Entrevista com a cantora Déa Trancoso

September 12, 2007 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Entrevistas

01. Déa, você participou de muitos festivais. O que eles significaram para você?

Fui descoberta, por assim dizer, num festival da minha terra, o FESTIVALE (Festa da Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha), que, há 30 anos, acontece, sempre em julho, numa das muitas cidades da região. Fomos vencedores, eu e meus dois parceiros, Si Amaral e Celi Márcio, com a canção “Tuíra – índia guerreira”, do 10° FESTIVALE, que aconteceu em Rubim, baixo Jequitinhonha, ao lado da minha cidade natal Almenara. Os festivais fazem parte da história da música popular brasileira. Neles, muitos artistas foram revelados, amadureceram trabalhos, linguagem artística, estética e tal. Nestes que participei, sempre atuei ao lado de artistas que eram ídolos para mim: Paulinho Pedra Azul, Saulo Laranjeira, Dércio Marques, Elomar Figueira de Melo, Xangai, Diana Pequeno, Rubinho do Vale, Titane, entre outros. Muitos ainda bastante desconhecidos das massas, né? O Brasil tem isso: é uma efervescência artística absurda. Tem muita coisa acontecendo longe dos grandes centros nervosos do país. O Brasil ainda é rural! É uma realidade! Em Minas Gerais, por exemplo, são mais de 800 municípios, muitos com menos de 100 mil habitantes. Só no Vale do Jequitinhonha são quase 90 cidadezinhas. Isso é o Brasil!!! Tem muita beleza escondida!!!

02. Em 2002, a convite do compositor e violeiro Chico Lobo, você participou do disco “O Violeiro e a Cantora”. Como foi esse convite? Não foi a única parceria com o Chico, né?

O convite veio num programa de tv que participamos juntos, assim de chofre… Ele disse no ar: “Déa, vamos fazer um disco só de viola e voz?” E eu respondi no ato: “ vamos!!!” Pesquisamos repertório, ouvimos muitos vinis antigos e buscamos o dinheiro para fazer o cd. Primeiro, reunimos as canções do Chico e clássicos da viola caipira e roteirizamos o show. Estreamos no Teatro da Assembléia/BH e fomos cantar nos projetos culturais que existem por aqui. Depois de um ano, convidamos o Tatá Sympa, que já dirigia o Chico em seus trabalhos de carreira, para a direção musical, e entramos no estúdio. Gravamos ao vivo no estúdio. Foi prazer e pavor ao mesmo tempo… Foi meu primeiro estúdio pra valer. Quando ouvi minha voz gravada, tomei um susto. Aí, conheci Pena Branca. Ele me disse: – “minha nega, não fique assim, quando ouvi a minha voz pela primeira vez gravada numa fita cassete, fiquei apavorado”. É assim, a gente vai se acostumando àquelas tessituras e tal. A voz ao vivo é uma coisa. Gravada, é outra. Eu tinha medo do microfone, medo de soltar a voz de emissão firme que é a minha como diz Tárik de Souza. Mas, depois que a gente viu e ouviu o resultado daquela ralação, ficamos muito alegres. “O violeiro e a Cantora” é um trabalho muito feliz e autêntico! Algumas canções do Chico Lobo só têm aquela gravação, como é o caso de “A manteiga e o Pão”, por exemplo. Outras, como “Um Violeiro Toca”, só foram gravadas por homens. Neste caso, fui a primeira mulher a gravá-la. Agora, já estamos na terceira edição do cd, que já sai, desde a segunda, pelo meu selo o “TUM TUM TUM Discos”. Além de “O Violeiro e a cantora”, vou fazer pelo selo o cd do multiinstrumentista André Siqueira, o instrumental “Lithus”. O selo vai aos poucos sedimentando o seu lugar que é publicar aos ouvidos música que eleva a alma para a luz.

03. O repertório de “O Violeiro e a Cantora”, que foi uma releitura da obra do próprio Chico e de clássicos, como Um Violeiro Toca, já estava escolhido ou a escolha dele fez parte dessa parceria também?

Então, não estava. Começamos ali, na hora do convite ao vivo na tv. Daí, reunimos o que me tocava e tocava ele. Neste meio tempo, fizemos nossa primeira parceria, “Reza de Folia”, que ele gravou em cd de carreira depois. No caso de “Um Violeiro Toca”, foi vontade antiga de cantar a canção e homenagem a uma das parcerias mais bonitas que é a do Almir com o Renato, né?

04. Seu primeiro trabalho solo, o cd Tum Tum Tum, foi fruto de 10 anos de pesquisa. Catimbó, sambas de caboclo e de roda, acalanto são alguns gêneros que integram esse cd, mas eu li que a idéia inicial era fazer um disco de samba-canção, que se chamaria Pelo telefone e Pela internet, em homenagem aos sambas de Donga e Gilberto Gil. Por que mudou de idéia? Foi para resgatar essa cultura popular, principalmente a do Vale do Jequitinhonha?

Foi mudando junto com o caminho percorrido… Encontrei muita gente bonita e forte nesta estrada. Meu mestre, já falecido, capitão dos Catopés (uma variação do Congado Mineiro) de Bocaiúva, João do Linomar. Ali, com ele, a música dos homens e mulheres do Rosário de Maria se fortaleceu dentro de mim, encontrou lugar no meu coração sertanejo de fé inabalável, assim como eles. Por outro lado, a minha bisavó paterna era índia. Então, desse modo, o catimbó já estava desenhado no meu caderno. Os catimbós, por exemplo, recebi de presente de uma entidade que portava uma insígnia dos eshus. Participei de um trabalho de busca de consciência durante mais de cinco anos e ganhei do Grande Poder isso… O Vale do Jequitinhonha foi escolha natural. Afinal, meu DNA sonoro é lá. É lá a minha fonte de água pura, a memória, a lembrança idílica de que o mundo tem jeito, de que a vida vale a pena. Lá estão os maiores exemplos de “vida talhada com as mãos”, como diz o poeta. Lá é o maior reservatório de alegria do planeta que conheço…

05. “Pelo telefone e Pela Internet” ainda é uma idéia para um próximo trabalho?

Num futuro próximo não mais. Mas, quem sabe um dia? Talvez eu faça um cd em homenagem ao Nelson Gonçalves, o cantor que mais ouvi na minha adolescência e com quem aprendi cantar. Talvez eu faça um cd cantando algumas pérolas do repertório dele. Vamos ver…

06. Conte um pouco como foram esses anos todos de pesquisa que resultaram no Tum Tum Tum.

Pois é. Foram, na verdade, 12 anos. Aprendi que a vida é trabalhar, brincar, cantar e rezar. Aprendi mais o que é ser brasileiro. Aprendi mais a SER. Tudo se modifica dentro da gente quando abraçamos uma pessoa da estirpe de João do Linomar, no seu esforço sereno e constante em publicar ao mundo a beleza do Rosário de Maria. Agora, com sua morte, o exemplo de vida dele pulsa na capitã Lucélia Pereira, a primeira mulher capitã de Catopés do estado de Minas Gerais. Tudo faz mais sentido quando conversamos com Mestre Zanza, que, com quase 90 anos, ainda segura firme a bandeira dessa mesma fé, lá em Montes Claros, norte de Minas. Enfim, a música é muito exigente e generosa comigo. Eu só tenho a agradecer a sua presença na minha vida.

07. Você recebeu quatro indicações para o Prêmio Tim de Música Brasileira com o cd Tum Tum Tum, nas categorias Melhor Disco Regional, Melhor Cantora Voto Popular, Melhor Cantora Regional e Melhor Projeto Visual. O que essas indicações representaram para você?

Abriram muitas portas. Embeleza mais uma estrada de 20 anos de parceria com a música, que é um passarinho arisco e demora a pousar nos nossos ombros. Às vezes, nunca pousa… Com as indicações, o trabalho ficou mais visível para fora de Minas Gerais, o que eu considero muito legal. Gravei o Sr. Brasil, de Rolando Boldrin, realizando um sonho antigo. Estou indo ao Rio de Janeiro gravar o programa Conversa Afinada, com a Patrícia Palumbo, da TVE. Déa Trancoso vai virar verbete do Dicionário da Música Popular Brasileira, coordenado pelo Ricardo Cravo Albin. Tudo isso é fruto do TIM. Enfim, as portas vão se abrindo e o TUM TUM TUM vai passando alegre e faceiro…

08. Qual é a sua opinião sobre o mercado fonográfico brasileiro em relação a ritmos populares, a ritmos folclóricos?

Mercado é lucro. Mercado é dinheiro. Os trabalhos de pesquisa enfrentam algumas dificuldades, especialmente quando são, de fato, independentes. O artista independente leva em torno de 5 anos (ou mais) para imprimir um ritmo nacional ao trabalho. No entanto, com os resgates mil que o samba dá, muita coisa legal da música tradicional, oral, está ficando conhecida. Isso é bom. Por outro lado, caminhamos para a independência do artista em relação ao mercado. Acho que esse é o desenho que se coloca. Então, assim, é possível a gente ter as rédeas do trabalho. De quais caminhos queremos seguir, quais escolhas queremos fazer. Como diz o Tárik de Souza, há muita pérola como TUM TUM TUM fora do eixo do mercado. E elas acontecem e brilham, apesar dele e, de alguma forma, nele, né?

09. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.

Acho que a Internet está salvando as relações humanas. Ela mostra onde podemos chegar, como somos iguais, que o vôo é sempre para o alto. É uma mudança fantástica de paradigma. É uma alegria ver que uma moça tão nova como você assuma e compreenda essa responsabilidade. Responsabilidade para mim é a habilidade em responder à vida com a direção sempre apontada para a luz. É bonito ver isso acontecendo através da Internet. Você me achou e publicou ao mundo um trabalho delicado chamado TUM TUM TUM. Comunicou. É lindo isso. Gratíssima pela delicadeza!!!

PARA SABER MAIS:
Blog Oficial Déa Trancoso 

Fotos: Fernando Fiuza

Déa Trancoso cantando “Passarinho Pintadinho”

 

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Comments

1 comentário no texto "Entrevista com a cantora Déa Trancoso"

  1. geraldo gentil vieira on Tue, 29th Jun 2010 1:37 pm 

    Oi Déa!
    estou indo daqui a pouco a uma livraria comprar seu CD Tum Tum Tum de musicas dos cafundós que eu gosto; tb conheço o Jequitinhonha de tantas vezes que lá andei, e que me abriu os olhos ao ler há dias uma resenha na Ilustrada da FSP; então quero viajar de novo pelo vale montanhoso que cheira a alambiques de pingas e rapadura no tacho, farinha de mandioca ao fogo e as mulheres mexendo aquilo sem parar senão gruda, e as casinhas de duas águas vão passando e é assim lembrando que quero ouvir sua voz. geraldo g vieira, brasilia df.

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