Entrevista com Roberto Sadovski, diretor, editor e crítico da revista SET
January 28, 2007 by Mari Valadares
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01. Roberto, você é diretor, editor e crítico da revista especializada em cinema, “SET”. Como são feitas suas críticas? Vai muito do gosto pessoal?
Uma crítica nunca será uma opinião imparcial, ela equilibra a habilidade e o repertório de quem a escreve. Do mesmo modo não existe fórmula para analisar um filme. Ou seja, não há um denominador comum. É “gosto pessoal”, sim, misturado com dezenas de outras coisas. Filme não é ciência exata. E nem crítica cinematográfica.
02. Vamos falar de cinema brasileiro. Em 1997, nosso cinema completou 100 anos. Qual a sua opinião sobre o cinema brasileiro depois de 10 anos do seu centenáro?
Caminhando mais firme e abrindo portas importantes, como a participação de majors na produção de filmes brasileiros. O mais importante, entretanto, é uma mudança de geração, da mentalidade de quem faz cinema, agora mais jovem, mais pop e menos presa a certos vícios.
03. Os filmes nacionais, na sua maioria, mostram cenas de violência, miséria, pobreza do nosso país. Você considera isso negativo para o Brasil?
Negativo para o Brasil é perder a Copa! Violência, miséria e pobreza existe na cinematografia de dezenas de países. Os cineastas brasileiros ainda imprimem o que nós somos em seu trabalho. O que não é ruim, só carece de equilíbrio. Nem tudo precisa ser documental.
04. Há uma alternativa para aumentar a bilheteria de filmes brasileiros sem que eles precisem ser essencialmente comerciais?
Todo filme é “essencialmente comercial”. Filme é um brinquedo caro, não pode ser feito sem planejamento e – o mais importante – sem a mínima preocupação não só de retorno financeiro, mas também a preocupacão de que ele encontre seu público. Não existe “alternativa”, existe filmes bons ou ruins, seja de que gênero eles sejam.
05. O filme “Turistas”, dirigido por John Stockwell, mostra um grupo de turistas norte-americanos que caem no golpe do “Boa Noite Cinderela” e são roubados e torturados, em viagem ao Rio de Janeiro. O filme criou polêmica e houve várias tentativas de calotes via internet. Você não acha que essa polêmica não gerou uma propaganda maior para “Turistas”, ao invés de prejudicar sua bilheteria no Brasil?
Acho que só os brasileiros vão se divertir com Turistas, que não traz absolutamente nada de desabonador para o Brasil. É só um filme de terror, e dos ruins. Na verdade, ele escorrega numa “denúncia social” furada. Mas tem sangue, quem é fã do gênero tem de assistir! Já a “polêmica’ vem de gente que usa o ufanismo exagerado pra fazer muito barulho por nada. O distribuidor deve estar adorando, já que ganhou mídia pro filme.
06. No jornal Folha de S. Paulo, do dia 19 de janeiro, o crítico Cássio Starling Carlos afirma que o “cult” muitas vezes não passa de “trash” (lixo) disfarçado, falando sobre o filme “12 Horas até o Amanhecer”, filmado no Brasil e dirigido pelo norte-americano Eric Season, que estreou direto nas locadoras. Você concorda com o crítico?
Nenhum filme nasce cult, ele torna-se cult. Eu não vi o filme, não posso concordar ou discordar de sua opinião num nível básico. Mas às vezes eu prefiro a companhia de um trash divertido do que a de um cult entojado.
07. No último dia 15, foram conhecidos os premiados pelo Globo de Ouro. Teve alguma surpresa, Roberto? Ou já era esperado que Babel ganhasse como melhor filme?
Infelizmente não teve surpresas. Na verdade, foi a festa do Globo de Ouro mais previsível e enfadonha dos últimos
tempos! Babel é um filme ok, mas sua premiação mostra que muita gente não assistiu e preferiu seguir a opinião dos amigos.
08. O Globo de Ouro é uma prévia para o Oscar? Ou a escolha de uma premiação não interfere na outra?
Toda premiação interfere na outra, principalmente nessa época do ano. Isso vale também para a preguiça de muitos votantes, que não assistem aos filmes e seguem a maioria. Só isso pra explicar a ausência de Filhos da Esperança da maioria das escolhas do ano.
09. No editorial da “SET”, do mês de janeiro (2007), você escreve sobre o site “You Tube” (http://www.youtube.com). Você afirma que grandes estúdios estão caprichando para que a ida ao cinema seja um espetáculo, para que esse tipo de site não consiga diminuir o público nos cinemas. O You Tube e outros sites de vídeos são realmente uma grande ameaça para os estúdios cinematográficos? Ou há um pouco de exagero nessa história?
Não é exagero acreditar no poder de outras mídias, mas é exagero achar que alguém prefira assistir a “filmes” no YouTube – a imagem ainda é muito ruim! Mas o YouTube aponta para o futuro, e é bom os exibidores correrem atrás das novidades.
Ainda assim, não acredito que quem goste realmente de cinema abra mão de assistir a um filme na tela grande.
10. Foi aprovado em primeira instância pela Câmara Municipal de Belo Horizonte – MG o Estatuto do Cinéfilo, criado pelo vereador Délio Malheiros (PV). O estatuto propõe a obrigatoriedade de exibição do filme anunciado independentemente do número de espectadores, a proibição de mudança na programação antes de 24 horas, o confisco de aparelhos celulares na entrada das salas, entre outros benefícios. Isso é um passo importante para acabar com a falta de respeito dentro dos cinemas?
Infelizmente, no mundo inteiro existem pessoas bem educadas e pessoas mal educadas. Se for preciso uma lei para impedir celulares, por exemplo, então que seja.
11. Para finalizar, dê uma dica de filme para os freqüentadores do site Poucas e Boas da Mari.
O melhor filme que vi em 2006 foi O Labirinto do Fauno, a fantasia de Guillermo Del Toro. É um bom exemplo de cinema pensado como cinema, original, criativo e vigoroso. Uma beleza!
Fotos: Divulgação
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