Entrevista com o cantor Wilson Dias
March 17, 2008 by Mari Valadares
Filed under Poucas e Boas Entrevistas
01. Wilson, escrevo essa pauta ouvindo o seu terceiro cd, o “Picuá” (2007), que finaliza uma trilogia que exalta a forte cultura popular da região do Jequitinhonha-MG, fonte constante de suas pesquisas. Essa trilogia se iníciou com “Pequenas Histórias” (1997), seguida de “Outras Estórias” (2002). Conte-nos sobre esses trabalhos de 15 anos de estrada.

Acho que meu canto brota do amor e de amizades que, sob vários ângulos, vão rasgando espontaneamente sentimentos, como as águas nascem do seio da terra e formam o Jequitinhonha, percorrendo os sertões de onde venho. Minha carreira começou ao acaso ou, quem sabe, ainda criança lá pras bandas de Olhos D’Água, cidade incrustada no coração do alto do Jequitinhonha. Cresci vendo meu pai tocar viola e minha mãe entoar velhas cantigas, enquanto lavava roupas nas correntes outrora, caudalosas e límpidas de um rio que passava nos fundos da nossa casa.
Esses trabalhos são frutos de minha caminhada durante anos ao lado da música. Tem influência das folias de reis, dos catopês, que tive a felicidade de acompanhar pelas ruas de Bocaiúva, cidade onde morei dos dez aos 17 anos. Mas como toquei muito tempo em bandas de bailes e bares de Belo Horizonte, tive que tocar de quase tudo um pouco, das baladas românticas ao forró, passando pelo velho e bom samba é claro! Então quando a gente faz um balanço disso tudo e tenta tirar o melhor possível para o trabalho próprio, o resultado é quase sempre satisfatório, o que é o meu caso.
02. “Picuá, na linguagem de um jequitinhonhense, é um relicário, um lugar onde se guarda o que há de mais precioso, sua cultura, seus cristais: suas canções”. Qual é a importância de “guardar” essas canções em um país que a cultura pop domina o mercado?
Talvez se eu buscasse uma visão mercadologia financeira, teria que encontrar outra saída. Mas sendo filho da cultura popular, tendo um avô que morreu aos 106 anos de idade, cantando e declamando coisas que aprendeu com seus pais e fez questão de me ensinar, agora que sou pai sinto me quase na obrigação de registrar o que aprendi para que outros tenham a possibilidade de conhecer e assim garantir que elas não se percam da memória.
03. A faixa Canção de Siruiz é uma adaptação do poema homônimo que está em Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. O universo rosiano se faz muito presente em seu trabalho. O que João Guimarães Rosa representa para a sua arte?
Essa vou te responder com uma estrofe de uma canção que fiz em homenagem a ele e a todos os mestres da cultura popular.
“Iluminados homens e mulheres vão gestando a terra, com alegria separam sementes que vão germinar. Como Jesus multiplicou o pão, João planta seu grão que deixa de ser grão pra ver nascer seu filho, fruto do milagre da multiplicação. Louvado seja João, bendito grão, de onde vens João, venho do chão, sei que sou pai mas também sou filho do grão”.
A cultura popular, a literatura, especialmente Guimarães Rosa é uma espécie de hóstia para minha comunhão com a música.
04. Você já foi indicado ao Prêmio Tim de Música Brasileira, em 2002, com o cd “Outras Estórias”. Em uma entrevista para o site Poucas e Boas da Mari, a cantora Déa Trancoso, que já recebeu quatro indicações ao prêmio, disse que o trabalho dela ficou mais visível fora de Minas Gerais. Você sentiu isso também?

Mari, peço desculpas, mas essa informação foi equivocada para você, meu disco “Outras Estórias” foi apenas selecionado a concorrer à indicação do prêmio Tim de Música Brasileira. De qualquer forma isso me deu uma certa visibilidade fora de Minas também.
05. E por falar na cantora Déa Trancoso, vocês têm uma parceria muito linda (dando um toque pessoal a pergunta) na concepção, direção artística, projeto gráfico e supervisão do “Picuá”. E você atuou como produtor fonográfico das canções do cd “Tum Tum Tum”, da Déa. Como nasceu essa parceria, Wilson?
Bem, a Déa além de ser minha amiga do coração é uma das profissionais mais completas que conheço e tem contribuído muito com meu fazer artístico. Em “Outras Estórias”, o segundo cd de minha carreira ela me presenteou com um lindo texto de apresentação. Como diretora artística do CD, foi buscar o arranjador Kristoff Silva que faz parte do primeiro time de músicos do Estado e, numa sintonia fina com aquela bagagem musical proposta, indicou novos rumos e possibilidades para meu trabalho, dialogando com o repertório de maneira, ao mesmo tempo, contemporâneo e capaz de preservar as tradições, as heranças e características sonoras. Temos muita afinidade, talvez por sermos da mesma região, conviver e participar das mesmas manifestações culturais. No “Tum Tum Tum”, além de fazer a produção fonográfica, tive a honra de dividir com ela os vocais na canção “Rainha”. Ela também gravou “Canarim do Mato” canção recolhida e adaptada por mim. É uma relação de mais de quinze anos, é igual cano de garrucha, um atira e o outro esquenta rsrsrsrs.
06. Já tem em mente um próximo trabalho? Se sim, seguirá o mesmo estilo da trilogia?
Apesar de não ter data para iniciar a gravação de um novo CD o repertório já está pronto e seguirá a mesma linha, mesclando composições próprias e adaptações de cantigas da nossa rica cultura popular brasileira.
07. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.
Antes da mensagem, gostaria de agradecer e dizer que fiquei muito feliz em participar do “Poucas e Boas da Mari”.
Aos freqüentadores:“A generosidade não está em dar-me aquilo de que preciso mais que tu, mas em dar-me aquilo que precisas mais que eu”.
PARA SABER MAIS:
MySpace Wilson Dias
Fotos: Marcelo Oliveira e Reprodução
Wilson Dias cantando Canção do Siruiz
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vicente gonçalves filho on Sat, 14th Nov 2009 4:27 pm
adoro a vozdo wilson dias, (em martin pescado e a musica dotino gomes )9fruta do norte???) espetacular