Entrevista com o ator Fábio Dias
Escrito em May 21, 2009 por Mariana Valadares
Arquivado em Poucas e Boas Entrevistas
Intimista. É como o site Poucas e Boas da Mari define a entrevista realizada com o ator Fábio Dias. Fábio que começou sua carreira na extinta TV Manchete, se destacou como Amadeo, na novela Terra Nostra, da Rede Globo. Hoje o ator é empresário, dono da marca Bachellor na área de cosmética, mas pensa 24h em voltar a atuar.”Eu estou agora mesmo procurando uma oportunidade de me inserir novamente na vida de ator”. Confira o bate papo com o ator Fábio Dias:
01. Fábio, você já foi armador do time de basquete do Flamengo no Rio de Janeiro e modelo, desfilando para grandes nomes da moda. Em 1998, você participou da novela Brida, baseada no livro de Paulo Coelho, na extinta TV Manchete. Como foi essa mudança?
Essa mudança foi meio pré-determinada, porque desde criança eu falava que queria ser ator. Mas de Rio Claro* até conseguir chegar a ser ator… como seria? Então usei um pouco do basquete para isso. Quando comecei a jogar em Rio Claro sempre tive vontade de sair da cidade, independente de jogar ou não. E para conseguir ser ator, eu tinha obviamente que estar próximo aos grandes centros, como Rio de Janeiro e São Paulo. Saí de casa aos 15 anos, fui jogar em Campinas, São Paulo, no Rio e foi lá que as coisas começaram a acontecer. Só que antes de ser ator, tive que dar um “pulinho” na Europa e nos EUA para trabalhar como modelo. Não tinha muito a intenção, mas tinha a necessidade. Fiz esse estágio como modelo que também foi bom; aprendi muita coisa, enfim, cresci como pessoa, para voltar para o Rio de Janeiro em 1998 e fazer Brida, com o Walter Avancini, que na verdade foi quem me descobriu, quem viu o primeiro teste e me deu a primeira chance.
Fábio é natural de Rio Claro-SP
Você acha que a carreira de modelo de alguma forma o ajudou na profissão de ator, ou são profissões completamente diferentes?
Acho que não. Ela me ajudou na minha construção como ser humano, como pessoa, não que isso tenha ajudado a interpretar. Até porque eu vejo interpretação como uma coisa muito natural, qualquer ser humano atua. Todos nós atuamos todos os dias. A diferença é que o ator atua tendo consciência do gestual, do corporal. E no dia-a-dia, fazemos muitas coisas que a gente não tem consciência. O ator é simplesmente isso, ele tem consciência do seu corpo e daquilo que ele está falando no momento. Interpretar para mim é isso. Acho que as pessoas até fantasiam um pouco demais sobre o que é ser ator, que tem que encarnar algo. Não tem que encarnar nada, não é pai de santo… (rs). É bem mais simples do que as pessoas pensam. No meu caso veio muito da experiência que a vida me deu com o basquete e com a carreira de modelo. Experiência de vida.
Por causa da falência da TV Manchete, a novela Brida precisou ser abreviada. Em algum momento você teve a sensação que se entregou ao trabalho errado?
Não! Nunca! A Manchete foi uma surpresa. Primeiro foi entrar lá, depois a surpresa desagradável, quando a emissora teve que encerrar as atividades. Por todo o histórico da Manchete, da família Bloch, ninguém imaginou que fosse ser tão brusco assim como foi. Agora, jamais achei que isso pudesse influenciar negativamente em minha carreira. Eu estava no final de Brida e já tinha uma expectativa de ir para a Globo e realmente foi isso que aconteceu em 1999. Logo que saí da Manchete, fiz o teste com o Jayme Monjardim e fui fazer Terra Nostra, sem pensar que saindo da Globo como eu saí pudesse atrapalhar de alguma maneira. É uma questão de tempo para voltar também.
02. Em 2000 você foi Amadeo, personagem da novela Terra Nostra de Benedito Ruy Barbosa, da Rede Globo. Você teve algum receio de estrear na Globo “logo de cara” em uma novela das 08?
Olha… Talvez eu tenha até mais receio hoje, pois já parei muito tempo prá pensar, prá ter noção da importância e da exposição de estar na Rede Globo, do impacto que isso causa nas pessoas, mas naquele momento não, mesmo porque estava vivendo há vários anos fora do país, completamente desligado no que acontecia na televisão brasileira e do que é esse “oba oba” da TV. Eu convivia com muitas pessoas do mundo da moda que tinham sua fama e nunca me iludi muito com aquilo. Então quando vim para cá fazer novela não tinha muito esse “frio na barriga” de trabalhar com o Raul Cortez, Cláudia Raia ou com o Antônio Fagundes. Talvez isso tenha sido um erro, não ter tido esse “frio na barriga”. Mas nunca tive receio, fazia muito tranquilo, natural, não tinha essa preocupação.
Esse “frio na barriga” que você falou que talvez tenha sido um erro não ter tido, vou considerar como excesso de confiança. O excesso de confiança foi um erro?
Acredito que sim. Esse excesso de confiança pode ter me atrapalhado depois da novela. Na época eu resolvi abdicar um pouco do trabalho de ator. Excesso de confiança é sempre ruim, você perde o medo essencial que é sempre bom ter. Ele mostra para a gente a noção do perigo. É como uma criança, se ela não tiver medo de tudo, ela vai subir em lugares altos, cair, vai ter uma série de problemas e acidentes. Talvez isso tenha acontecido um pouco comigo. Achei que eu poderia parar, viver numa fazenda como eu fui, e a hora que quisesse voltar, voltaria. E voltei para fazer A Casa das Sete Mulheres, depois para trabalhar com o Renato Aragão, mas mesmo assim sempre achava que poderia dar uma pausa na carreira e voltar. Então hoje com muito mais consciência, não faria isso, sentiria até esse “frio na barriga” essencial para o ator, para me dedicar mais. Voltar hoje seria bem mais tranquilo para mim, por estar mais centrado em todas essas ações e coisas que fiz no passado. Hoje eu agiria de uma outra forma.
03. Ignácio Bilbao foi seu personagem em A Casa das Sete Mulheres, minissérie de Maria Adelaide Amaral, em 2003. A minissérie era sobre Giuseppe e Anita Garibaldi, personagens da Revolução Farroupilha, que aconteceu no Rio Grande do Sul. Quando a emissora veicula uma minissérie ou novela baseada em fatos históricos, ela preza muito o lado romântico dos personagens, muitas vezes situações românticas fictícias. Eles modificam uma história real, colocando esse romantismo, porque é uma fórmula atrativa, “vendável”?
A TV já é um veículo comercial, né ? Ela vive do comercial e a cada dia mais a gente vê isso. Se contar a história nua e crua, as pessoas até por um problema cultural no país teriam dificuldades de compreensão daquilo que estão assistindo. Se não tiver o romantismo pode soar sempre como uma coisa agressiva e as pessoas mostrarem desinteresse. Elas precisam ter algum parâmetro para que se identifiquem com aquilo que elas vivem no dia-a-dia. Esse romantismo é essencial na história para prender o público. Só tem que se tomar cuidado, porque sendo qualquer grande produção, quando você começa a enfeitar demais e colocar coisas que não existiram nessa história, ela pode se tornar uma coisa estúpida. Isso você vê em cinema, por exemplo. Toda grande produção tem um enorme risco de virar uma coisa estúpida. Por isso que o cinema brasileiro “vai bem das pernas”. Porque tem matéria prima de primeira qualidade, material humano muito bom e não tendo muito dinheiro não exageram, não se criam coisas estúpidas.
Como foi trabalhar na Casa das Sete Mulheres?
Foi tão rico quanto Terra Nostra, até pelo fato de se basear numa história real. Nós viajamos praticamente três meses conhecendo essa história, não só a parte de Santa Catarina como também Rio Grande do Sul, enfim… até a divisa do Estado, Uruguaiana. Foi muito rico por isso; porque sendo um fato histórico, exigiu muita pesquisa. Era uma aula de história que a gente vivenciava todos os dias. Todo trabalho desse tipo é muito rico para o ator.
04. Você participou também da minissérie “O Auto do Boi Bumbá”, da Rede Globo de Manaus. Fale um pouco sobre essa minissérie, já que foi uma produção local.
Uma produção local feita a “duras penas”, né? Sempre o problema de não ter muito incentivo, porém a mesma história, um trabalho regional. Eu fiquei lá um mês conhecendo a Amazônia, lugar fantástico, mágico e o melhor de tudo desse trabalho foi estar entranhado mesmo ali, sentindo a cultura regional que é totalmente diferente da nossa aqui do Sudeste, e também diferente de tudo que eu já vi pelo mundo. Atores excelentes, incrível mesmo a quantidade de atores bons que havia, desde os atores jovens até os mais velhos. Atores locais prontos para fazer cinema, teatro de qualidade, para trabalhar em televisão, mas estão lá escondidos e tão sem chance de estar por aqui.
A história era uma comédia, onde eu fazia dois personagens, um peão de fazenda e um veterinário, que tentava seduzir a filha do coronel. Uma comédia simples e divertida e também muito sutil. Eles tratam isso lá com muita sutileza, um humor que é deles, peculiar da região.
05. Pegando esse gancho do humor… Você trabalhou com o Didi, o Renato Aragão. É diferente fazer humor para adulto e para criança? E fale do trabalho com o Renato, como foi?
Eu acho que o humor é sempre humor. Você não precisa ter escola. Aliás, acho que não existe escola para o ator se tornar humorista. E o humorista é diferente de um ator que consegue fazer humor. Trabalhar com o Renato foi sonho de criança. Parece clichê, mas é sonho de criança. Todos nós assistimos o Renato Aragão e muitos assistem até hoje. E ele é uma pessoa extremamente educada, de bem com a vida, de bem com os atores, de uma generosidade enorme que é difícil encontrar no meio. Trabalhei quase um ano com ele. E fazer humor para criança é muito gostoso, muito leve. O humor para o adulto,é claro que tem algumas nuances mais perigosas, mais pesadas; mas fazer humor para criança como o Renato faz, é muito bom. Eu assisti tanto o Didi quando era criança, que parecia que eu já o conhecia realmente. Que já tinha convivido com ele, trabalhado com ele, como se eu tivesse em casa. Não senti nenhuma dificuldade de me relacionar com ele, de ter o tempo da comédia, de dar o tempo dele para fazer a sua comédia , porque ele era o principal, então o final da graça sempre era ele.
06. Uma pergunta que costumo fazer para meus entrevistados que são atores é sobre esse “leque de opções” que se abriu na televisão. Hoje tem novelas na Record, SBT, Band. É possível que essas emissoras consigam ultrapassar a qualidade das novelas globais?
Em termos de qualidade, você tendo matéria prima boa e material humano bom, sem dúvida você vai ter boa qualidade. E hoje eu vejo, principalmente na Record, um elenco muito bom, homogêneo, muito forte. Talvez, se eu não estiver errado, tão bom quanto o da Globo. Eu tenho dado uma olhada em algumas coisas que a Record vem fazendo, novelas, o programa policial, o Lei e Ordem. O elenco é muito bom, a direção é muito boa, acho que é do Alexandre Avancini, filho do Walter. Fantástico! Tão bom quanto o que está sendo produzido na Globo. Peca em audiência ainda, porque não tem a mesma divulgação da Globo, porém em qualidade para o ator trabalhar não fica devendo nada. Sem dúvida alguma, quanto mais locais forem surgindo melhor prá gente, porque senão você fica refém de uma só emissora, refém de um sistema e sem opções. Hoje você tem a Band, o SBT, a Record que já está fazendo um trabalho bem maior e com muito mais qualidade. Temos hoje quatro veículos de qualidade, quatro locais para se trabalhar. Em relação à qualidade, as outras que estão vindo aí não ficam devendo nada para a Globo.
07. Antes de se tornar ator, você fez alguns cursos de interpretação. O que você acha das técnicas de interpretação? Até que ponto são necessárias?
Elas são fundamentais para você estar sempre se reciclando, aprender algo novo, um método novo e depois cabe a cada ator codificar aquilo que presta e o que não presta colocar na lixeira. Eu não consigo apontar um método de interpretação e dizer “esse é o melhor”. Acho que de tudo que você faz ou vai fazer você sempre tira algo que vai ser proveitoso para a sua carreira. Mas eu gosto muito dessa metodologia que eu já citei, que é você ter consciência corporal e também daquilo que você está falando. O atuar mesmo é isso. Não tem que elaborar muito não. Eu fico meio preocupado às vezes com diretores que são meio carrascos, essa coisa de sempre ter que bater e depois assoprar. Isso acontecia muito antigamente; alguns diretores eram muito enérgicos, faziam o ator trabalhar sob pressão, acho que isso não funciona muito. Hoje tudo é mais tranqüilo, há mais diálogo, o ator consegue criar com mais liberdade sem ficar preso a muitas imposições do diretor.
08. Você chegou a fazer teatro?
Sim! Eu fiz teatro infantil, infanto-juvenil. Até a minha primeira peça foi “As Tartarugas Ninjas”, uma grande produção que teve em São Paulo com direção do Paulo Celestino. E foi a minha primeira experiência com criança, trabalhar para o público infantil. Realmente eu vi que é uma coisa maravilhosa, não só o teatro, mas trabalhar para esse público.
Você assustou muito em relação à interpretação teatral? Porque a interpretação do teatro não é contida como da TV e do cinema.
Eu gosto muito de teatro, gostaria até de fazer mais. Eu me afastei do meu trabalho de ator por alguns motivos particulares, mas quero muito voltar. Eu gostaria de ter mais oportunidades no teatro, até porque eu acho que posso fazer muito bem o teatro. Primeiro porque eu sou grande fisicamente, uma coisa física mesmo, de voz, de corpo, de externar as coisas. Por essa vida que eu tive de atleta, modelo, eu nunca fui uma pessoa de muitos pudores. Timidez, ficar nu mesmo,literalmente falando, me expor, eu não tenho esse problema. Eu gosto muito de teatro, acredito que posso ser um melhor ator de teatro do que de televisão. Agora é uma questão de tempo e oportunidade.
No começo quando fui fazer televisão, nas primeiras cenas de Terra Nostra tive um pouco de dificuldade em me controlar no gestual, na fala, porque é um plano muito fechado. E o Jayme trabalha com planos extremamente fechados, como no cinema. Então eu tive um pouco de dificuldade no começo. Depois das primeiras cenas também, você já sabe onde está a câmera, os macetes vão aparecendo e você vai dominando.
09. Hoje você é empresário, dono da marca Bachellor na área de cosmética. E agora vou reforçar o que você disse durante a entrevista. Pensa em atuar novamente?
Pensar em atuar, penso 24h. Eu estou agora mesmo procurando uma oportunidade de me inserir novamente na vida de ator. O que eu mais gosto de fazer é isso mesmo. Eu fiz muita coisa na vida e continuo fazendo, acho que isso é um problema do ariano, (rs) a gente consegue fazer várias coisas e desenvolver bem. Por motivos particulares acabei me afastando da minha vida de ator, mas é uma coisa que está impregnada no sangue, não tem jeito. Posso fazer muitas coisas, mas aquela lacuna continua. Eu vejo que é um bom momento, um bom momento meu. Estou aguardando oportunidades seja no teatro, na televisão, no cinema. Acho que estou pronto para voltar.
10. Uma mensagem para os frequentadores do Poucas e Boas da Mari.
Continuem clicando no Poucas, porque é um jornalismo sério, com qualidade e de informação. Prestigiem isso. E uma outra mensagem, uma coisa que Chaplin dizia: “O tempo é o melhor autor, porque ele sempre encontra um final perfeito”.
Obrigada Fábio!
Obrigado você!
Foto (Mari e Fábio) e revisão: Vitória Valadares
Quer ter a entrevista com o ator Fábio Dias em seus arquivos? Clique aqui entrevista-com-fabio-dias (para abrir o arquivo .pdf precisa ter o programa Adobe Reader – Imprima se necessário, preserve o meio ambiente)










Zitto on Thu, 21st May 2009 11:18 pm
Mariana,
Parabéns por mais esta ótima entrevista.
Conhecer o Fábio foi muito legal, pessoa extrovertida, alegre, autêntica e bom caráter. Esta série de adjetivos demonstra a seriedade com que realiza o seu trabalho. Estou torcendo pelo seu breve retorno.
Abraços ao Fábio e à Mari
Zitto
Ediana neila on Sun, 24th May 2009 7:32 pm
Mariana,
Foi legal essa entrevista,assim podemos conhecer mais sobre o Fábio e ficar sabendo de seus projetos para o futuro,e por falar da Bachellor é um produto maravilhoso,dispensa qualquer comentários.E tenho certeza que ele não vai demorar a voltar para as telas de TV, porque talento ele tem.
Bjs
Ediana
Rose Bonfim on Mon, 25th May 2009 8:07 pm
Eu nao entendo como atores como o Fabio desaparecem????
Na midia hj existem (atores) ruins para caramba…e estão ai, na Globo, Tv Record etc…
Será que não existe memória para os bons profissionais também?
Porque tanto lixo na TV quando temos opções?
PARABÉNS Mariana pela boa matéria escolha!
beijos
Clenira do Espaço Camelia on Sat, 6th Jun 2009 11:42 am
Mari, Adorei a Entrevista com o Fabio, as perguntas foram muito bem colocadas e realmente será muito bom ve-lo de volta, atuando como todo talento que tem..E devo dizer também que seu site e de otima qualidade, bom gosto e competência.. Enfim Parabesn por tudo
Élida on Mon, 27th Jul 2009 9:56 pm
Adorei a entrevista com perguntas bem colocadas e respostas claras, sem citar q ´Fábio além de lindo, inteligente é super talentoso e inteligente. Conheço pessolmente em Rio Claro só de vista e de Oi, super simpático. Voltará em Breve sim…acredito em seu potencial de Ator.