Entrevista com o ator Oscar Filho


01. Oscar, você faz parte do “Clube da Comédia Stand-up”, junto com o Marcelo Mansfield, Rafinha Bastos, Marcela Leal e Danilo Gentili, mas a sua história com o humor começou com o grupo “Os Cretinos”, que era formado por você, Luanna Chiareli, Alex Moreno e Carla Mercado. Por três anos você participou do grupo, que fazia shows bem humorados de variedades. Por que decidiu mudar para o “humor de cara limpa” (comédia stand-up)?

Minha formação é de ator, né? Então, como eu já fazia “Os Cretinos” há algum tempo, chegou uma hora que eu disse: “Tá bom, descobri como se faz isso”. E o stand-up casou muito. Nos “Cretinos”, que era uma coisa mais performática, eu não escrevia para mim, escrevia cenas para um grupo. Na época estava fazendo muito sucesso stand-up de personagem, daí eu falei: “Pô legal, vamos ver como é que é”. Foi um desafio muito forte, nunca tinha feito. Acho que foi mais ou menos por isso, mudar algo que já tinha entendido, para algo que não tinha a mínima idéia antes.

Você teve dificuldades com a mudança?

Acho que eu tenho até hoje. É um negócio meio complicado. Minha facilidade está mais para interpretar, me dá um texto que eu faço. Agora, escrever uma coisa… às vezes eu acho que vai rolar, porque estou escrevendo e sei o que posso fazer para ficar engraçado, mas a referência da pessoa que está assistindo não é exatamente a mesma que a minha. Tem essa coisa que eu não domino completamente, mas que está progredindo.

02. Seus textos se baseiam em erros de termos utilizados no cotidiano, como por exemplo o uso do termo “desculpa qualquer coisa” (“Se nem ele sabe o que ele fez, imagina eu. Desculpar o quê? Passei a noite inteira tentando descobrir o que ele fez”). A maioria dos atores escreve textos se “avacalhando”. E você ainda utiliza em suas apresentações movimentos corporais. Como é o seu processo de produção textual e como é a criação desses movimentos?

Eu sou observador pra caramba. Todo ator tem que ser. Essas coisas das palavras erradas ou dos dizeres errados sempre foram algo que eu presto atenção.

É fácil achar essas brechas nos termos do cotidiano?

Bastante, bastante. (rs) Tem muita gíria, né? Que nem “véi”. “Véi” para mim é um absurdo, porque antes era “meu”, três letras, depois transformou em “cara”, quatro letras, depois se somou com “velho”, que tem cinco letras, que depois virou “véi”. Os caras tiraram o “lh” e o “o”.

A maioria dos atores que escrevem textos para comédia stand-up fazem brincadeiras com eles mesmos, se “avacalham” e você não escreve coisas desse tipo.

Você falou dos movimentos que faço… acho que é o máximo de deboche que eu consigo fazer comigo. Fica ridículo! (rs) Tipo o negócio que eu faço, a dança na balada que falo que sou sensual pra caramba. Eu sei que é uma coisa ridícula que as pessoas vão rir, entendeu? Acaba sendo um deboche de mim mesmo.

03. O “Clube da Comédia” começou no ano de 2005 com uma formação diferente da atual. Os atores Márcio Ribeiro, Henrique Pantarotto e Diogo Portugal saíram do grupo. Você acha que essas modificações atrapalham o andamento do show? Ou vocês tratam isso como uma renovação?

Não atrapalham, não, pois eles somaram muito, cada um de sua maneira. O Clube existe hoje por causa do Henrique, do Márcio e do Diogo. É bom por um lado e ruim pelo outro, entendeu? É ruim porque saíram e eles são talentosos demais, mas é bom porque é uma renovação. Uma coisa que costumo falar é assim: é legal quando você assiste alguma coisa e você vê que a pessoa está viva. Com as renovações o show fica vivo, porque tem que ficar vivo. Se você engessa uma coisa… se a formação fosse a mesma desde 2005, talvez não fosse a mesma coisa que é hoje. Não dá para saber. Por exemplo: “Puts, o Diogo saiu, era um cara forte pra caramba, principalmente agora que ele está na mídia e tudo mais… mas vamos lá, todo mundo tem um talento, vamos resolver isso aí”.

04. A Revista Época, do dia 14 de maio de 2007, trouxe uma matéria sobre os grupos e comediantes que fazem comédia stand-up no Brasil. Dos grupos que fazem esse tipo de comédia no país, foram citados na matéria o Clube, o Comédia Ao Vivo, encabeçado pelo ator Márcio Ribeiro e o Comédia em Pé, do Rio de Janeiro. Começou uma certa exposição de vocês na mídia. Você acha isso prejudicial?

Não, não, tem ajudado muito inclusive. O “youtube” (www.youtube.com) não é necessariamente uma mídia, mas é uma coisa que… quem mora em São Paulo, que beleza! Vem aqui e assiste ao vivo. Agora quem está no Amazonas vê pelo “youtube” e gosta tanto quanto. Isso é muito legal! Esse lance da revista Época foi uma coisa exatamente falando do movimento stand-up aqui no Brasil, que está estourando, que está indo muito bem, assim. Tem a gente aqui, o pessoal do Rio, o Diogo (Portugal) lá em Curitiba. Então isso é bom, porque mantém o pessoal em alerta. Tem o stand-up, ele está crescendo e “vamô” embora.

Como eu já tinha citado, além do Clube, existem outros grupos de comédia stand-up no Brasil. Há algum tipo de competição entre vocês?

Eu não vejo isso. Acho isso ótimo. Por exemplo: semana passada eu estava no Rio. É ótimo ir lá, apresentar, as pessoas ficam me conhecendo, eles vêm aqui, eles ficam conhecidos. Fui para Curitiba, fui a Recife há duas semanas. Tem que ter isso, entendeu? Stand-up é muito assim: a gente está num clube, mas também é algo individual. Eu posso ir ao Sul do país, que eu vou estar representando o Clube, as pessoas vão conhecer. Tem que ser por aí.

05. Você já deve ter respondido sobre isso várias vezes, mas não eu podia deixar de perguntar sobre sua imitação do “gato no cio”, que é bem famosa. Como ela surgiu, Oscar?

(rs) Eu sou do interior e morava em uma casa que do lado esquerdo e direito tinham terrenos e atrás tinha uma chácara. Era só mato. E muitas vezes eu não conseguia dormir, por causa do inferno de um gato no cio que não parava nunca. Daí eu e meu pai tentávamos de tudo para fazer esse gato parar. Era um inferno! Não sei o que eles têm… os gatos mantêm, sei lá, um orgasmo que é infinito (rs). A gente fala: “pára aí, gato”, ele pára, 5 minutos depois, ele recomeça. Você mora no interior também, você deve saber o que é isso.

Oscar é de Atibaia, interior do Estado de São Paulo

Essa imitação surgiu no Clube ou na época dos Cretinos?

Na época dos Cretinos. Um dia a gente estava apresentando e o Alex (Moreno) precisava de um tempo para trocar de roupa e não tinha nada para fazer. Só eu estava de bobeira. Daí nós precisávamos de uma cena. Tinha uma roupa de gato que usávamos para dançar “Total Eclipse Of The Heart” (rs), que era ridícula: um rabo de pelúcia, uma tiarinha com orelhas. Daí eu entrei em cena, pensei em fazer o cotidiano do gato na hora. Bebi leite igual a eles, lambendo com a língua e no final foi isso. Como seria um final para um gato? Foi aí que criei a imitação. Arrebentou, assim. Muito legal. Surgiu de uma improvisação, que é uma coisa que acontece comigo muito. Às vezes você está no palco falando de um assunto, aí abri uma liberdade e você começa inventar umas coisas na hora. Não eram piadas, que acabaram virando.

06. Você participou do programa “Vida Loca Show”, do canal Multishow, que tem como apresentador Fernando Muylaert. Foi sua primeira participação em um programa de TV. O que achou da experiência?

Gostei muito, porque o Fernando é um louco, né? (rs) Tem uma liberdade para criar por ele ser assim, daí eu fui lá e fiz também. Decorei o texto meio que na hora e fiz…

Então teve uma liberdade. Há diretores e produtores que não dão essa liberdade ao ator ou apresentador na hora da gravação, né?

Lá no caso não. Eles falaram: “Oscar, o que você quiser fazer, você faz”, é uma delícia. Ali eu me senti muito livre.
Eu também participei do “Mothern” (seriado do canal GNT), que vai passar daqui duas semanas não sei. Daí lá foi um pouco mais restrito, porque era um personagem mesmo e no “Vida Louca” era uma coisa mais louca. Ninguém sabe da onde surgiu aquele contador, era um contador, ninguém sabe, beleza e tchau. Agora no seriado eu fiz um animador de festa que era maníaco, meio psicopata. Tinha que seguir um pouco mais a risca. Eu gosto também, porque dentro da regra você pode quebrá-la um pouco. Eu adoro.

07. Você já trabalhou em peças não cômicas, como “A Matéria dos Sonhos”, de Fábio Torres, no qual foi indicado pelo Prêmio Coca-Cola FEMSA de Teatro, como melhor ator, em 2004. Nesta época já pensava em levar sua carreira para a comédia?

Foi uma coisa que aconteceu, descobri no colégio que eu fazia algumas pessoas rirem. Quando eu nasci ao invés de chorar, eu sorri. (rs) Tô zoando! Tem uma história engraçada. Uma vez eu estava lendo a biografia do JimCarrey… não uma biografia, era um pedaço da história da vida dele e que aconteceu exatamente a mesma coisa comigo. Ele era tão louco para fazer as pessoas rirem, que um dia o professor falou para ele: “pára um pouco, se você parar, eu te dou meia hora no final da aula para você fazer todo mundo rir”. Isso aconteceu uma vez comigo. Eu fui fazendo outras coisas, mas você vai caindo para comédia.
Por exemplo: o Alex (Moreno) é um amigo meu de infância e a gente já fazia umas palhaçadas juntos. Quando a gente veio a São Paulo para se formar como ator e tudo mais… “vamos fazer uma brincadeirinha?”, “vamos”. Na brincadeirinha tinha 120 pessoas no primeiro dia, depois lotou de novo e foi indo. Daí durou três anos com os Cretinos e agora estou com o Clube, mas eu tenho vontade de fazer as outras coisas também.
“A Matéria dos Sonhos” foi um infantil, muito interessante inclusive. Era uma peça que falava de morte. Você não vê ou é muito difícil ver algo desse tipo em peças para crianças. Morte e criança não combinam, é o que dizem. Vamos falar que ela é tipo um Highlander, que ela vai viver para sempre.
A história era sobre dois primos que perderam a avó e que eles desciam até o sótão para relembrar as coisas que eles faziam quando eles eram mais crianças ainda. Era demais! Foi indicado para cinco prêmios e ficou em cartaz dois anos e meio.

08. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.

Eu quero que vocês acessem mais o site. Tem entrevistas muito legais aqui. Li a do Márcio Ribeiro, li a da Calabresa, muito bacana. Alias você entrevista muito bem.

Obrigada!

E a partir de lá vocês venham assistir o Clube da Comédia. Daí quando vocês assistirem o Clube, vocês voltam a acessar o site. Daí quando vocês acessarem o site, vocês voltam a assistir o Clube. E fiquem nisso infinitamente. (rs)

Fotos: Reprodução, Mari Valadares e Gustavo Perin

Veja algumas fotos do show do dia 20 de maio, no Bleecker Street, em São Paulo (Para ver as fotos, clique em cima da imagem abaixo)

Clube da Comédia

Quer ter a entrevista com o ator Oscar Filho em seus arquivos? Clique aqui Entrevista com Oscar Filho (para abrir o arquivo .pdf precisa ter o programa Adobe Reader – Imprima se necessário, preserve o meio ambiente)

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