Entrevista com o cantor, compositor e multi-instrumentista Jair Oliveira

Ele sempre estará com a gente. Quando apresentamos esse show,
reunimos a família inteira – Eu, minha irmã e Jair Rodrigues.
Jair Oliveira

Na noite de quinta-feira (16), Jair Oliveira e Luciana Mello estiveram no Ginásio, do Sesc Piracicaba com o show Tributo a Jair Rodrigues (1939-2014). Além de sucessos de suas carreiras, como Simples Desejo, Tiro Onda, Bom Dia Anjo, Assim que se Faz, os artistas emocionaram o público com canções que marcaram a história grandiosa do pai – Não Deixe o Samba Morrer, A Majestade, o Sabiá, Disparada, e claro, Deixa isso pra Lá. Antes do show, o cantor, compositor e multi-instrumentista Jair Oliveira conversou com o Poucas e Boas da Mari e falou o que tá rolando de arte em sua vida. Confira!!!

DSC_0065POUCAS E BOAS DA MARI – Jair, você e sua irmã, Luciana Mello, sempre fizeram homenagens ao Jair Rodrigues (1939-2014) em seus shows. Este tributo foi a maneira que encontraram para lidar com a ausência do seu pai? Como é estar no palco imortalizando a obra dele?

JAIR OLIVEIRA – Se eu falar para você que fazemos esse show como maneira de lembrar o nosso pai seria muito simplificado, porque lembramos dele no nosso dia a dia, em tudo o que fazemos. Ele deixou um legado de sorriso, de música, de humildade que carrego dentro de mim. É lembrança constante e é herança que guardo com maior carinho. Já fazíamos essa apresentação os três juntos, em família. Quando ele faleceu, decidimos continuar e, a parte dele, substituímos pela homenagem. É uma alegria sempre. Outro dia me perguntaram até quando faria esse show. Eu falei: “Até eu morrer!”. (rs) Ele sempre estará com a gente. Quando apresentamos esse show, reunimos a família inteira – Eu, minha irmã e Jair Rodrigues.

PBM – Amanhã (17), dia do seu aniversário, você, Simoninha e Léo Maia levam Os Filhos dos Caras ao palco do Festival Vozes do Brasil, que acontece no Teatro Castro Alves, em Salvador (BA). Além de homenagear os mestres Jair Rodrigues, Simonal e Tim Maia, este projeto surgiu para mostrar a contribuição do negro na história da música brasileira?

J.O. – Os Filhos dos Caras é um projeto muito legal. Também presta homenagem a vários músicos que deixaram heranças incríveis na música, não só através de seus próprios trabalhos, mas dos filhos que seguiram as mesmas profissões. Esse projeto já existe há algum tempo. Esse show especificamente em Salvador sou eu, Simoninha e o Léo Maia, mas a minha irmã…

PBM – O Max também.

J.O. – …O Max de Castro também participam. Ele não surgiu com o intuito de resgatar uma cultura negra, mas todos esses homenageados que você citou são negros e os filhos negros também, ou de ascendência negra. Tem essa carga, mas não é a preocupação. A preocupação é mostrar a obra musical de Tim Maia, Jair Rodrigues, Simonal. Talvez outros cheguem também, Gonzaguinha, Elis Regina. Esse projeto foi feito para manter esse contato com a obra tão gigantesca desses caras e tão importante para o público por meio de seus filhos. Não é um projeto nosso, foi criado por uma produtora de Brasília e deu certo. Fizemos em São Paulo, Brasília, Rio e amanhã em Salvador, no dia do meu aniversário e no dia do aniversário de Elis Regina.

PBM – De livro/cd para o teatro, a tv e a internet. Esses foram os desdobramentos do projeto Grandes Pequeninos, criado em 2007 por você e sua esposa, a atriz Tania Khalill . Como você vê essa relação entre o teatro, a música e as diversas plataformas de difusão na contemporaneidade?

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J.O. – Esse projeto é fruto de um músico com uma atriz e do amor deles por suas filhas, no caso, a Isabella e a Laura… Ele não nasceu multiplataforma, porque no começo nem tinha ideia de transformar isso em projeto. Fui compondo para aqueles momentos incríveis da maternidade e da paternidade. Comecei a fazer canções de situações, como a Tânia amamentando, dando banho, eu levando a Isa para passear. Quando chegou a Laura em 2011, continuei as canções com foco mais nas meninas. Tem a música para falar da importância da natureza, da diversidade cultural, a que fala do livro, temas que acho importante passar para as minhas filhas. O projeto foi crescendo, foi virando programa de TV, disco, livro, foi indicado ao Grammy Latino de 2010, agora é uma peça. Projeto especial que virou todas essas coisas sem esperarmos. A ideia é continuar com canções inspiradas nas situações que minhas filhas passam e no amor absoluto que tenho por elas. Projeto que tem passado mensagens positivas, legais, verdadeiras e muita gente tem acompanhado por isso. É uma família de verdade, em situações de verdade e com objetivo de passar essas mensagens de respeito, amor e carinho.

PBM – Até o próximo dia 26, vocês estão com os Grandes Pequeninos em O Mundo é Grande e Pequenino, no Teatro Morumbi Shopping. Neste show, é abordado diversos temas, como os primeiros momentos do bebê, a diversidade das pessoas, a importância dos livros na vida dos pequenos, da natureza, dos alimentos, a superação, o carinho, o cuidado, o aprendizado e a diversão. O espetáculo é infantil, mas os temas também focam os adultos. A ideia é mostrar ludicamente que a convivência em família pode ser leve mesmo com as obrigações cotidianas, como educar, repreender, cuidar, etc?

J.O. – Como disse para você, o projeto tem essas coisas bem genuínas mesmo. Como eu e Tânia tentamos educar nossas filhas, como elas nos educam. Aprendemos muito com nossas filhas, estamos sempre abertos a aprender. Sei que temos muitas coisas a ensinar, mas não adotamos a postura que só os pais ensinam. O espetáculo é muito isso. O projeto não chama Grandes Pequeninos à toa. É essa mistura do grande, do adulto, com o pequeno e como eu, como adulto, posso sempre me manter um grande pequenino. A mensagem principal do nosso espetáculo é essa – como ser um grande pequenino respeitando os outros, as diferenças, a natureza. É uma coisa muito legal que observo na geração das milhas filhas, elas  já têm um conceito mais legal disso tudo, um conceito mais aberto, sinto que tem menos preconceito, menos engessamento que a minha geração e as anteriores tinham. É muito bonito e importante  darmos força para isso e fomentar esse tipo de atitude das crianças. Hoje em dia, apesar de toda tecnologia envolvida, elas têm a consciência da natureza, se encaminhar legal, elas têm consciência do próprio corpo, dos sentimentos, dos deveres, obrigações, dos direitos. Nos Grandes Pequeninos prezo em passar essas mensagens, sinto na obrigação, por meio da minha música, construir um mundo melhor para as minhas filhas. Nas minhas canções em geral, tento passar mensagem positiva, que transforme. Nunca tendo abortar os temas de um jeito preconceituoso ou violento. Não é isso que quero para mim e nem para as minhas filhas. E nos Grandes Pequeninos ainda mais, porque eu falo diretamente com a criança, com os pais. Como você bem disse, é um projeto familiar e não um projeto infantil. Nosso canal do Youtube não é infantil, é familiar. Você entra, pode se divertir com os videoclipes, mas tem muitas informações para os pais, avós, tios.

Grandes Pequeninos,  de 05 a 26 de março, Sábado e Domingo, às 17h.

DSC_0096PBM – Você foi organizador e curador do “No Nome Colecriativo”, evento realizado este mês, no Hall do Unibes Cultural, em São Paulo, no Hall do Unibes, que mistura música, fotografia, poesia, teatro, gastronomia. Conte como foi a concepção de mais um projeto? Vai ter em abril de novo, né? Vi hoje em sua página.

J.O. – Tá sabendo, hein? (rs)… Também foi um projeto que inventei na necessidade que vi de conversar com outras linguagens. Como artista, músico, com uma atriz em casa, filho de músico, adoro cinema, literatura, artes plásticas, sentia falta de participar de algo que fosse além da música. Acabei chamando uns amigos para fazer essa mistura de linguagens, no Unibes, que é um espaço muito legal. Todo primeiro sábado do mês, às 19h, temos esse evento, que reúne musica, artes plásticas, fotografia, chef de cozinha, poesia, um pessoal pintando ao vivo, dança, teatro. É uma balada…

PBM – A música é em formato de Jam.

J.O. – Isso. Nada para ser muito “cabeçudo”, que a pessoa chegue lá e tem que ler um manual das artes para poder entender. Tudo muito descontraído, que a pessoa chegue, coma uma comida legal, beba o que quiser, se divirta, converse com as pessoas, mas ao mesmo tempo assimile muita arte. O primeiro foi um sucesso, muito legal. Agora em abril, o segundo.

PBM – Que vai ser um sucesso também… Para finalizar o nosso bate-papo, há novidades por vir, como um disco de inéditas?

J.O – Tenho minha produtora com o Wilson Simoninha, a S de Samba, sempre fazendo coisas… Na verdade, respondendo a sua pergunta bem diretamente, estou sempre compondo, mas hoje em dia tenho cada vez mais me desligado de toda essa forma tradicional que a música oferece para os artistas. A minha intenção hoje é gravar coisas, jogar na internet, fazer lives, tenho feito várias. Tem uma de terça-feira com o Pedro Mariano e o Daniel Carlomagno e convidados…

PBM – Eu acompanhei…

J.O. – …Toda terça, às 20h. Tem os Grandes Pequeninos, quinta-feira, às 20h, que é um programa chamado Canta e Conta. Vou começar um projeto no Teatro MorumbiShopping, convidarei outros artistas, mas vamos abrir para a internet. Esses são os projetos que tenho e não são poucos (rs). Quase nem tenho dormindo, mas tem me trazido muita satisfação. Tenho me sentido artisticamente pleno. Estamos fazendo também a produção do musical do Faustão. Não chamando os artistas, mas produzimos as vinhetas, as músicas todas. Temos trabalhado bastante com a Globo.

2 Comentários

  1. Claudete disse:

    Massa a entrevista!!

    Adoro eles… Maravilhosa essa herança de profissionalismo e humildade que ficou do pai.
    Entrevista com conteúdo e descontraída como um bate-papo com o artista, Mari!!
    Mais dessas… ?

  2. José Carlos Porto Zitto disse:

    Mari, muito boa a entrevista.
    Parabéns pelo trabalho.
    Essa família é especial.
    bjcas

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