Entrevista com o poeta Cláudio Bento
September 22, 2007 by Mari Valadares
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Há uma riqueza no Vale do Jequitinhonha – MG que as pessoas desconhecem… A riqueza cultural. O site Poucas e Boas da Mari entrevistou mais uma dessas riquezas, Cláudio Bento, poeta dessa região repleta de música, poesia e tradição. Hoje residente em Belo Horizonte, Cláudio já foi premiado em diversos concursos nacionais de poesia e possui mais de 10 obras poéticas. O poeta, como comecei a chamá-lo em nossas “conversas virtuais”, conta aos freqüentadores do PBM um pouco sobre o seu encantamento com esse gênero literário e muito mais.
01. Abro a entrevista perguntando sobre seu encantamento com a poesia. Como foi, poeta?
Bem, sou de um tempo em que ainda estudava-se poesia na sala de aula. Alunos daquela época, década de sessenta, tinha contato com a poesia de Casimiro De Abreu ( Meus oito Anos ), Castro Alves ( Navio Negreiro ) e Cecília Meireles ( Ou Isto Ou Aquilo ). Lembro-me bem que era um livretinho que continha estes e outros poemas. Mas a poesia de verdade estava no cotidiano, na vida, nas lavadeiras lavando roupa no rio, nas folias de reis que passavam nas ruas, no boi de janeiro que cantava e dançava nas nossas portas na pequena cidade de Jequitinhonha, nos garimpeiros, nos pescadores, nos canoeiros, na imensa e diversificada manifestação cultural da cidade.
02. Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário e Oswald de Andrade, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles foram alguns poetas que influenciaram você a seguir “esse caminho cheio de delicadeza”, mas foi Ferreira Gullar sua maior identificação. Por quê?
Quando ainda no início da década de oitenta, quer dizer, quando eu estava iniciando a minha carreira literária, muito inseguro com o que estava lidando, li o Poema Sujo, de Gullar e lendo esse livro extraordinário descobri a verdadeira essência da poesia, caiu o mito de que a poesia era aquela coisa limpinha, delicada, doce. Descobri que a poesia poderia ser suja, real e dura como a vida daquela gente que vivia no vale sofrendo a seca, a sede e a fome. Com o Poema Sujo descobri que o luar também clareia a lama, como diz a canção brasileira.
03. Você está escrevendo um livro de poemas dedicado à irmã da poetisa gaúcha Alma Welt, Lúcia Welt. Nos poemas você escreve sobre o “vale encantado”, o Jequitinhonha. Qual a relação entre sua musa e o vale?
Na verdade Vale Encantado é uma expressão dita pela Lúcia Welt, irmã da grande escritora e poeta Alma Welt. Conheci a Lúcia Welt através do blog da Alma e desde então mantemos uma grande relação de amizade e carinho, sendo que a relação da poeta gaúcha com o vale é o de ter contato com alguns de meus poemas que estou dedicando a ela.
04. Um dos seus poemas dedicados a Lúcia se chama CHAPÉU DE CHUVA DA SAUDADE. Você inicia e termina o poema com “A infância passou como um filme de aventura”. Um “ar nostálgico” paira em suas palavras. O Jequitinhonha de hoje é muito diferente do Jequitinhonha que deixou saudade?
O Jequitinhonha de hoje é muitíssimo diferente do Jequitinhonha da minha infância. Tudo isso que hoje chamam de folclore era natural naqueles tempos, de maneira que a festa do divino espírito santo, a festa do rosário, as folias de reis, o bumba-meu-boi que lá é chamado de boi de janeiro, o candomblé, os carnavais, eram manifestações que faziam parte do nosso cotidiano. Hoje não existe nada disso, nem lavadeiras no rio, nem canoeiros, nem pescadores, mesmo o rio e os peixes são escassos hoje. O Jequitinhonha perdeu muito de sua beleza cultural. Hoje temos o Festivale – Festival Da Cultura Popular Do Vale Do Jequitinhonha, que busca preservar a cultura do vale realizando o festival a cada ano em diferentes cidades do Jequitinhonha. O Festivale é um movimento histórico e neste ano de 2007 completou vinte e cinco anos de existência. É um evento que aglutina shows de cantores do vale, oficinas, mostras teatrais, noite literária, feira de artesanato, exposições de fotografia, mostra de vídeo e muito mais. A verdade é que vivi uma infância na cidade de Jequitinhonha que propiciou-me ser o poeta que sou hoje. Baudelaire já disse que o poeta é aquele que mora no reino da infância e é isso mesmo, na minha poesia bebo da água doce da infância com minha avó índia contando-me histórias e lendas, com a praia do rio alongando-se diante de meus olhos, com o rio caudaloso e de águas puras, com as ruas, os becos, a velha cacimba que abastecia aquela gente humilde de água, com as igrejinhas de São José e de Santo Antônio, com as grandes procissões serpenteando em becos e ruas da cidade, com o som dos atabaques dos candomblés e dos carros-de-boi chiando sua estranha canção, enfim, tudo isso e muito mais permaneceu na memória, os cheiros, os sons, os pássaros, as pessoas que viviam naquele mundo de poeira e sonhos.
05. O POEMA, título de mais um de seus textos poéticos: “O poema/ quando ele vem/ vem molhado de chuva/ vem manchado de sangue – vem/ como quem/ não quer vir como alguém/ que titubeia/ como quem não sabe o que quer – O poema/ quando ele vem/ vem como um facho de luz/ entrando pela janela/ e/ se vem não importa lugar/ ou situação/ vem e instala sua livre vontade – No supermercado/ na praia/ na vertigem/ da avenida entupida de gente e carros – O poema/ quando ele vem/ vem assim/ sem mais nem menos/ como uma chuva em dia de sol”. É assim que suas inspirações chegam, sem mais nem menos?
Não. O negócio é o seguinte, o ato de escrever me consome muito, eu sofro para dar um poema como pronto, como definitivo e um poema nunca é definitivo, como tudo na vida.
Não acredito em inspiração, em um santo descendo e lhe confidenciando o poema. Não, o poema é fruto de trabalho, é um exercício. Hoje trabalho muito com intertextualidade nos meus próprios textos e nas minhas oficinas de produção de poemas e para executar um intertexto o poeta sofre muito, garimpando aqui e ali a palavra exata, porque o poeta é como o ourives que lapida sua pedra preciosa tentando dar o maior brilho possível à sua jóia. Não nego que às vezes a gente tem idéias para escrever um poema e tais idéias podem vir dentro do ônibus, do avião ou do trem ou na rua entupida de gente e carros. Mas poesia não é feita de idéias, mas de uma outra coisa maior que chamo de trabalho.
06. Toda terça-feira ocorre o projeto “Terças Poéticas”, no Palácio das Artes, de Belo Horizonte – MG. Qual é a importância de projetos como esse?
O Projeto ” Terças Poéticas ” cumpre o papel de retirar o poema dos livros e levá-lo para junto do público. A poesia já não sustenta-se apenas nos livros, nas estantes de bibliotecas. Vejo de bom grado movimentos poéticos que estão nascendo em toda parte do país. O Psiu Poético que acontece em Montes Claros é exemplo disso, assim como a noite literária que acontece no Festivale, assim como o Festiriodoce, um festival de poesia regional realizado há três anos na cidade de Governador Valadares. Vejo como muito importantes que esses movimentos aconteçam popularizando de maneira efetiva a ato de escrever poesia.
07. Infelizmente a realidade do povo brasileiro em relação à poesia é cruel nos dias atuais. Difícil você conhecer crianças e adolescentes (até mesmo adultos) que entendam e se sensibilizem com textos poéticos. O que você acha que falta à maioria das pessoas, poeta?
Eu acho que as escolas poderiam contribuir mais para que esse problema fosse sanado, com professores melhor preparados. A gente vê professores aí que nunca leram um livro sequer, então é complicado esperar que os alunos interessem por livros, por poesia, por uma capacidade intelectual mais satisfatória. Também acho que falta incentivo do poder público para com a leitura. Os livros no Brasil são caríssimos e dificulta o grande público estar próximo de bens culturais não só de livros, mas de cinema, teatro, shows.
08. São 11 obras poéticas e vários prêmios nacionais de poesia no currículo. O que falta para Cláudio Bento?
Ainda falta muita coisa, como um reconhecimento maior por parte das editoras para que eu publique meus livros. Fiz parte da geração mimeógrafo muito depois de Chacal, de Waly, de Cacaso e de Geraldinho Carneiro. Eu tinha um amigo poeta chamado Wellington Miranda que um dia apareceu com um livro de poemas todo feito na máquina de escrever, mas com capinha de cartolina, uma verdadeira obra do mais puro artesanato. Vi ali a possibilidade de publicar algumas coisas que vinha escrevendo e não deu outra. Meu tio Sebastião Bento, pintor e tipógrafo fazia o trabalho da capa e rodávamos o miolo no mimeógrafo à tinta dando-lhe um caráter de livro. dava-se para fazer uma tiragem de apenas cem exemplares e foi assim que a minha poesia ficou conhecida no Vale Do Jequitinhonha. Até hoje pago as edições dos meus livros. A poesia é vista como algo menor pelas grandes editoras brasileiras. De todo o mercado editorial brasileiro a poesia alcança menos de 6% das publicações e isso é uma lástima para nós poetas.
09. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.
Espero que o site ” Poucas e Boas da Mari ” tenha vida longa, pois é um espaço de suma importância para artistas de diversas áreas culturais.
Obras Poéticas:
- Jequitinhonha, Barro e coração – Edição do Autor- 1983
- Cabeça de Poeta – Edição do Autor – 1984
- Ameaças do Curare Poluente – Edição do Autor – 1984
- Tambor Brasileiro – Edição do Autor – 1984
- Coração do Barro – Editora Arte Quintal – 1985
- Retrato da Bahia de todos os Santos – Edição do Autor – 1986
- Poemas à Luz do Sol – Edição do Autor – 1989
- Cheiro de Jenipapo – Edição do Autor – 1990
- Cozinha no Vale – Edição do Autor – 1991
- Vinho e Vertigem – Editora Palesa – 1995
- A Palavra Pulsa – Editora Por Ora – 1998
Prêmios:
- 1º lugar no Concurso de Poesia da cidade de Coluna/MG, em 1989,
- 1º lugar no Concurso de Poesia Mercês Maria Moreira, em Paraopeba/MG, em 1992,
- 1º lugar no Concurso de Poesia Asas, no Rio de Janeiro, em 1992;
- 3º lugar no Concurso de Poesia Escrita e Falada do Vale do Jequitinhonha, em Minas Novas/MG em 1993;
- 3º lugar no Concurso de Poesia Escrita e Falada do Vale do Jequitinhonha, em Jordânia/MG, 1999
- 3º lugar no concurso de Poesia Escrita e Falada do Vale do Jequitinhonha, em Bocaiúva/MG, ano 2.000, entre muitos outros.
Fotos: Divulgação
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Newman Franco on Sat, 28th Mar 2009 8:17 pm
Fui vizinho de Cláudio Bento lá na querida Jequitinhonha. Lembro-me dele no Colégio São Miguel, ele me chamava de “Crânio”, achava-me inteligente. O jeito dele de lidar com a literatura é nato,é genuíno. Vocês não sabem, mas além de bem escrever foi um craque de futebol de salão e no campo. Seu último time lá em Jequita foi o Democrata que era treinado pelo Gilberto da Mobiliadora Guanabara.
Cláudio, um abraço.
Newman