Entrevista com o diretor de teatro e TV Roberto Vignati

November 13, 2006 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Entrevistas


01. Vignati, em 45 anos de carreira como ator, autor, diretor e iluminador, você ainda encontra tempo para realizar projetos voltados para a democratização do teatro, trabalhando com grupos amadores, fora do eixo Rio – São Paulo. Isso é um modo de manter viva a história do teatro em um país que o maior meio de informação cultural é a televisão?

Uma pergunta muito boa essa a sua, porque a maioria dos diretores não tem essa trajetória de carreira. Eu vivo espantando as pessoas nesse sentido. Um cara como eu, que nasci na carreira artística nos anos 60, cheguei ao auge do sucesso no início até o final da década de 80, de repente abandona o glamour global depois de 10 anos trabalhando na Rede Globo e começa a se dedicar fora do eixo Rio – São Paulo.
Eu saio, vou fazer espetáculos na Paraíba, Porto Alegre, Curitiba, cidades do interior de São Paulo, pois realmente preciso incutir na cabeça dos jovens uma outra visão do universo artístico, que não essa visão televisiva que impera. Parece que virou um vírus, contamina todo mundo e as pessoas têm um comportamento perante a arte, como se a arte de interpretar fosse a da televisão; transformando, jogando para o teatro, fazendo espetáculos, o que fazem na televisão. E na minha forma de ver, enganando despudoramente a platéia.
Preocupado com isso… eu sempre fui meio rebelde nesse sentido, sempre estava no eixo, trabalhava na Globo e fazia espetáculos com jovens em início de carreira nos anos 80, tipo o “Bella Ciao” que eu fiz, né? Depois de fazer um enorme sucesso com “Bent”, uma produção altamente profissional, uma das produções mais caras que o país tinha feito*, ocupando da noite para o dia as páginas dos jornais do Brasil inteiro como maior diretor, por causa daquilo que acontecia com a peça, de transformar os atores como figuras nacionalmente conhecidas com o teatro e não com a televisão. Vem o espetáculo seguinte, escolho um grupo que não tinha nome, que ninguém conhecia para fazer “Bella Ciao”, deixando de lado oito convites de cias profissionais.
Essa necessidade de fazer o público e o ator jovem descobrir o teatro como elemento de transformação e não um elemento de digestão fácil é que me leva a trabalhar com eles sempre. E o meu teatro, além de ser o teatro que procura essa transformação, inerente à ele vem uma formação cultural, uma formação humana. A preocupação muitas vezes é fazer o ator entender o universo de vida, o processo em que ele está inserido para se transformar como ser humano. Transformando em ser humano é que ele vai transformar a sociedade; transformando a sociedade ele está transformando o universo de vida das pessoas.
Alguns assistem os ensaios e dizem: “Nossa, você fica contando histórias”. Teve um ator que me falou uma vez: “Você é um ótimo diretor, mas você é um grande contador de histórias”. É que as histórias são inerentes à grande direção, preparando o terreno para o ator explodir naquilo que eu quero.
Alguns dizem assim: “Você podia ficar lá no teu sítio, você já trabalhou tanto” ou “Vai fazer algo na televisão”. Não quero fazer.

É o amor pela profissão, né?

É um amor por essa coisa. Outro dia, uma aluna minha disse: “Às vezes, estou cansada, o meu filho me atrapalha, não queria vir à aula, mas na sua eu não falto, porque o amor que vejo em você quando está fazendo as coisas é tão imenso, que me causa essa necessidade de ter esse mesmo amor para transformar minha própria vida, para a minha vida ter um sentido.” E é isso que me faz não abandonar tudo de repente, né? E vejo que a cena está difícil, que o ator não está conseguindo, parece que não vai acontecer nunca, aí o produtor chega pra mim e fala se não é melhor trocar o ator, se não foi uma escolha errada e eu falo que não foi e que o ator vai fazer. E a pessoa acaba fazendo.

Na época foram gastos 4 milhões para produzir a peça.

02. Em 2005, você foi convidado para fazer uma oficina de interpretação na cidade de Cordeirópolis, próxima a Limeira – SP. Desta oficina nasceu o grupo Pingo D`Água, formado por jovens de Cordeiro. Conte como foi a luta para a formação desse grupo, em uma cidade que não tem nenhuma raiz teatral.

Isso foi uma coisa estranha desde o início. Um aluno, negro por sinal… para deixar tudo bem claro … um rapaz homossexual, que arruma o cabelo da Vilma… eles começaram a conversar: “Tem uma cidade onde o jovem não tem nada, eu gostaria de fazer alguma coisa com teatro, encontrar alguém que colaborasse com isso” e ela respondeu: “Eu sei quem pode ajudar, é o meu professor de arte dramática, ele pode te ajudar, tenho certeza que é o cara que vai servir para isso que você quer.” Ela pediu para ele se comunicar, ele pediu que eu ligasse para ela, liguei e fui conversar com ela lá no Conjunto Nacional e de cara já disse: “É uma cidade que não tem teatro, que não tem nada de lazer, o jovem está completamente perdido, ou sai dali para ir para outro lugar, ou não sai, ou vai para as drogas, então é isso que quero fazer, que eu vou gostar de trabalhar.” Fui para essa oficina, dei as coordenadas para que acontecesse, mas imediatamente senti que a cidade tinha um problema de ciúmes, de posições, essas coisas mesquinhas de cidade pequena. Na organização da coisa eu já senti isso. Aí começamos a brincar de nos conhecer, a fazer exercícios de voz, de corpo, lê isto, estude isto, fale isto, enfim… A oficina foi se desenvolvendo, senti de cara o entusiasmo, porque aquilo abriu as comportas de um universo fechado que eles viviam. Quando terminou a oficina estava tudo preparado para acontecer alguma coisa cultural na cidade e eles não tinham força para levar isso à frente. As dificuldades eram muito grandes… Fui amarrando de certa forma para que a coisa explodisse… Eles exigiram da Coordenadoria de Cultura e Educação e fecharam o cerco para que continuasse e formasse um grupo de teatro. Era a grande chance da cidade de expressar através desses jovens alguma coisa nova, prestar algum serviço à população. Foi difícil, um ano bastante complicado para todos. Foi tudo ao mesmo tempo: eles se formando, eles se despertando para o mundo, para a parte artística e ao mesmo tempo tendo que fazer um trabalho em uma cidade que praticamente é uma “cidade morta” de Monteiro Lobato. Se você pegar o livro “As Cidades Mortas”, Cordeirópolis está inserida no contexto totalmente. Então, tinha que despertar e enfrentar essa tourada, a gente sabia que não seria fácil, não foi até o último momento e não está sendo fácil agora. Apesar de todo sucesso que se fez, ainda não é um grupo sedimentado. Não pense que já podemos deitar sobre os louros que já conquistamos, parece que a gente não conquistou nada. Você trabalha com políticos e políticos não têm a paixão do artista, a paixão que nós temos pela arte. Eles têm aquela coisa de receber os louros depois que tudo está pronto e dizer: “Fui eu…”. mas não passam o cotidiano com a gente, não sabem das dificuldades e também não ajudam em nada para que as dificuldades sejam menores.
O grupo se formou através da figura de João Pacífico, apaixonados pela figura de João Pacifico e pela figura do teatro representada por mim, que provoca paixões e que provoca ódio ao mesmo tempo. Aí veio o Festival de Limeira, que também consagra um pouco o trabalho dando os prêmios. A gente fica se perguntando muitas vezes se isso é bom ou ruim, porque é uma faca de dois gumes num primeiro trabalho; pode dar uma segurança que o grupo ainda não tem. É complicado. E nasceu com essa grande dificuldade, de criar um espaço cultural e provocar a construção de um teatro. Não tínhamos espaço para fazer a peça. Conquistamos um espaço e ninguém acreditava que isso fosse acontecer. Chegou um momento que estava tudo certo e virou tudo ao contrário, não ia ser mais lá, ia ser em Limeira a estréia da peça ou em Rio Claro. Quer dizer, a gente faz um trabalho em uma cidade e vai apresentar em outra? Não tinha sentido. Eu bati o pé, disse que tínhamos que criar um espaço na cidade. Aí com a ajuda do prefeito, que teve boa vontade nesse sentido em relação à subestação( antiga subestação de energia elétrica da Rede Ferroviária). A documentação do local até hoje não está oficializada na mão da Prefeitura, só a partir do ano que vem começa a ter essa validade oficialmente comprovada.
Tudo é burocracia, e a gente está fora desse contexto porque somos artistas, mas não sabemos até onde vai os limites disso. De repente uma pessoa pode brecar todo um processo e parar tudo. Então você tem que ter a paixão das pessoas que passam por cima disso, se não tivéssemos tido essa boa vontade, não teríamos estreado no teatro.
Agora, eu acho que a grande e maior responsabilidade é a que vem pela frente; a partir do segundo espetáculo, que é a de provar que é um grupo que tem uma consistência, que vão se transformar em atores, que vão fazer a parte cultural da cidade. O teatro tem uma coisa muito interessante, do nada você pode fazer uma coisa extraordinária, até sem consciência . Quando você coloca consciência, aí fica complicado, pois você tem a obrigação de fazer certo.

Vilma Peramezza é gerente geral do Conjunto Nacional em São Paulo. Ela é cordeiropolense.

03. Você dirigiu e escreveu “João Pacífico – O Poeta do Sertão” para o grupo Pingo D`Água. A montagem conta um pouco da vida e da obra do compositor e cantor caipira João Batista da Silva, o João Pacífico. Como surgiu a idéia de montar essa história?

Quando a gente resolveu continuar para formar um grupo, organizar a parte cultural da cidade em relação ao teatro, nós precisávamos fazer um espetáculo e pegar uma peça que servisse para 18 atores; no início eram 20.
No começo, até por saber as dificuldades que o grupo tinha, pensei comigo assim: preciso fazer alguma coisa que esteja pronta como dramaturgia. Como eu tenho muita coisa pronta e coisas que foram feitas só com escolas e não foram profissionalmente realizadas, pensei em fazer algo pronto. Aí, eu disse que tinha que ser alguma coisa ligada a cidade. Toda vez que saio de São Paulo e vou fazer um espetáculo, a primeira preocupação é o contexto em que a população vive, os problemas que aquela cidade têm para serem colocadas no espetáculo, para que a população descubra através do teatro que existem esses problemas e que deve ser feito alguma coisa para modificar a realidade.
Um dia, a mãe da Vilma (Vilma Peramezza) falou uma coisa durante um almoço; disse que tinha pessoas importantes que viveram e nasceram em Cordeirópolis. Falou do irmão, que trabalha na Globo, o jornalista Léo Batista, falou de outras pessoas e de repente no meio dessa conversa, ela falou do João Pacífico, que tinha nascido na cidade. Daí, eu disse para vasculharmos o que foi a vida dele. A Vilma saiu para um lado depois do almoço e alguém me levou para a biblioteca. Cheguei lá, peguei quatro coisas que tinha sobre o João e tirei cópia. Quando eu acabava de tirar as cópias, a Vilma chega de outro lugar com um livro de poemas do João Pacifico. Agora, precisava pegar o elenco, colocar prá trabalhar , pesquisar na internet. Eu ia chegar em São Paulo e fazer um monte de pesquisa também e achava que a história de João Pacífico merecia esse resgate. E começamos a trabalhar a partir daí.
Eu tinha que começar o trabalho na prática imediatamente com relação ao texto. Então, a primeira parte da peça não era o início. A primeira parte do trabalho vem quase lá da metade da peça, que foi a parte dos poemas e depois fui voltando. Durante quatro meses, fui escrevendo a peça através das pesquisas. Eles trouxeram várias coisas que conseguiram, eu já tinha feito uma pesquisa muito grande em São Paulo também e peça foi sendo escrita. Terminei de escrever em dezembro de 2005, para estrear em 2006.
Nasceu assim, de uma conversa com a mãe da Vilma durante o almoço. Não sabíamos o que nós íamos fazer e graças a Deus foi uma peça inserida dentro do contexto e que a gente podia brincar com a cidade… Eu comecei a fazer uma brincadeira: entrava no restaurante onde eu almoçava e perguntava para as pessoas se elas conheciam João Pacífico e foi assim que eu comecei a constatar que as pessoas não sabiam quem ele era e muito menos que tinha nascido na cidade. Isso prá mim foi um escândalo e foi o que realmente me motivou a escrever a peça . Nasceu dessa indignação.

04. O cronista Jaime Leitão, em sua crônica “A Revolução de Vignati”, para o Jornal Cidade, de Rio Claro – SP, do dia 11 de julho de 2006, fala sobre a peça “João Pacífico – O Poeta do Sertão”. Em uma parte do texto, ele comenta que a peça esteve cheia durante as três semanas de apresentação, inclusive no último dia da novela Belíssima, da Rede Globo. Você acha que isso é uma vitória do teatro amador sobre o monopólio da televisão?

Eu acho que foi uma grande vitória prá gente. É uma conjunção de fatores : uma cidade pequena onde você pode trabalhar melhor, despertou e concentrou de repente um grande interesse na inauguração do espaço, que virou o teatro, várias pessoas perceberam que havia uma força muito grande que unia todo o processo, todo o elenco e que fez com que a coisa acontecesse. Tinha muita gente que dizia que não ia dar certo, mesmo as pessoas que estavam patrocinando. Muitas vezes eu olhava para as próprias pessoas que estavam comandando e dizia assim: “parece que está trabalhando contra, parece que não vai acontecer”. Não por má intenção da pessoa, mas isso é uma coisa arraigada na cidade, você lança um projeto e depois destrói. Comigo isso não podia acontecer nunca, porque na minha vida teve o fato da perda da voz. Perdi a voz aos 13 anos de idade e demorei 17 anos para conquistá-la novamente e eu tenho essa força, esse lado por causa da perda da voz. Não conheço ninguém que faz arte nesse país que teve esse processo de vida que eu tive. Então, o meu digital é completamente diferente deles. Então é essa força que vai arrastando, que vai abrindo, que vai empurrando, né? Isso é meu e eu sei que é isso que vence todas as dificuldades.

05. Você falou que perdeu a voz aos 13 e só foi recuperá-la 17 anos depois. Neste período teve que parar de atuar, mas nunca abandonou a profissão de diretor, leu 8 mil livros e aprendeu quatro idiomas. Como você fazia para dirigir os atores nesta época?

Bom, eu tinha que arrumar um mecanismo, uma técnica que tinha de ser minha, que acabou resultando no digital do que eu sou como diretor. Passou um filme agora na Mostra de Cinema de São Paulo, “Juventude em Marcha”, que a personagem era muda e surda. Eu sofri muito durante o filme, porque a menina era exatamente o que eu fazia, ela de repente queria falar e puxava um caderninho e começava a escrever. Parecia que alguém tinha vasculhado a minha vida para fazer aquele filme. Isso me deixou em um estado emocional violento, foi muito forte. Era o meu universo sendo projetado num filme e não por mim. Parece que a pessoa descobriu meu universo e desvendou no filme. Eu usava uma cardeneta pendurada, com uma caneta e rasgava. Não sei quantas cardenetas eu gastei, cada folha escrevia e passava. Tinham que esperar. E no processo de direção eu tinha uma madeira, eu usava um pedaço de sarrafo, que eu batia. Era combinado: duas batidas era para um, três batidas era para outro. Quando eu começava a bater, todo mundo ficava de prontidão para saber quantas batidas iam ser dadas ou então, eu batia e apontava para pessoa para economizar o tempo. Era muito angustiante. Outra coisa que se desenvolveu profundamente em mim foram os olhos. Tinha coisa que eu só olhava e o ator entendia.
Trabalhei muito nesse sentido, trabalhei isolado, pois não podia me comunicar. Fui um cara que de 13 a 30 anos, tive mais tempo dentro de um quarto do que fora dele.

Você criou um mundo particular.

Eu criei um mundo particular. Um mundo meu, um mundo de visão muito especifico. Eu perdi quase um ano do ginásio por causa de falta. Como eu era uma pessoa isolada, o professor nem dava conta. Tanto é que hoje, se eu quiser que uma pessoa não me encontre na rua, passo por ela e ela não me vê. Eu desenvolvi uma técnica maluca, técnica de invisibilidade. Você pode achar que isso é coisa de espiritismo, alguma coisa louca aí… Só esse isolamento que me permitiu isso. Provavelmente se eu não tivesse tido esse problema, eu não seria nada do que eu sou, seria outra pessoa.

06. Seu nome está ligado a grandes sucessos teatrais e você leva ao teatro temas fortes, que contêm conflitos sociais e psicológicos. Um exemplo disso é Bent, de Martin Sherman, que arrematou 12 prêmios em 1981. A peça é sobre a perseguição a homossexuais na Alemanha durante a ascensão do nazismo. Outro sucesso foi a montagem de Bella Ciao, de Luiz Alberto de Abreu, que conta vida de uma família de anarquistas italianos, suas lutas políticas e o passado histórico brasileiro. Esse espetáculo recebeu 18 prêmios e é o único espetáculo brasileiro até hoje a ganhar da crítica especializada o prêmio de melhor ator do ano, para todos os atores do elenco. Esses temas são atemporais ou já não causam o mesmo impacto daquela época?

Diluiu um pouco essa coisa de você querer discutir a realidade em um momento que o ser humano foge dessa realidade. O próprio país trabalhou nesse sentido. Mas acho que eles são ainda temas contundentes. Dependendo de como você trata, como você coloca no palco, eles atingem ainda. Você vê a Mostra de Cinema desse ano, por exemplo. Nós tivemos 80% dos filmes tratando de uma realidade de coisas contundentes, políticas sociais e o público estava todo lá e quando a coisa era boa, bem feita e bem colocada, como o filme mexicano “O Violino”, que trata de uma colocação política, ditatorial, o pessoal vibrava. Você tem os problemas humanos e por mais que modifique a realidade, eles estão lá. Os problemas humanos são os mesmos, eles se repetem, são atemporais.
Outro exemplo… Chaplin. Por que ele vai ser eterno? Porque ele trata do ser humano, das coisas sociais, políticas e o ser humano em sua dimensão máxima está ali na obra dele e isso é atemporal , as necessidades, os sentimentos são sempre os mesmos. Muda a forma, muda um pouco a cor, mas a essência é a mesma e o meu teatro sempre buscou a essência através do ser humano. Sempre a essência do ser humano massacrado, oprimido, humilhado. Não sei se é porque pertenci a uma família humilde, mas todo o processo de humilhação da família, da necessidade de se estabelecer, pobreza na infância toda… eu sempre fui mais humilhado e ofendido do que qualquer outra coisa. Então o meu teatro sempre trabalhou com textos do humilhado, do ofendido, do massacrado, da ditadura, mesmo as comédias que eu dirigi. Não vou fazer uma comédia que não tenha conteúdo, que não tenha nada para dizer, que seja uma coisa que você faz para ganhar dinheiro…

Agora, orgulho de “Bella Ciao” ser a única peça até hoje a ganhar da crítica especializada o prêmio de melhor ator do ano, para todos os atores do elenco, passado 24 anos e nenhum outro espetáculo tenha recebido… Por exemplo: quando Almodóvar recebeu por Volver (2006) o prêmio para todas as atrizes… Pô, somos dois, né? (rs) E Almodóvar é mais conhecido que eu, ele é universal. Ele ganhou com as atrizes e eu ganhei com o elenco inteiro, os homens e as mulheres. É uma coisa que não se apaga, jamais. E com um elenco desconhecido, não tinha ninguém de nome.

07. Mas não é só de sucessos teatrais que é formada sua carreira. Você dirigiu programas na TV, que marcaram história, como a novela Pai Herói (1979) e o infantil Sítio do Pica Pau Amarelo, na Rede Globo e o seriado infanto-juvenil Mundo da Lua (1991), da TV Cultura. Existe a possibilidade da programação da TV voltar a ser como era?

Voltar a ser como era não. Toda essa tecnologia está sendo cada vez mais explorada. Por exemplo, a Sônia Braga fez uma plástica, mas ela pessoalmente não é como ela está aparecendo na TV, é o computador que está corrigindo tudo. Quase todas as atrizes, depois que o capítulo está montado, passa pelo computador e resolve um monte de problemas. Mais ou menos assim: você tinha cantores como Caubi, Ângela Maria, Orlando Silva, os grandes cantores, que tiveram grandes vozes, né? Eles não precisavam de nada para cantar. Hoje, você pega uma pessoa que não tem voz e transforma em um cantor, usando a tecnologia. Então, essa parte vai ser muito difícil voltar, a ser o que era.
Quando morreu o ator Raul Cortez, a TV Cultura reexibiu o episódio que eu tinha feito no Teatro II com ele, uma peça da Consuelo de Castro e fiquei em casa para rever, porque eu não gostei na época, foi o que menos gostei dos 13 teleteatros que eu fiz lá. “O Último Capítulo” tinha uma coisa política que me interessava, mas como resultado, eu não tive entusiasmo. Aí fiquei em casa para ver como que era depois de 30 anos e comecei a assistir pra não gostar. De repente, cinco minutos depois que tinha começado, eu falei: “Como é bom isso! Olha só que qualidade tinha essa coisa.”. Aquilo era o que nós discutíamos no processo revolucionário e hoje não se discute mais nada da realidade brasileira. Então, quando terminou o episódio, confesso que estava extremamente emocionado e querendo conversar com as pessoas. Aí a Consuelo: “Nossa Vignati! Que maravilha que era! E a gente não se dava conta de como aquilo era maravilhoso.” Que coisa! Que ousadia nós tínhamos de fazer sem recursos, atores trabalhando por um cachê simbólico, pura e simplesmente para desenvolver o processo cultural em uma emissora que era cultural, hoje não é mais, e o resultado que a gente conseguia. Quantas vezes eu fiz coisa sem nenhum recurso na televisão que passa a magia que não se consegue com toda a tecnologia atual. Aquela beleza, aquela pureza, aquela paixão que se fazia televisão você vê muito raramente. E quando você vê, como “Hoje é Dia de Maria”, tem lá uma busca de qualidade, mas uma tecnologia a serviço que a gente não tinha nada e conseguia resultados maravilhosos.

08. Você está dirigindo mais uma peça para o pessoal do Pingo D`Água. Pode adiantar alguma informação?

É uma coisa em cima da obra do Drummond. Não tem a pretensão de mostrar a vida de Carlos Drummond de Andrade. É sobre obra e os fatos da vida dele: as crônicas de futebol que ele escrevia para os jornais, a obra poética e fatos corriqueiros do cotidiano… Também tratar de uma pessoa que foi a musa desse grande poeta, com quem ele conviveu 36 anos e a família renega. Foi quem o motivou escrever uma grande parte da obra final. Todos os poemas eróticos ele escreveu para ela, tem muita coisa que está guardada com ela.
Então, é um espetáculo que tem uma linguagem completamente diferente do primeiro. Eu acho que é esse exercício que é importante para eles. É uma linguagem não realista, linguagem poética, com um trabalho de corpo e de voz, um contraponto ao que tinha sido feito com João Pacífico. Chama-se “Anjo Torto”, baseado em um dos versos do poeta: ”Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.” Peguei “Anjo Torto”, para pegar as facetas desse homem, desse ser humano, não só artisticamente, mas da vida dele. É um trabalho que está exigindo muito deles, pois existe uma dualidade na interpretação. Para quem está acostumado com o processo televisivo como cultura, pois a única coisa cultural é o que vem da TV e é uma coisa chapada, que você não precisa pensar em nada. Aí, passa para uma linguagem que busca sentimentos fortes e realistas que era João Pacífico, agora vem com o intelecto, com a cabeça do Drummond. Exige um trabalho muito grande deles, de intelectuais. Senão como você vai fazer um Carlos Drummond de Andrade sem ter esse conhecimento intelectual, da poesia e da realidade brasileira?
Para mim a grande satisfação desse trabalho é que está unindo o útil ao agradável. O agradável é fazer a peça e o útil é fazê-los mergulharem em um processo histórico para ganhar uma vivência e uma formação cultural que vai transformá-los em grandes atores. Esse é o grande desafio que tem nesse trabalho.

Tem data prevista para a estréia?

A gente vai definir isso ainda. Como é um trabalho dedicado ao estudante, tem que ser quando tiver aula. Porque o importante desse trabalho é despertar o interesse do jovem pela poesia, que está tão abandonada. Fora isso nós temos mais um trabalho para desenvolver e acho que ainda esse ano estaremos juntos, depois não sei… Vou ficar em casa pensando: “O que será que eles estão fazendo? Será que aquilo tudo foi destruído? Será que ficou uma semente?” Porque o grande valor disso tudo é a continuação.

Fotos: José Carlos Zitto

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