Entrevista com o jornalista e sociólogo Laurindo Lalo Leal Filho
Escrito em December 22, 2008 por Mariana Valadares
Arquivado em Poucas e Boas Entrevistas
01. Lalo, todo final do ano, as emissoras de TV mostram a retrospectiva dos acontecimentos que marcaram o Brasil e o mundo. Para começar nossa entrevista, gostaria que você fizesse uma retrospectiva sobre a TV brasileira em 2008.
Acredito que o fato mais importante foi o surgimento da TV Brasil, a primeira televisão pública nacional de nossa história. Ao contrário do que ocorreu na Europa, o Brasil praticamente só teve contato com emissoras comerciais. A TV Brasil, quando conseguir chegar a todos os domicílios brasileiros, poderá se tornar em uma importante alternativa para o modelo hegemônico existente. Na TV comercial pouco mudou. Talvez a novidade maior tenha sido a chegada do programa argentino CQC. Ao reunir na TV humoristas competentes fazendo entrevistas desconcertantes com políticos tornou-se uma alternativa a tradicional mesmice da nossa TV aberta. Só lamento que a coragem com que os artistas do CQC abordam os políticos não seja utilizada também para entrevistar – da mesma forma – outras autoridades, como o presidente do Supremo Tribunal Federal.
02. Em seu livro “A TV Sob Controle”, você escreveu o texto “Tia Querida”, sobre a emissora inglesa BBC, considerada para os ingleses como uma “tia”. A BBC, como relatado no texto, é mantida pelo público e é ele que escolhe o que vai ou não para o “ar”. No Brasil, o primeiro passo, no que diz respeito a TV Pública, foi dado no dia 02 de dezembro de 2007. A TV Pública foi criada para ser a “tia” dos brasileiros?
Não acredito que ela tenha esse objetivo, como a própria BBC não teve quando foi fundada. A relação familiar surgiu a partir da percepção que o público foi tendo, ao longo dos anos, do serviço que a BBC lhes prestava. Especialmente por ocasião da segunda guerra mundial quando a emissora trouxe a voz dos soldados nas trincheiras para as casas de suas famílias no Reino Unidos ou permitia que pais e mães das crianças retiradas de Londres durante os bombardeios pudessem falar com seus filhos. Isso ninguém esquece. Acredito que a TV Brasil não precise de nenhuma guerra para se tornar familiar aos brasileiros. Basta que eles percebam que elas os trata com respeito, como cidadãos e não como consumidores. Mas para isso é preciso tempo.
03. Você defende a democratização da TV no Brasil. Como lutar contra um sistema já dominado pelas grandes corporações midiáticas? A TV Pública seria um começo da “luta”?
A TV pública é um bom começo, pode servir de exemplo, mas não é tudo. O Brasil precisa de um controle maior sobre os meios de radiodifusão. Os “marinhos” e os “macedos” não são donos das concessões. Eles as receberam do Estado em nome da sociedade para prestar serviços de informação, educação, arte e cultura, como está dito na Constituição Federal. A sociedade, portanto, tem direito de cobrar a qualidade desse serviço, mas não tem nem como nem onde. È necessária a existência de órgãos reguladores capazes de fazer essa intermediação entre o público e as emissoras, como ocorre em quase todos os países democráticos do mundo.
04. Em outubro de 2007, venceram as concessões de importantes emissoras do Brasil de TV, como as das Organizações Globo, Record e da Bandeirantes. Como sempre aconteceu na história da nossa TV, as renovações foram automáticas, sem que houvesse debate algum com a população. No mesmo ano, Hugo Chávez, presidente da Venezuela, não renovou a concessão da RCTV e foi bastante criticado pela grande mídia. Você acha que a Venezuela deu “10 passos à frente” do Brasil em favor da democracia? Ou a ação de Chávez foi autoritária?
O presidente Hugo Chavez apenas cumpriu a Lei. Acabou o contrato de concessão da RCTV e o governo considerou que a emissora havia infringido a legislação do país e as normas do contrato e, por isso, não o renovou. Isso acontece com freqüência nos Estados Unidos e na Europa mas ninguém comenta por aqui. Vale lembrar que o governo venezuelano não fechou a emissora. Ela segue transmitindo através do cabo. No Brasil, as concessões têm sido renovadas sem nenhuma avaliação do serviço prestado e os concessionários se acham donos dos canais públicos. Mas as coisas começam a mudar. O Congresso criou uma comissão que está elaborando normas mais precisas para julgar se uma concessão deve ou não ser renovada.
05. Com a TV Pública, veio a transmissão digital. No Brasil, o padrão de televisão digital adotado é o japonês. Voltando ao passado… o governo FHC previa a escolha de três sistemas digitais: norte-americano, europeu e japonês. Já no governo Lula, pensou-se na possibilidade de um Sistema Brasileiro de TV Digital. O atual ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMBD – MG), ignorou qualquer debate na época sobre a criação de um sistema nacional. Você acha que o ministro atuou de forma a atender interesses particulares? Ou um sistema digital brasileiro era inviável?
O sistema de TV digital brasileiro não era só viável como chegou a funcionar aqui em São Paulo para testes. Ele estava praticamente pronto para ser colocado em funcionamento. Mais de mil pesquisadores se empenharam nesse projeto, um trabalho jogado fora porque o Ministério das Comunicações preferiu atender aos interesses das emissoras de TV, particularmente da Globo, q ue não abriam mão do padrão japonês.
06. Lalo, em agosto de 2008, você foi apresentado como o novo ouvidor-geral da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), empresa que gere as emissoras de rádio e televisão públicas federais. Conte-nos qual é o papel do ouvidor?
Tenho a tarefa, junto com três ouvidores-adjuntos (para a TV, rádio e agência de notícias) de estabelecer um canal de comunicação entre o público e a empresa. Estamos motando esses canais para as cinco emissoras de TV, oito de rádio e para a agência. O público poderá falar conosco de várias formas: cartas, e-mail, telefone (0800) e pessoalmente. Ainda que de forma não tão abrangente nós já ouvimos o público através do endereço eletrônico ouvidoria@ebc.com.br
Teremos também uma presença constante em todos os veículos da empresa analisando criticamente as suas programações e os seus textos.
07. Para finalizar nossa entrevista, não podia deixar de comentar sobre um texto que escreveu, “De Bonner para Homer” (2005). Nele, você fala do âncora do Jornal Nacional, William Bonner, que “apelidou”, em uma reunião de pauta, o telespectador de Homer Simpson, raciocínio lento para entender assuntos mais complexos. Essa prática, de escolher o assunto que será tratado num jornal não é exclusividade da redação do Jornal Nacional. Isso acontece em todos os jornais do país. Hoje, seria difícil modificar essa postura do jornalismo brasileiro?
O telejornalismo brasileiro está contaminado pela luta em torno da audiência. Por isso não tem nenhum interesse em tratar as questões de forma séria e contextualizada. A notícia é transformada em espetáculo para assustar ou entreter o telespectador, como fazem as novelas e os programas de auditório. Espero que a TV pública possa mostrar um telejornalismo diferente dando então condições do telespectador exigir também da TV comercial mais qualidade jornalística.
08. Uma mensagem para os freqüentadores do site Poucas e Boas da Mari.
Que continuem acessando e participando do site. Fiquei contente ao lembrar que a Mari fez o belo discurso de formatura na Metodista de Piracicaba, quando tive a honra de ser o patrono. E fico mais contente ainda ao saber que ela segue a trilha prometida e este site é o melhor exemplo disso.








Mari on Tue, 23rd Dec 2008 10:12 am
Mari,
Parabens pelo site e pelas reportagens!
beijao
Cy
Josué Ribeiro on Tue, 23rd Dec 2008 4:51 pm
Olá Mari, como sempre fazendo ótimas entrevistas, na entrevista com o Laurindo Lalo, em especial, você está brilhante, percebe-se o quanto você é inteirada das coisas. Acompanho seu trabalho e cada vez mais, acho que sao pessoas como Mari que vao mudar o Brasil. Parabéns pela matéria e continue.
Zitto on Tue, 23rd Dec 2008 9:56 pm
Mariana,
Excelente entrevista com o Lalo.
Parabéns vocês estiveram ótimos, profissionalismo com responsabilidade.
abraço
Zitto
Vitória Valadares on Fri, 26th Dec 2008 10:41 am
Mariana,
você sabe da “pouca”(rs) admiração que eu tenho pelo Lalo, não é mesmo?E com a entrevista não poderia ser diferente.Não canso de ler, já li umas “trocentas” vezes.
E é justamente nesse tipo de entrevista que eu vejo você mostrar todo o seu potencial jornalístico, seu lado crítico e consciente que é muito forte.
Um viva para os “Lalos” e as “Marianas” que existem nesse país, poucos infelizmente, mas existem.
Denise on Mon, 29th Dec 2008 12:55 pm
Adorei a entrevista!
Quanta coisa ele tem pra dizer, hein!
Quem dera que todo mundo pudesse ter acesso a esse tipo de “coisa”.
Parabéns!
Rodrigo Alves on Wed, 31st Dec 2008 2:12 pm
Concordo com o Lalo quando fala da luta pela audiência no telejornalismo brasileiro. Expressa bem o que o Arbex fala em seu livro “Showrnalismo”.
Má, a entrevista com nosso patrono de formatura está ótima. Parabéns!
E aproveitando para retribuir: que fiquemos “blogados” constantemente em 2009! Te admiro muito!
Rodrigo Alves
http://www.dandonota.wordpress.com
Katia on Sat, 24th Jan 2009 12:35 pm
Olha só, não tinha visto ainda a entrevista do Lalo…heheh
Muito bacana Mari. Ele até lembrou do seu discurso na nossa formatura…que fofo!!!
bjão