Entrevista com a atriz e diretora Bárbara Bruno
December 1, 2007 by Mari Valadares
Filed under Poucas e Boas Entrevistas
01. Bárbara, analisando sua carreira, observa-se uma tendência para os trabalhos teatrais. O que a encanta no teatro para fazer dele um de seus principais ofícios?
Paixão e o fato de ser ao vivo. Isso é fascinante! Te dá a possibilidade do risco, a possibilidade de mergulho sem rede protetora. Eu gosto disso, sempre gostei. Não é que eu não goste de outras linguagens, são fascinantes também, têm seus encantos sem dúvida nenhuma, mas o teatro está na mão do ator. Você cria uma coisa, quase que um vício. (rs)
02. Você está em cartaz com duas peças: como atriz em “Motel Paradiso”*, texto originalmente escrito por Juca de Oliveira e como diretora de “O Santo Parto”, texto de Lauro César Muniz. As duas peças discutem valores. A primeira discute os valores éticos e morais na sociedade contemporânea e a segunda, os dogmas da Igreja Católica. A intenção das peças é impor alguma verdade absoluta sobre os temas abordados?
Claro que não! Aliás sou absolutamente contra a qualquer verdade absoluta (rs). Uma das funções do teatro é exatamente levantar questionamentos, é colocar que não existem verdades absolutas. Você tem que questionar, pesquisar, você pode mudar de opinião. Tem uma frase que eu gosto que diz assim: “Penso, logo mudo de opinião” (rs). Então, faz parte do processo teatral levantar essas questões e fazer com que um maior número de pessoas possível comece a pensar, discutir, a defender seus pontos de vista. Eu sou radicalmente contra a verdade absoluta (rs). Não estamos preparadas para ela.
A temporada da peça “Motel Paradiso” terminou no dia 02\12\2007
03. Dirigir ou ser dirigida?
Os dois. Não ao mesmo tempo, não gosto de dirigir quando atuo. Depois de estreada, se tiver que substituir, tudo bem, mas meu processo de criação enquanto diretora bate de frente com meu processo de atriz.
Então a Bárbara diretora é diferente da Bárbara atriz.
Bem diferente, apesar de uma ajudar a outra, sem dúvida nenhuma. Antes de assumir a direção sozinha, eu fiz durante muitos anos assistência de direção. Tive grandes mestres, foi maravilhoso, entre eles Antônio Abujamra, Roberto Lage, Antônio Mercado, Marcelo Marchioro… Meu Deus do céu vai faltar gente! (rs). Enfim, foram grandes mestres e quando você passa para o outro lado, te enriquece muito. Você passa a ter outro ponto de vista. Meu trabalho como atriz cresceu bastante depois que mergulhei na direção.
04. Escrita em 2003, a peça “O Santo Parto” já teve uma montagem no Rio de Janeiro. Você ficou receosa com as comparações quando estreou a peça em São Paulo?
Não, pelo contrário. O bom texto teatral é bom por isso, porque ele te dá abertura para “n” leituras, “n” montagens. E como disse o grande Nelson Rodrigues: “a unanimidade é burra”, eu quero mais é criar polêmica mesmo. O importante é criar polêmica e não agradar a todos… Também não desagradar a todos (rs), não é? Não tenho medo de comparação, não. E acho absolutamente normal quando você expõe um trabalho e têm pessoas que gostam mais de uma montagem, outras que gostam mais da outra e outras que gostam das duas ou que não gostam de nenhuma. Faz parte do trabalho da gente. No começo nós falamos do desafio, do mergulho sem rede protetora, isso faz parte do processo e é fascinante, temos que estar preparados para ouvir as criticas e repensar. Aí sim chegar em uma conclusão se a pessoa tem razão ou não.
Como foi a preparação da peça para a temporada paulista?
Eu trabalhei com uma equipe maravilhosa. Maravilhosa! Tive atores fantásticos, tivemos uma química muito boa. Os atores entendiam exatamente o que eu falava e vice-versa. Além da equipe cênica, dos oito atores, minha equipe técnica também é excelente. Ivam Cabral, que fez assistência de direção para mim, nos demos muito bem, excelente profissional. O Márcio, que criou os cenários e os figurinos, entrou depois, quer dizer, ele entrou com o processo já em andamento e foi um profissional fantástico. O maestro Marcelo Amalfi que conheci neste trabalho, não o conhecia antes e foi um encontro muito legal, que a gente já repetiu em outros trabalhos. Ele realmente é muito talentoso. A Lenise Pinheiro, que fez a luz e as fotos… Teatro é difícil acontecer isso e com esse espetáculo aconteceu. Trabalhei exatamente com as pessoas que eu queria trabalhar. É muito bom e difícil de acontecer. Tenho um carinho enorme por esse espetáculo, porque foi um encontro de pessoas certas, na hora certa.
E em Motel Paraíso?
É uma delícia também, aqui eu sou só atriz, porque lá em O Santo Parto, eu produzo também. Aqui sou só atriz, eu ainda brinco: “Vocês ainda vão me pagar?” (rs). Eu só tenho que ir lá e fazer a peça. É um grupo maravilhoso. O Ben-Hur, que é o produtor, que eu já conhecia há muitos anos, fazia tempo que a gente não trabalhava junto e os atores e a equipe, que são uma delícia. O Mauro de Almeida, que eu também conheço há muitos anos, fazia tempo também que a gente não trabalhava junto.
Isso ajuda muito na química.Ajuda muito, muito. Porque aquele tal negócio, né? Como é ao vivo, então a coxia passa para o espetáculo, conseqüentemente para o espectador. O prazer que a gente tem de fazer o trabalho, de realizar o trabalho, o respeito ao palco, tudo isso passa. E quando a gente tem a felicidade, a sorte de trabalhar com um grupo que fala a mesma língua, é extremamente prazeroso.
05. Vamos falar agora de televisão. Depois de um tempo longe da telinha, você participou das novelas Cidadão Brasileiro (Record) e Maria Esperança (SBT). Como foi esse retorno?
Foi muito gostoso, muito agradável, porque fazia tempo que eu não fazia televisão. Fazia tempo que eu não fazia televisão, assim, novela.
Sei.
Porque do veículo eu não fiquei tão afastada. Sempre fazendo vídeos, vídeos internos, convenções e mesmo em televisão, programas…
[o ator Gerardo Franco canta no camarim]
(rs) Coxia é assim mesmo… programas como Sítio do Pica-Pau Amarelo, Angélica…
… Zorra Total…
… Zorra Total, enfim, fiquei muito tempo afastada foi de novela mesmo. Foi uma opção. Assumi o Teatro Paiol em São Paulo e era um trabalho enorme que eu tinha que fazer aqui. Naquela época e até um pouco tempo atrás, tudo acontecia só no Rio de Janeiro, aí tinha que largar aqui…
… ir para lá…
Não dava. São opções que a gente tem que fazer na vida, que fiz com maior prazer, foi ótimo. E esse retorno também, extremamente agradável. Fazia tempo que eu não exercia esse tipo de trabalho, é muito gostoso também, essa linguagem, os colegas. Com a gente acontece uma coisa engraçada, às vezes você fica anos, anos, sem encontrar um colega e quando retoma um trabalho, parece que você terminou o trabalho anterior uma semana antes. É uma coisa engraçada isso que acontece com os atores e é fato, acontece mesmo. Você retoma como se o tempo não tivesse passado. Isso é muito bom e essa abertura de mercado foi fundamental para todos nós, inclusive para o público. Fico muito feliz de poder participar dessa retomada. Eu tenho uma frustração que é cinema, nunca fiz longa-metragem.
Eu ia perguntar sobre isso.
Essa é uma frustração que eu pretendo terminar logo com ela (rs).
Nunca houve convite, Bárbara?
Nunca houve convite para longa. Já fiz curta, fiz em 16mm, mas longa nunca fiz. É engraçado esse negócio. Agora eu tenho a impressão que está modificando também, porque o mercado está abrindo, antes eram guetos muito fechados. Por outro lado, eu também tinha meu gueto, não posso falar nada (rs), que era o do teatro. Então, a gente trocava pouca figurinha, aí não lembram mesmo para te convidar, mas pretendo resolver isso rápido (rs).
Espero que aconteça rápido também. (rs)
06. Em Cidadão Brasileiro, você viveu Cleonice. Já em Maria Esperança, você foi Eugênica Albuquerque. A essência das duas personagens é muito parecida.
Você acha?
Eu achei… O ator Walter Breda, em uma entrevista ao site Poucas e Boas da Mari, disse que a televisão vive de repetições. O que você acha dessa afirmação? A incomodou fazer duas personagens parecidas? Eu digo parecida é porque uma era fútil e deslumbrada, que casou-se por interesse e a outra uma mulher rica no passado e que nos últimos anos viveu para gastar a fortuna que o marido lhe deixou ao morrer.
Bom, neste aspecto sim. Eu li a entrevista do Breda e é claro que ele tem razão no que coloca, porque na televisão, geralmente, rotulam. Você faz um tipo de personagem, aí sempre lembram de você para fazer exatamente aquele tipo e a gente fica tentando variações sobre o mesmo tema.
Nesse aspecto que você falou elas eram muito parecidas, mas tinham essências diferentes. A essência da personagem de Cidadão Brasileiro era uma essência mais dura, tinha problemas mais sérios, ela era muito mais mal resolvida como pessoa. A personagem de Maria Esperança era muito bem resolvida, não tinha problemas com relação a isso, muito pelo contrário, vivia de ilusão, porque vivia através do cinema, né? Pelo sonho do cinema, ela extravasava toda sua frustração, vamos dizer assim. Que não era o caso da Cléo, do Cidadão. De qualquer forma, tinham a mesma essência sim, e eu acho que isso acontece muito de um modo geral na escalação da televisão. Acredito que com essa abertura de mercado isso começa se resolver também, porque quando se começa a ter concorrência, isso obriga a ter mais qualidade. O fato de ter mais qualidade, obriga a prestar mais atenção. É um processo um pouco lento, demora um “pocadinho”. A gente acaba chegando lá, porque a essência graças a Deus, continua sendo a arte e a arte vive da qualidade. Por mais que a indústria queira engolir, a arte vive da qualidade, se não deixa de ser arte. De duas, uma: ou isso realmente acontece, a arte se impõe ou então termina a arte e vira indústria pura e simples. E aí não precisa da gente, aí usa o computador e pronto.
O que você acha dessa guerra de audiência. Você acha que prejudica a qualidade das telenovelas?
Depende de como os responsáveis pelos núcleos lidam com isso, porque na verdade, acho que têm os dois lados: tanto pode ajudar, como pode atrapalhar.
Essa concorrência é maravilhosa, mas quando pensam só na questão audiência…
Então, por isso coloquei que depende das pessoas que estão nestes cargos: diretores de núcleo, diretores de dramaturgia, porque são eles que vão determinar isso. Entender que os números vem em decorrência da qualidade e isso tem um tempo. O número a qualquer preço, a qualquer custo é efêmero, ele acontece, mas ele é curto. Por isso que eu brinquei, aí vai para os computadores (rs) e resolve de uma outra forma, mas não no processo artístico.
07. Já com projetos para 2008?
Sempre! Graças a Deus sempre!
Pode contar quais são esses projetos?
Posso, posso. Estou com dois projetos de teatro para o ano que vem. Não sei exatamente quando será. São dois projetos maravilhosos. Um é como atriz, um Tennessee Williams, que sou apaixonada. Finalmente conseguimos os direitos de “De repente, No Último Verão”. E o outro, como diretora, que também acho uma delícia, estou com o espetáculo todo na cabeça, é um texto da Agatha Christie, que chama “O Hospede Inesperado”. Quero fazer um espetáculo bastante diferenciado. São esses dois projetos para o ano que vem, de teatro. Os outros depende de convite (rs).
08. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.
Não deixem de ir ao teatro. Será sempre uma experiência inesquecível, porque você fica fechado entre quatro paredes, absolutamente cúmplice daquele momento. Então, ele jamais vai se repetir, é um momento único que será vivido naquele instante e só. E mesmo que você não goste, tenha certeza que jamais se esquecerá.
Muito obrigada, Bárbara!
Obrigada você!
Fotos: Raoni Carneiro
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