Entrevista com Téo Ruiz sobre o cenário da música independente

March 1, 2010 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Entrevistas


“Mari, já ouviu o cd Música de Ruiz? É do meu primo Téo Ruiz e da esposa dele, a Estrela Ruiz”. Essa frase foi de uma amiga querida e logo que ela falou fui conferir o trabalho deles na Internet. Ouvi “Sim e Não” e já me empolguei para ouvir as outras canções disponíveis para download. Amiga conhece a outra, tenho certeza que ela sabia que eu adoraria. Depois das canções, fui saber mais sobre  eles e descobri um trabalho lindo envolvendo a música independente.

Téo e Estrela tem o mesmo sobrenome, mas não são parentes, se conheceram em 2001 e desde então, formam uma dupla na vida e na arte. Os dois lançaram em 2006 o cd Música de Ruiz e o livro Contra-Indústria, projetos que originalmente eram para a conclusão do curso de Pós-graduação em Música Popular Brasileira pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Além disso, a dupla tem outros projetos ligados a essa música considerada marginal muitas vezes. 

O site Poucas e Boas da Mari entrevistou Téo Ruiz para ele falar mais sobre a carreira dele e de Estrela e sobre o cenário da música independente. Confira!

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01. Téo, geralmente começo as entrevistas pelo início da carreira dos artistas, com você farei o inverso, vou inicia – lá com o momento atual. Hoje você e a Estrela estão na Espanha. O objetivo dessa viagem foi a música? Se sim, conte um pouco dessa experiência que vocês estão vivendo.

O motivo dessa viagem só poderia ter sido a música, mas na parte acadêmica. Nós fomos aceitos num mestrado, na cidade de Valladolid. E por incrível que pareça, nossas pesquisas serão sobre o Brasil. Vai ser uma boa oportunidade da gente aprofundar nossa pesquisa musical, mais especificamente sobre a música brasileira.

02. Em 2006, vocês lançaram o cd Música de Ruiz e o livro Contra-Indústria, projetos que originalmente eram para a conclusão do curso de Pós-graduação em Música Popular Brasileira pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Qual era a intenção de vocês colocando esse projeto disponível? Mostrar uma nova realidade dentro da música? Uma crítica a indústria fonográfica?

A intenção era unir nossas composições com uma pesquisa que refletia a realidade que vivemos dentro desse cenário dito independente. Não achamos esse termo mais apropriado, mas enfim. E além disso, na época nos demos conta de que havia pouco material sobre a música produzida fora do grande circuito, e sobretudo um único material que reunisse de uma maneira ampla os aspectos e tendências da cena contra-industrial. Encaramos esse desafio de pesquisar e escrever esse livro, que está sendo o ponto de partida desses nossos novos estudos e também serviu de base para vários outros estudos em diversos cantos do país. Isso é muito legal. Portanto, mais do que simplesmente mostrar a distorcida realidade do cenário fonográfico no Brasil, no qual se tem a falsa impressão de que o que há de bom na música brasileira está na grande mídia e nas grandes gravadoras, nossa intenção foi colocar em foco diversas discussões importantes, novas alternativas e que, realmente, vivemos uma transição, uma mudança de paradigma, de que a produção de música no Brasil passará por profundas mudanças nos próximos anos.

03. O CD Música de Ruiz teve várias participações (Carlos Careqa, Glauco Soter, Ângelo Esmanhoto, Du Gomide…) e parcerias (Alice Ruiz, Makely Ka…). Eles deram alguma opinião no Música de Ruiz?

Gostamos de trabalhar com a diversidade. Cada participação especial deu sua contribuição, assim como nesse novo disco que vamos lançar no segundo semestre (São Sons). Foi um processo muito bacana, de troca, aprendizado e parceria mesmo.

lou4trama - foto Louise Bianchi04. A Estrela é filha dos poetas Paulo Leminski e de Alice Ruiz. A poesia deles influenciou o trabalho de vocês?

A poesia deles influencia nosso trabalho até hoje, assim como toda a nossa geração, as gerações anteriores e tenho certeza que as próximas também. São poetas importantes da poesia brasileira, nada mais natural.

05. Tudo Tem Recheio é o primeiro cd da banda Casca de Nós, grupo que vocês fundaram em 2002. Esse cd é diferente do Música de Ruiz. O trabalho de vocês é uma experimentação constante do que a música pode proporcionar?

O Casca de Nós era uma banda, com várias opiniões diferentes. O estilo da banda acabou levando para uma direção que não cabia todo um outro lado das nossas composições.  A produção do Música de Ruiz foi nossa, e do disco do Casca foi de uma pessoa de fora, o Renato Villaça. Quer dizer, concepções de trabalhos completamente diferentes. Isso é legal também, nós não temos a intenção de ficar presos a uma forma, gênero ou estilo.

06. Em Contra-Indústria vocês falam sobre as leis de incentivo à cultura, que o Ministério da Cultura pretende modificar. Qual seria uma mudança significativa para o artista independente?

Participei de diversas discussões sobre essas mudanças, fóruns e reuniões, não só em Curitiba. Na teoria, essas mudanças pretendem democratizar o acesso das verbas do Ministério, beneficiando principalmente os artistas independentes. É importante frisar: na teoria. Agora, depois de aprovadas, temos que fazer valer a teoria. Na música houve uma mobilização muito grande a nível nacional, como nunca houve antes, em torno desse e de vários outros temas importantes. O trabalho que realizamos tanto no fórum estadual quanto nacional, é reivindicar que as mudanças realmente saiam da teoria, e que as demandas da música sejam efetivamente atendidas pelas políticas públicas. Houve alguns avanços, mas esse é um processo constante.

07. Vocês idealizaram o Projeto Independência ou Sorte. Em que consiste esse projeto?

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Esse foi um projeto muito bacana, que pretendia fortalecer o intercâmbio entre os artistas “independentes” e, também, mostrar ao público que a música brasileira é “muito mais do que se ouve por aí”, como dizia o slogan do projeto. Foram shows que aconteceram em Curitiba e em Belo Horizonte, reunindo artistas fora da grande de mídia e, sempre que possível, debates e mesas redondas. Pretendemos retomar esse projeto mais pra frente.

08. Vocês dão oficinas e workshops sobre Música Independente? Quais são as principais indagações dos participantes a respeito do assunto?

Temos públicos distintos para as oficinas que damos. Tanto bate-papos com artistas e público em geral, quanto oficina de vários dias para alunos de escolas públicas. Dependendo, temos discussões bem diferentes. Mas de maneira geral, percebemos que todos têm uma vontade muito grande de conhecer coisas novas, grupos e artistas diferentes, já que a grande mídia, há vários anos, apresenta muito poucas novidades. Realmente, as novidades estão cada vez mais fora do grande cenário fonográfico.

09. Como vocês veem o cenário musical hoje? O que mudou desde o lançamento do cd e do livro?

O cenário musical de hoje no Brasil apresenta uma série de distorções e todo seu sistema de funcionamento não se sustenta mais, por diversas razões. Um exemplo dessa distorção é o espaço oferecido na mídia nacional, que é praticamente exclusivo para artistas das grandes gravadoras, deixando de lado a imensa maioria de músicos e compositores que trabalham profissionalmente fora desse cenário. As grandes mídias também estão se adaptando à nova realidade, os artistas estão conseguindo trabalhar por conta própria, políticas públicas estão, pelo menos na teoria, buscando corrigir essas distorções. Ou seja, estamos vivendo cada vez mais uma autonomização da produção de música no país, e o compositor está sendo cada vez mais importante em todas as etapas da produção, e não somente na criação como historicamente foi no século XX. E desde que escrevemos o livro, muita coisa já mudou, como o surgimento de ferramentas como o Myspace que hoje é praticamente indispensável para qualquer artista profissional. Essas mudanças contínuas nos obrigam a ficar atentos e sempre discutindo novos caminhos, e justamente por isso estamos aprofundando nossos estudos e já pensando em fazer uma segunda edição do livro.

Fotos: Reprodução/Divulgação

Quer ter a entrevista com o Téo Ruiz em seus arquivos? Clique aqui Entrevista com Téo Ruiz (para abrir o arquivo .pdf precisa ter o programa Adobe Reader – Imprima se necessário, preserve o meio ambiente)

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Comments

2 comentários no texto "Entrevista com Téo Ruiz sobre o cenário da música independente"

  1. Priscila Felicissimo on Mon, 1st Mar 2010 8:43 pm 

    Eu tinha que ser a primeira a comentar!!!
    Parabéns, Mari!!! Ótima entrevista, como sempre.
    E parabéns, Téo, primo talentoso, você e Estrela vão longe!!!

  2. Henrique Corrêa on Mon, 1st Mar 2010 11:04 pm 

    Pra quem tava com dúvidas do que perguntar…
    Tá ótima a entrevista! Parabéns Mari, confio na sua competência sempre! hahaha
    Beijão!

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