Entrevista com o ator e diretor teatral Marcio Juliano, da Cia Ilimitada

Um momento de descaso e desinteresse pela Cultura em todas as esferas.
É assustador. É triste. É uma vergonha. Mas devemos resistir e persistir, não é?
Marcio Juliano

Em 1º de abril,  estiveram no Sesi Piracicaba os artistas Marcio Juliano, Gabriel Schwartz, Ale Age, Marcelo Torrone, Luis Rolim e a cantora Mônica Salmaso, como convidada. Era a Cia Ilimitada, de Curitiba (PR), com Noël, musical em homenagem ao carioca Noel Rosa (1910-1937). No show, a Cia utiliza instrumentos tradicionais e não convencionais para transitar de forma livre pela obra do sambista. Deste espetáculo, que completou 10 anos em 2016, foi lançado o cd Noël (2009), que retrata fielmente o que é apresentado nos palcos. Para falar sobre a concepção do musical, o Poucas e Boas da Mari conversou com o cantor, produtor, ator e diretor teatral Marcio Juliano. Além de Noël, Marcio fala sobre a trajetória da Cia Ilimitada, da qual é um dos fundadores; e opina sobre o tratamento dado à Cultura por todas as esferas públicas.

POUCAS E BOAS DA MARI – Marcio, em 2006, a Cia Ilimitada estreou em Curitiba (PR) o musical cênico Noël, projeto de sua autoria em homenagem ao sambista Noel Rosa (1910-1937).  Como se deu a concepção do espetáculo?

MARCIO JULIANO – Entre 1995 e 1998 fui aluno do Conservatório de MPB de Curitiba. Lá conheci muitos músicos e artistas e também pesquisei diversos autores. Noel Rosa me instigou muito e me dediquei a ouvir e pesquisar tudo o que encontrava de sua obra. Passei das canções mais conhecidas para as completamente desconhecidas até me deparar com as mais de 230 composições que ele deixou. Embora seja reconhecido como um ícone do samba carioca, sua obra abrange diversos outros tipos que contam crônicas do nosso tempo, sendo o sambista mais um deles. Como a minha formação vem do teatro, propus a montagem de um espetáculo cênico musical e não um show. Embora a diferença seja conceitual, foi importante para guiar o processo de criação, que além dos músicos dirigidos por Sérgio Albach, também contou com uma equipe de artes cênicas, tendo Marcio Abreu na direção artística, Nadja Naira na Iluminação e Fernando Marés no Cenário e Figurinos. Assim nasceu Noël, com trema, como ele assinava. Aqui, não buscamos reproduzir a estética do samba carioca, mas aproximar as composições de nossas referências, criando sonoridade contemporânea,  respeitando e se inspirando na obra de Noel Rosa.

PBM – Em 2009, foi lançado o cd Noël, que retrata fielmente o musical. Vocês tiveram muitos obstáculos para produzi-lo, já que no espetáculo a performance cênica é indissociável da interpretação das canções?

M. J. – Sim, foi difícil transpor para o CD, uma vez que todos os arranjos foram pensados para o palco. O tempo do palco é outro. O som também. Muitos detalhes que surpreendem e criam atmosfera no palco, como rodas de bicicleta, solos de ganzá, teremim, pente, lixa, ou percussão em pequenas latas, precisam de outro tratamento e dinâmica no estúdio. Foi um prazer e também um desafio.

PBM – Várias cantoras/atriz já fizeram participação em de Noël. Liane Guariente, que gravou duas canções para o cd; Ana Cascardo; Edith de Camargo; Chris Gomes; Letícia Sabatella; Isabel Padovani e Mônica Salmaso. Qual é a representação dessas mulheres no palco e para a obra de Noel Rosa?  

M. J. – Grande sucessos do Noel foram gravados por vozes femininas em sua época e até nossos dias. Em Noël, prestamos uma homenagem para Aracy de Almeida, sua grande amiga e principal intérprete. Como o elenco é  masculino, além de mim, estão no palco Sérgio Albach, Gabriel Schwartz, Ale Age, Marcelo Torrone e Luis Rolim, dividir o palco com estas cantoras se tornou um dos objetivos do projeto. A presença delas deixa o show único, vivo e dinâmico. Cada uma entrega ao trabalho sua personalidade, enriquecendo a sonoridade para o público e para nós. Na minha opinião a voz feminina é a mais bonita que existe. Ter estas grandes artista dispostas a estar com a gente é sempre um prazer e um privilégio.

Noe?l_teaser from Noël on Vimeo.

PBM – Você faz parte do elenco da peça teatral Tempo de Voo – Memória Poética (2016), baseada em livros do mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, um grande fomentador da leitura. O que mais o fascina na obra de Bartô?

M. J. – O que me encanta no Bartolomeu é a beleza. Como transforma memórias e palavras em um bordado fascinante.

“Não sou o menino que vivia o que sonhava.”

Esta frase de Bartolomeu, entre tantas outras, me assombra.

Ao ler alguns dos seus livros, paraliso e viajo para lugares inacessíveis. Com frequência interrompo a leitura e sou surpreendido por memórias que passam a coexistir nos ambientes criados em sua poética. Sua sinceridade, beleza e generosidade, permitem que também nos tornemos contadores de história.

O menino que visita o homem que visita o velho que visita o menino.

O tempo que está sempre vivo.

O oceano inventado longe do mar para seguir navegando.

PBM – Em 2015, estreou NO SAMBA, show multimídia, com direção musical de Gabriel Schwartz e direção artística sua e de Nadja Naira. Vocês fazem releitura do repertório de sambistas consagrados, como Ary Barroso, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Assis Valente e Braguinha. Muito mais que uma homenagem ao samba, o espetáculo é uma forma de reconhecimento à identidade musical brasileira com uma roupagem moderna, pontuada pela utilização de vídeos?

M. J. – NO SAMBA é uma viagem poética e divertida por um repertório incrível. Além dos compositores pesquisados, também olhamos para os intérpretes que surgiram nesta época em função do rádio. Observamos como cada um imprimiu sua personalidade e talento para um momento de grande inventividade na música nacional. Além do rádio, transitavam pelo cinema e nas Revistas apresentadas nos teatros. NO SAMBA, inspirado nesta multiplicidade, aposta na relação entre música, teatro e audiovisual, utilizando projeções mapeadas com áudios sincronizados, o que torna possível por exemplo, ter um trio vocal feminino cantando e dançando junto comigo. Uma festa!

PBM – Criada por você e pela jornalista e atriz Glaucia Domingos, em 2002, a Cia Ilimitada tem como um dos principais objetivos produzir projetos nas áreas de música e teatro com o intuito de integrar profissionais experientes e novos talentos, bem como, criar oportunidade de acesso à arte. A companhia não tem elenco fixo, há colaboradores, posso assim dizer. É por meio dessa colaboração que vocês atingem esse objetivo de integração e acesso à arte?

M. J. – Embora nesta trajetória tenhamos parceiros que estão sempre com a gente, cada montagem traz uma equipe diferente. Nossos projetos variam do público adulto ao infantil, de música ao teatro, ampliando nossa possibilidade de troca. Além das apresentações para público espontâneo com cobrança de ingresso, realizamos apresentações gratuitas para público dirigido, com diferentes perfis, ampliando assim o acesso.

Apresentação de Noël no Sesc Piracicaba

PBM – Atualmente no cenário teatral brasileiro, há muitos musicais fazendo muito sucesso entre o público e a crítica. Pra você, a que deve o boom desse gênero?

M. J. – Não tenho nada contra estes musicais, pelo contrário, acho excelente o mercado de trabalho para muitos artistas. Mas em geral observo a repetição de um estética importada, seja na maneira de produzir, criar ou interpretar. Sendo nossa música uma das mais belas do mundo, com tantos criadores, artistas, compositores e diretores talentosos, torço para que em breve seja possível ver por aqui trabalhos mais autorais e originais.

PBM – Em março deste ano, Ministério da Cultura divulgou alterações na Lei Rouanet, como por exemplo: teto para captação de recursos, fiscalização em tempo real e redução de custos. Qual a sua opinião sobre as mudanças na lei e o tratamento desse governo em relação à cultura do país?

M. J. – Sobre as alterações da Lei eu ainda não sei. Tudo é muito recente. Sinto que a dificuldade não está no teto para captação e fiscalização, uma vez que a minoria dos projetos aprovados são tão expressivos financeiramente, e para estes, me parece que o MINC está bem capacitado para fazer a devida auditoria. A dificuldade está no pequeno produtor cultural. A maioria dos projetos aprovados na Lei Rouanet não conseguem captação. Uma parcela muito pequena das empresas entendem ou estão dispostas a entender como ela funciona. E as que trabalham com a Lei recebem milhões de projetos, podendo contemplar uma parte muito pequena deles. A Lei Rouanet é a mais “falada” do país, mas não é a única. Em Curitiba, onde minha companhia e tantas outras residem, pouquíssimos projetos são viabilizados por ela e os outros mecanismos de incentivo andam ruins. A Oficina de Música de Curitiba por exemplo, foi cancelada este ano depois de 35 anos de atividade. Um retrocesso. Um momento de descaso e desinteresse pela Cultura em todas as esferas. É assustador. É triste. É uma vergonha. Mas devemos resistir e persistir, não é?

Marcio Juliano, Mari Valadares e Monica Salmaso

PBM – A Cia Ilimitada tem novos projetos para esse ano?

M. J. – Para este ano iremos circular mais com o Noël, tendo apresentações em São Paulo e também no interior do Paraná.

Para 2018, iremos gravar um CD e LP As Coisas Ficam Muito Boas Quando a Gente Esquece. Um desdobramento do projeto NO SAMBA, com direção musical de Gabriel Schwartz.

Também faremos um projeto com atores e músicos a partir de Contos e Fábulas. Uma parceria com a Orquestra a Base de Sopro de Curitiba, com direção musical de Sérgio Albach e direção minha.

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