Entrevista com a cantora Claudia Telles

July 17, 2007 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Entrevistas


01. Claudia, você conviveu no meio musical desde criança por causa de sua mãe, a cantora Sylvinha Telles. Imagino que todas as lembranças daquela época foram marcantes, mas tem alguma que marcou mais?

Sim, a que mais me marcou foi o último dia do show Reencontro, onde mamãe dividia o palco com Edu Lobo, teatro lotado, e eu, em cima dos meus 8 anos, cantei com eles Arrastão.

02. Sua paixão sempre foi a bossa nova. Qual é o encanto que a bossa tem?

Na verdade minha paixão é música boa, mas a Bossa Nova, pra mim, tem gostinho de colo! O encanto da Bossa Nova é a pureza das letras, a beleza de suas melodias e uma forma linda de cantar o meu Rio de Janeiro.

03. Infelizmente os críticos musicais não conseguem separar a carreira de cantores, que são filhos de cantores, da dos pais. Quando você chegou a ser considerada a mais perfeita intérprete de “Dindi”, uma das muitas músicas que havia feito de sua mãe uma celebridade, você sentiu que já começavam as comparações com Sylvinha?

As comparações começaram no início da carreira, até porque eu não vinha cantando nada parecido com o que ela fazia, e me cobravam muito. Aí estourei e mostrei que vinha cantando coisas coerentes com a minha idade, e mesmo na primeira regravação de Dindi que fiz, fiz com arranjos do meu tempo, assinados por Lincoln Olivetti. Hoje, algumas pessoas me pedem desculpas pelo tipo de comentário e dizem que mamãe “cantava lindo”, mas que canto melhor do que ela. Na verdade, tenho um potencial vocal maior que o dela, as pessoas confundem um pouco isso, qualidade e quantidade vocal, minha escola musical foi outra, mas, ela era única na sua forma de cantar, única.

04. Em 1976, a música “Fim de Tarde” fez a cabeça do público jovem. Por causa disso, você recebeu o primeiro disco de ouro da carreira, pois foram vendidas mais de 500 mil cópias do compacto simples. O sucesso veio cedo, mas veio no tempo certo, Claudia?

Eu acredito que tenha vindo no tempo certo, moro sozinha desde 17 anos, e se não fosse dessa maneira, não sei o que teria sido. Se acontecesse hoje, talvez eu estivesse rica! (rs) Naquela época não se ganhava dinheiro como ganha um artista estourado nos dias de hoje.

05. Você ficou um período sem gravar. Qual foi o motivo?

Mudou a gerência da minha gravadora na época, e a música que estava se fazendo era fútil demais pra minha cabeça, pedi rescisão do meu contrato. Gravar por gravar não era a minha e demorou até que eu conseguisse outra gravadora para gravar o que eu queria gravar.

06.Os discos “Solidão Pra Quê?” e “Por Causa de Você” (1997), um dos seus trabalhos que mais gosto, dando um toque pessoal à pergunta, foram dedicados à sua mãe. Esses trabalhos não foram as únicas homenagens que você prestou a Sylvinha. Por que as constantes homenagens?

Porque ela continua sendo meu prumo, porque ela dizia que quando eu crescesse iria ser cantora, me deu armas pra isso. No disco “Solidão pra quê”, metade das canções são composições minhas, embora desde o primeiro LP eu gravasse coisas minhas, ela também era compositora, e foi uma forma de mostrar pra ela tipo: “Mãe, eu aprendi, consegui, olha!”
Já o cd “Por causa de você” era um sonho antigo, sempre tive vontade de paralelamente à minha carreira pop/soul, fazer um trabalho relembrando seus sucessos, mas ninguém acreditou que eu “desse conta”. Demorou 21 anos de carreira para eu conseguir, mas quando consegui foi da forma mais linda!

07. Além de intérprete, você é compositora. Li em uma entrevista que você se inspira em lembranças, paisagens, momentos, saudades para compor. Há algo mais? Até que ponto suas influências estão presentes em suas composições?

Estão presentes em termos de melodia, sempre. Só não componho mais porque sou preguiçosa com o violão, a bem da verdade, tenho medo de tocar bem e acabar viajando sozinha pra fazer shows (rs)! Gosto de dividir o palco com o músico, trocar figurinhas durante o show e de ter as mãos e corpo livres. No mais, a inspiração vem quando tem que vir mesmo, ela tem vontade própria em mim.

08. O que você achou de sua participação no programa “Rei e Majestade”, no SBT? E qual é a importância desse tipo de programa para a música brasileira?

Eu adorei participar do programa, bom demais as pessoas saberem que a gente está viva e trabalhando. O carinho que recebi foi imenso. Esse tipo de programa é de suma importância, já que nas TVs, hoje em dia, os cantores antigos ou sem sucesso atual não tem mais espaço para mostrar seus novos trabalhos, e fica aquela velha história do ovo e da galinha, para aparecer na tv tem que ter um sucesso, para ter um sucesso, tem que aparecer na TV!

09. Em dezembro do ano passado, você e a cantora Marianna Leporace comemoraram em seus blogs a aprovação do projeto de lei Anti-Jabá pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Como “anda” esse projeto, Claudia?

O projeto de lei que criminaliza o jabá, de autoria do Deputado Fernando Ferro, tramitou rapidamente pela Câmara dos Deputados. Aprovado em todas as comissões temáticas, agora a iniciativa aguarda sua inclusão na pauta de votação pela presidência da casa. A criminalização do jabá é um marco importante na luta do Jabásta pela reconquista do espaço público de radiodifusão. O Jabásta é um movimento livre de cidadãos pela defesa do espaço público de radiodifusão. Sabemos perfeitamente que a aprovação de uma lei pelo Congresso não será suficiente para eliminar décadas de práticas ilegais no sistema brasileiro de radiodifusão. A dificuldade, que todos infelizmente conhecemos, de fazer cumprir as leis no Brasil não deve nos desanimar. Hoje quando se leva um cd em rádio, já somos direcionados diretamente ao departamento comercial, como se nossa música fosse um produto como pasta de dentes, supermercado, coisas assim. Virou uma inserção comercial como outro comercial qualquer, você paga tanto para ser executado tantas vezes no mês, e caso a música não agrade e não seja pedida, você perde o dinheiro e a música sai da programação.

10. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.

Um carinho imenso a todos os leitores, continuem prestigiando a boa música, isso só nos faz crescer. Obrigada pelo espaço e pela companhia de vocês.

PARA SABER MAIS:
Site Oficial Claudia Telles

Blog Oficial Claudia Telles

Fotos: Reprodução

Claudia Telles no Programa “Rei e Majestade”, no SBT
 

 

Quer ter a entrevista com a cantora Claudia Telles em seus arquivos? Clique aqui entrevista-claudia-telles (para abrir o arquivo .pdf precisa ter o programa Adobe Reader – Imprima se necessário, preserve o meio ambiente)

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