Entrevista com o violonista mineiro Tabajara Belo

March 16, 2009 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Entrevistas

O Poucas e Boas da Mari entrevistou o violonista mineiro Tabajara Belo. Profissional de destaque, Taba já trabalhou com importantes nomes da música de Minas Gerais, como Déa Trancoso, Marina Machado, Paula Santoro, Wagner Tiso, Vander Lee, Amaranto, entre outros. Em seu cd de estreia, o vilonista recria pérolas da canção brasileira, como “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro. Já em seu segundo trabalho, chamado “Suíte Brasil, ele faz parceria com o flautista Bruno Pimenta. Leia a entrevista e conheça mais sobre a trajetória de Tabajara Belo.

01. Tabajara, você é violonista de destaque na cena musical de Minas Gerais. Conte um pouco de sua história com a música instrumental.

Foto: Cuia Guimarães

Como muitos violonistas da minha geração, comecei ainda menino, sonhando em tocar guitarra, rock’n’roll, essas coisas. Tive essa inevitável e importante fase roqueira, mas a partir do contato com o violão erudito, o leque foi se abrindo e acabei ouvindo muito Baden, Raphael, Gismonti e por aí vai.  Sempre fui um estudioso obcecado pelo instrumento e muito aberto a todas as tendências. Apesar de minha longa trajetória acadêmica dentro do violão clássico, nunca deixei de lado as rodas de choro e todas essas formas tão lúdicas, ricas e informais de se fazer música. Sou um típico violonista brasileiro, no que diz respeito a essa formação híbrida popular-erudito, a escola versus o bar, o sagrado e o profano.

02. Em seu CD de estreia “Tabajara Belo”, você recria pérolas da canção brasileira. “Carinhoso” (Pixinguinha/João de Barro), “Apanhei-te Cavaquinho” (Ernesto Nazareth), “Frevo” (Egberto Gismonti) são algumas que estão no repertório.  Como foi o trabalho de “recriar” essas canções?

É uma recriação quase espontânea, que vem da minha paixão por essas canções. Quando gosto de uma melodia, qualquer que seja, faço logo, sem pretensão alguma, um mini-arranjo, transportando pro violão o tema e testando a fusão com a harmonia, já alterando alguns acordes, vendo em qual tom a coisa soa melhor, etc. Procuro dar um toque pessoal, trazer algum frescor pra música. Se isso acontece, incluo o arranjo no repertório e vejo se fica legal no violão solo, se precisa da banda ou só percussão, por exemplo. A época do primeiro disco, esses arranjos que você citou já estavam prontos e razoavelmente amadurecidos, não foi difícil escolher. Como minha produção autoral, naquele momento, ainda era pouco consistente, a decisão de gravar esses clássicos foi natural, sem nenhuma espécie de receio por estar pisando no ‘solo sagrado’ do nosso cancioneiro.

03. Junto com o flautista Bruno Pimenta, você lançou “Suíte Brasil”. Fale sobre essa parceria, Taba.

O Bruno é um músico conhecido aqui em Minas, um flautista maduro que já tocou com muita gente, mas não tinha, ainda, um trabalho instrumental registrado em disco. Começamos a tocar há uns três anos, meio por acaso, e acabamos nutrindo uma enorme afinidade musical. Ele também carrega essa formação de músico da noite, ao mesmo tempo em que estuda Composição erudita na UFMG. É uma linguagem parecida com a minha, uma malandragem temperada com muito apuro e atenção aos detalhes. Procuramos, nesse CD, dar uma pincelada em vários gêneros e ritmos brasileiros, na perspectiva enxuta da formação violão e flauta. O resultado da fusão timbrística desses dois instrumentos é sempre muito aconchegante, e a gente tentou dosar, com muito critério, os trechos de diálogos improvisados com as partes mais demarcadas, pra coisa não ficar nem muito austera nem ao Deus-dará. Tenho muito carinho por este trabalho.

04. Como você definiria seus dois trabalhos: o solo e o “Suíte Brasil”?

Ambos são discos de intérpretes e arranjadores, já que, à exceção da canção Choro do Cáctus, não há temas autorais nesses dois registros. Penso que no solo fiquei muito à frente de tudo, meu violão é o centro das atenções. No SB a dupla responde por todos os detalhes, cada decisão mínima é fruto de debate e negociação. Além disso, acho que no aspecto musical o SB me revela de uma forma mais despojada e visceral, menos rigoroso quanto à precisão técnica e sonora.

05. Você é mestre pela Universidade do Arizona, nos EUA, onde também trabalhou como professor-assistente.  Em 2008, fez uma turnê com a cantora Déa Trancoso para a Europa. Qual a sua opinião sobre a receptividade do público no exterior em relação à nossa música? Você acha que o brasileiro dá a devida importância para a música instrumental?

Com Déa Trancoso na Itália

Com Déa Trancoso na Itália

É engraçado, porque, no exterior, há aspectos do nosso código musical que eles não entendem e, de certa forma, isso bloqueia alguns momentos da troca de energia público-artista numa performance ao vivo. Não estou falando só de letra, mas de certas inflexões rítmicas, certos maneirismos melódicos nossos. Por outro lado, o público não-brasileiro traz, ao mesmo tempo, um surpreendente reentendimento do discurso, além de curiosidade e um fascínio inocente pelo novo e pelo diferente, próprio de alguém que observa a cultura de um outro povo. Penso, também, que a escuta instrumental, principalmente na Europa, é um processo mais consolidado que aqui, talvez pela forte tradição erudita, orquestral, que existe no Velho Continente.

06. Quais são as novidades para este ano?

Tenho intensificado meu foco nos trabalhos instrumentais que desenvolvo. Há alguns workshops agendados, o que é ótimo, porque é um formato que adoro fazer. Abre espaço pra gente falar do processo de trabalho, tem essa pitada didática que o público geralmente gosta muito. Pretendo realizar shows de lançamento do Suíte Brasil e vou sair em turnê nacional com o projeto Violões de Minas, junto com conterrâneos parceiros do instrumento como Juarez Moreira, Geraldo Vianna e Gilvan de Oliveira. Há ainda a pré-produção de um novo disco, de composições minhas em parceria com minha mulher, a pianista Pamelli Marafon, paulista de Rio Claro.

07. Uma mensagem para os frequentadores do site Poucas e Boas da Mari.

O Poucas e Boas é um grato exemplo de utilização jornalística produtiva e inteligente da internet. Chega a ser um oásis cultural nesse deserto de futilidades e perda de tempo em que a rede se transformou. Continuem prestigiando e divulgando o site! Aproveito pra convidar todo mundo a conhecer um pouco do meu trabalho no www.myspace.com/tabajarabelo, além de vários vídeos meus disponíveis no youtube. Foi um imenso prazer participar dessa entrevista. Um grande abraço.

Fotos: Cuia Guimarães e Marcelo Oliveira

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