticas – o filme
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