4 anos: Entrevista com o Grupo Arte Simples de Teatro

Escrito em November 3, 2009 por Mariana Valadares  
Arquivado em Poucas e Boas Entrevistas

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“Era uma vez” um grupo que reserva todas as terças-feiras para ir a Heliópolis, uma das maiores favelas do mundo, localizada na Zona Sul de São Paulo, para levar a beleza do teatro para a comunidade na forma de conto de fadas as avessas. Eu mergulhei nessa fantasia no dia 27 de outubro e conferi de perto o trabalho realizado pelo Grupo Arte Simples de Teatro, formado pelos atores Tatiana Rehder (diretora), Andréa Serrano, Camila Arelaro, Fábio Freire, Isadora Petrin, Leda Maria, Mairun Sevá, Marcela Arce, Marília Miyazawa, Tatjana Eivazian e Verônica Gentilin. Em 04 anos de site, nunca tinha tido a oportunidade de presenciar um trabalho onde o exercicio da cidadania misturada com a arte é tão pleno. Leia a entrevista de aniversário com o Grupo Arte Simples de Teatro:

01. Tati, você é a diretora do Grupo Arte Simples de Teatro. Criado em 2006, o grupo vem com uma ideia, como disse Aristóteles há milênios, que o teatro tem “uma importância para a formação da cidadania numa democracia”. E para isso, ele tem que ser acessível a todos. Essa posição vem na contramão do que encontramos muito no teatro hoje: luxo, glamour, ingressos caros. Foi muito difícil colocar o projeto de vocês em prática?

Tati Rehder: Não achei difícil colocar o projeto em prática. Ele foi difícil na questão financeira, porque na questão da criação não. Nos noves meses de processo que tivemos de ensaio foi muito prazeroso, foi muito legal, porque íamos para o Maranhão. Quando não deu certo ir para o Maranhão, viemos para Heliópolis. A gente tem um esquema que quando as meninas estão nas oficinas, eu vou ver a agenda do espetáculo e o coloco em cartaz nas escolas. Um esquema muito profissional. O que falta para ficar profissional mesmo é a gente ser remunerado, ter patrocínio. Do resto eu acho que foi difícil, mas um difícil com muita vontade. Eu não acho nada difícil, sabe? Quando temos vontade nada é difícil.

02. O Grupo Arte Simples apresenta a peça “A Festa” e realiza oficinas culturais toda terça-feira em Heliópolis, uma das maiores favelas do mundo, localizada na Zona Sul de São Paulo.  Por que Heliópolis? E por que o Maranhão?

Tati: Tudo começou quando apresentamos outra peça no Maranhão, chamada “As Histórias dos Amores Difíceis”. Foi aí que surgiu o grupo: eu, a Camila (Arelaro) que está desde o começo e o Humberto (Deliberato), que não está nessa peça. Ele que iniciou tudo, que financiou o primeiro trabalho, atuou também. Fomos para o Maranhão por meio de duas pessoas que trabalham com educação e que tem uma ONG chamada “Formação”. Fomos para lá nos apresentar e oferecemos para eles um trabalho que era: a gente construía uma peça falando da vida de São Paulo e das pessoas que moram em São Paulo e eles uma peça falando sobre o Maranhão. A ideia era apresentar na rua em 11 cidadezinhas maranhenses, em janeiro de 2009. Aí vem toda a parte de pesquisa da peça, ensaiamos por muito tempo. Tinha a Marília (Miyazawa), a Andréa (Serrano), a Camila, Leda (Maria), o Mairun (Sevá), a Tat (Eivazian) e o Fábio (Takeo), que não está mais. Quando chegou em dezembro de 2008, por causa da crise, eles não conseguiram viabilizar nossa ida para lá.  Tínhamos duas coisas: ou deixava tudo e ia para casa ou colocava a peça em cartaz.

Camila: Era aquela coisa da gente não querer pagar para trabalhar e ficar em cartaz em São Paulo.

Marília Miyazawa: A proposta não era colocar a peça em cartaz para o grande público ou para os amigos assistirem. A gente queria ampliar a pesquisa, mas como deveria ser no Maranhão.

Tati: A gente passou por várias outras peças onde descobrimos que era muito bom fazer, mas a gente viabilizava a peça para uma plateia que sempre nos assistia. E esse projeto (“Formação”) era especialíssimo, ele envolve educação no Maranhão, moradia, teatro, música, dança. Essa organização lá é muito importante, atendem 11 cidades na Baixada Maranhense, onde o índice de pobreza é muito maior do que em Heliópolis. Então, a peça foi feita com toda dedicação. Quando a gente não foi mais para lá… Eu lembro até que a gente conversou, vocês lembram? “Vamos apresentar na rua em São Paulo, numa praça”. Aquilo ficou “martelando”, era perto do Natal… Comecei a perguntar para as pessoas e cheguei até a minha irmã que escrevia num jornal na área de educação. “Olha Maria, a gente está numa situação difícil…” Contei como era no Maranhão. Ela falou: “Eu acho que vocês vão adorar ficar em Heliópolis, que é exatamente o que é o Maranhão, só que muito perto de vocês.” Ela fez  o primeiro contato para abrir as portas para a gente em Heliópolis e o grupo inteiro topou na hora. A gente foi recebido pelo Reginaldo, pelo Braz (Rodrigues Nogueira) e pela Mércia (Maria Ribeiro) de braços abertos.

Quem são eles?

Tati: Eles são da UNAS – União de Núcleos, Associações e Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São João Clímaco e o Braz é diretor de uma escola municipal modelo. Hoje, ele dá palestras, transformou 15 salas de aula em quatro, todos os alunos têm aulas em conjunto. Foi assim que a gente chegou e o grupo foi muito bem recebido. Por isso que escolhemos Heliópolis, porque era o local mais parecido com o projeto do Maranhão.

03. A peça “A Festa”, criação e pesquisa de vocês, se passa no dia do aniversário da “filha da rainha”, a princesa Infanta, que é uma personagem as avessas dos contos de fadas tradicionais, egoísta e que só pensa no seu próprio bem-estar.  Conte um pouco sobre a criação da peça.

Camila: Em São Paulo, a gente ia fazer o trabalho voltado para a cidade grande e lá no Maranhão, o pessoal faria um trabalho voltado para o interior. Depois os dois lados se encontrariam e isso geraria uma nova peça.

Tati: Uma terceira peça.

Camila: Quando a gente estava pesquisando valia tudo desde que tivesse qualidade. Podia ser música, conto…

Tati: Só para completar. Todo mundo aqui é classe média e ninguém poderia falar dessa classe que mora em Heliópolis, a gente não tinha conhecimento. Decidimos então, que colocaríamos dentro de uma fábula a história.

Camila: Dentro de várias coisas que apareceram surgiu um conto do Oscar Wilde chamado “Aniversário da Infanta”, que é a inspiração maior da peça. Alguns personagens de outras fontes embarcaram nessa ideia, como o Blacaman, que é do “Vendedor de Milagres”, do Gabriel Garcia Márquez.  Para cada cena íamos colocando o que acreditávamos ser a fala daquele personagem, fazendo uma grande brincadeira. Nós começamos a trazer falas e aprovávamos ou não frente com o texto que a gente tinha. O texto foi cada vez mais ficando com a nossa digital, ficou com o recheio que a gente sonhava.

Tati: Fizemos o esqueleto, improvisaramos… Quando o esqueleto estava pronto, fomos atrás das falas e uma regra era: não podia de inicio colocar uma fala que viesse da gente, tinha que ter uma base de referência de texto, de música, de qualquer coisa. Eu fui cruel com eles, mas essa crueldade era porque sabia que tínhamos um trabalho pela frente que precisava ser muito aberto.  Quando a gente teve no Maranhão pela segunda vez, tinha uma pessoa na ONG que me ensinou como estar preparada para fazer um trabalho aberto, uma peça aberta, porque a plateia muda o rumo dela às vezes. Pensando no que ela tinha me falado, era proibido você decidir as falas do seu personagem, todo mundo tinha que decidir. Por exemplo: A Marília trazia uma fala, mas a Andréia (Serrano) trazia uma fala para ela também. Não adiantava a Marília adorar a fala que ela tinha trazido se os outros não gostassem. Isso foi uma coisa que a gente não precisará repetir no próximo projeto, porque isso foi mesmo para a gente se abrir para o que vinha. Agora que está todo mundo aberto (rs), tudo bem…

Elementos, como a música do Wando, do Zezé de Camargo, do Latino, entraram na peça por causa da realidade das pessoas de Heliópolis?

Tati: Não, era uma brincadeira mesmo que foi feita.

Marília: Mas tem uma que traz…

Tati: Qual delas?

Marília: A Festa do Apê acaba trazendo a plateia para uma coisa “opa eu conheço essa”, sabe?

Tati: É. A do Wando e a do Zezé quando é para o público adolescente “bombam”, eles cantam. Quando é o público pequenininho, A Festa do Apê eles sabem. Mas tudo isso que você viu toda semana a gente tenta ir melhorando.

Conversando com a Marília e a com a Verônica (Gentilin) antes da entrevista, elas me disseram que vocês têm algumas versões da peça, que chamam de P, M e G – P para as crianças, M para os adolescentes e G para os adultos. Quais são as maiores mudanças entre um “tamanho e outro”?

Tati: Primeiro de tudo é o tempo. O que fez gerar essas mudanças, na minha visão, não é o texto só, é o tempo da peça. Crianças de três anos não ficam 1h sentados, eles não aguentam. A primeira apresentação para os pequenininhos, eles choraram.

Isadora Petrin: Tínhamos que abaixar o tom.

Tati: Eu acho que do PP para o P não muda tanto, muda a energia.

Isa: Tem o PP. (rs) De 1 a 3 anos.

Tati: Essa que você assistiu, a gente está apresentando para todo mundo até a quarta série.

Marília: Uma mudança grande também é a acidez dos personagens. As falas e as características ficam mais marcadas, a gente dá uma amenizada nas características. Por exemplo, a rainha e a Infanta ficam menos más, o bêbado fica menos bêbado, tem umas coisas assim para ficar mais brando.

Tati: Essa versão que você viu hoje, que é a P, com esse tom mais brando, deixa ela muito fábula de livrinho. Eu vejo a peça e acho que estou lendo um livro. Para os adolescentes já tem uma ironia, uma critica mais forte.

04. Vocês também têm experiência com públicos de classes sociais abastadas. A diferença de absorção da peça é muito “gritante” entre um público e outro?

Tati: A Isa está em cartaz com outra peça e a Verô estava, elas serão boas pra falar sobre isso. Mas vou ser bem honesta, eu acho que não tem grande diferença. A diferença não é na reação do público e sim a do público ir assistir a peça.

Isa: Além disso, é como se lida com o público. A reação, por exemplo, quando você está num palco italiano as pessoas falam e você escuta: “Pô legal, falaram isso”, você continua a peça normal. Aqui as interações atuam na peça, a gente conversa com eles. A questão espacial é completamente diferente, quando fazemos no teatro é bem diferente desse esquema sala, refeitório, a plateia fica muito perto. Numa peça que a gente faz em São Paulo se escuta, tem um pouco de interação. Aqui não, o público é atuante, ele muda às vezes o rumo, a gente vai para um lugar de acordo com a reação deles. Quando acaba o espetáculo é muito mais vivo, muito mais pulsante, é completamente diferente. Cada dia é diferente em Heliópolis, cada dia.

Verônica: O que eu acho legal aqui e que nunca vi em lugar nenhum é que a peça não é o principal, a peça é um pretexto para você assistir ao público, é como o se público fosse a peça junto com a nossa peça. Da muito essa sensação.

Marília: As pessoas que vem para Heliópolis assistir a gente, a primeira coisa que elas comentam é a reação da plateia. Elas não comentam assim: “tal pessoa estava ótima, boa atriz, a peça é boa.” As pessoas comentam da plateia, isso é o mais importante.

Tati: Todo mundo que vem assistir a gente em Heliópolis é da nossa classe social. O grande X que a Verô falou é a plateia mesmo, mas as pessoas que vêm de fora já vêm atentas para ver o lugar e a plateia.

Marília: Eu acho também que tem uma diferença muito grande que é a plateia de fora, agora sem falar dessa peça, eles são mais moldados. Tem muito mais…

Tati: Referência.

Marília: Além da referência tem uma coisa “meio quadradinha” de “como ele deve se portar em uma plateia”. E as pessoas em Heliópolis não têm isso, elas simplesmente dão tudo o que é de mais verdadeiro delas e disso sai coisas geniais. Para mim o maior aprendizado nosso aqui é saber lhe dar com essa sinceridade da plateia a todo o momento.

Isa: Isso que é o grande barato, a gente que entra no jogo deles, é um tesão.

Tati: Você presenciou os professores tentando no começo: “Xiu, não fala”, tem uma hora que eles desistem de controlar, porque não conseguem mais segurar. O que a gente também não quer, não quer que segure as crianças.

Isa: Quando os professores começam proibir demais, a Tati fala: “Pode deixar”.

05. Como dito anteriormente, vocês também realizam oficinas com as crianças e adolescentes da comunidade. O objetivo do grupo é desenvolver o pensamento criativo e crítico dessa “molecada”.  A criatividade deles se resume a realidade que eles vivem? Ou eles conseguem ultrapassar essa barreira?

Marília: A minha turma realmente tem certa dificuldade de entrar no mundo da fantasia, é muito mais fácil colocar as questões deles, a realidade deles nas histórias. Então, sempre tem tiro, gente apanhando. Quando eles fazem cenas que tem como cenário uma escola, os professores são rígidos e eles sempre vão para a diretoria, da diretoria vão para o conselho tutelar e de lá vão para a Fundação Casa. Sai muita coisa desse tipo. Você precisa meio que conduzi-los para uma fantasia, ai eles vão como qualquer criança, mas a primeira reação é ir para a coisa da violência.

06. O grupo pretende levar esse trabalho para outras comunidades?

Isa: Por enquanto não. A gente sente que tem um trabalho muito grande para ser feito aqui. Exploramos um dia, que é terça-feira, e de manhã. A tarde não tem a peça, tem as oficinas. A gente sente que essa peça tem uma história longa pra percorrer.

Tati: Xiii, tem (rs)

Camila: Sonhamos em estar no teatro com essa mesma peça. Estar em Heliópolis e estar no centro também, para fazer o exercício, continuar a pesquisa.

Tati: Por mais que admirem nosso trabalho aqui, por mais que ele seja elogiado, infelizmente a gente tem que apresentar nosso trabalho lá no centro para os críticos de teatro, para as pessoas assistirem a gente, para conseguirmos edital. Ninguém vai vir em Heliópolis, as pessoas sabem, mas não vem nos assistir aqui e nem procuram para vir. Então a gente sente a necessidade de estar em cartaz. Além da continuação da pesquisa, a gente precisa colocar a cara para bater para as pessoas assistirem, porque o ideal mesmo era eles virem aqui. Eu sempre falo “vai lá em Heliópolis ver a gente”, que também já conhece e quebra a imagem que tem daqui.

Veja algumas fotos do trabalho do grupo em Heliópolis (Para ver as fotos, clique em cima da imagem abaixo)

Grupo Arte Simples de Teatro

PARA SABER MAIS:
Blog Oficial do Grupo Arte Simples de Teatro

Quer ter a entrevista de aniversário em seus arquivos? Clique aqui grupo-arte-simples-de-teatro (para abrir o arquivo .pdf, precisa ter o programa Adobe Reader – Imprima se necessário, preserve o meio ambiente)

Comentários

4 comentários no texto "4 anos: Entrevista com o Grupo Arte Simples de Teatro"

  1. Samara Volpony on Fri, 6th Nov 2009 12:16 am 

    Nossaa que lindoo. Esta historia é longaa.
    Adorei!!
    Aí q saudade de vcs…
    Venham p/ o MA, ja estamos com saudades…

  2. Zitto on Wed, 11th Nov 2009 9:58 am 

    Parabéns ao Grupo pelo belo trabalho em Heliopolis.
    Este exemplo deveria ser seguido por muito mais Grupos e que o governo também desse mais atenção e incentivo a este tipo de trabalho.
    A Mari um grande beijo por mais este trabalho de divulgação, agora social.
    Zittão

  3. Célia Rehder on Fri, 13th Nov 2009 9:59 am 

    Bom dia Mariana! Fiquei muito feliz em ver a reportagem que fez com o Grupo Simples. Sou mãe da Tati, Diretora do Grupo, e trabalho na Secretaria de Turismo daqui de Rio Claro. Estou disposta a ajudar para prazer a Peça a festa para nossa cidade. Estou contigo nesta luta. Vamos nos falando a fim de passar os detalhes para o Curinga. Qualquer dúvida disponha!

  4. TARCISIO SOARES SANTOS on Sat, 13th Feb 2010 5:45 pm 

    como faço para me inscrever para participar do grupo,pois estou no segundo ano de artes cenicas na universidade são judas tadeu….bjssssss

E você, o que achou? Diga pra gente!...
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