Entrevista com o ator Eucir de Souza

Escrito em September 9, 2006 por Mariana Valadares  
Arquivado em Poucas e Boas Entrevistas

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01. Eucir, primeiro vamos falar sobre o filme que você participou que estreará em 2007, “Meu Mundo em Perigo”. Fale sobre esse projeto.

Esse é o novo filme do José Eduardo Belmonte. Foi uma grande descoberta na minha vida, um presente ter conhecido esse cara, ele é incrível. Ele faz parte das minhas prioridades de hoje, porque hoje eu priorizo muito mais encontrar amigos e viver com pessoas que eu gosto, que eu acredito, do que outra coisa. E ele é incrível nesse sentido assim, o cara é um amigo para o resto da vida.
Ele me conhecia, porque eu tinha feito o teste para “A Concepção”, o filme anterior dele. Imagina! A gente faz um milhão de testes e eu nem lembrava dessa história. E desde a época do filme, que ele disse que esperava um jeito da gente trabalhar junto. Daí, ele me chamou para fazer “Meu Mundo em Perigo”, que foi um projeto intermediário. Entre “A Concepção” e um outro, que ele começou a captar recursos, pois é um projeto grande, que começará a ser gravado ano que vem, ele inventou esse. Custo quase zero pra fazer. Ele fez o roteiro, depois, junto com o Mário Bortolotto, que começaram a trabalhar juntos, retrabalharam o roteiro e durante as filmagens, ele ainda refazia o roteiro de acordo com o que a gente fazia em cena. Algumas cenas mudaram completamente. Outras cenas ficaram menores, outras, maiores. Tinha algumas, que a gente fazia inteira, acabava e ele falava: “agora improvisa, façam o que vocês quiserem”. Daí, a gente fazia.

Qual e como é o seu papel no filme? Qual é a trama?

Eu faço um fotógrafo, que tinha sido casado com uma mulher completamente louca de drogas, de loucura mesmo. Durante o filme, conta algumas coisas do passado: eles têm um filho e chega uma hora que ele não agüenta mais a loucura dela e começa a achar que está ficando perigoso para a criança, pega o garoto e foge. Depois de alguns anos, com o menino já com 7 anos, ela se recupera totalmente, pois se internou em uma clínica e ele ao contrário, perde o emprego, está desesperado, ela volta e pede a guarda do filho. O filme começa com a história do julgamento. Ele perde a criança, bebe muito, sai de carro, atropela um homem e o mata. Aí ele começa a ser perseguido pelo filho desse cara. Fogem vai morar em hotel, encontra uma menina, que ele já ficava de olho nela na rua e aí tem toda a história dos dois: os dois fudidos, experimentando uma coisa mais leve, experimentando uma coisa de amor.

02. No filme Soluço e Soluções (2001), que conta a história de um publicitário que queria acabar com a seca no Nordeste, você foi escolhido depois de uma seleção com mais de 800 atores. Nos dias atuais, o mercado para o ator ficou escasso ou foi a competitividade que cresceu?

Eu acho que as pessoas vão todas para o mesmo lugar. A gente está em São Paulo, né? Não sei se são só os atores, as pessoas fazem isso aqui. É uma cidade cheia de filas, parece que as pessoas querem estar no mesmo lugar, ao mesmo tempo, grandes congestionamentos para descer para a praia.
Minha carreira não é muito longa, mas sempre vi até hoje mitos e quando começou esse filme, o cinema era uma coisa assim: “O CINEMA”, então o ator tinha que fazer cinema. Abria um teste, todo mundo ia. Eu fui para esse teste, eu não tinha lido roteiro, não sabia quem era as pessoas. Dei sorte, porque os diretores são uns queridos e são amigos meus até hoje. Sorte também, porque eu poderia ter caído em uma roubada. Hoje eu fico pensando se eu iria a um teste com 800 pessoas. Para falar a verdade, tenho ficado com preguiça de teste com três ou quatro pessoas.

Então, hoje você só participa de projetos certos, sem testes?

Eu tenho trabalhado com gente que eu já conheço, que já me conhece, que eu acho que é mais o canal.
Fora isso, eu fico pensando que ao invés de você ir atrás de testes, não é melhor você inventar e criar um projeto seu? Fazer uma coisa sua, do jeito que você acredita, do jeito que você acha que tem que ser e chamar uma pessoa para dirigir? Uma peça, um longa, um curta. Eu tenho prestado bastante atenção nisso, porque competição é uma coisa estranha, é uma coisa que dá uma machucada nas pessoas assim em geral. Porque tem isso: são 800 pessoas e passam duas. Eu passei, podia não ter passado, também não dá nem para avaliar nada, entendeu? Nem sei se eu era o melhor ator entre aqueles, não dá pra saber. Mesmo se eu não passasse, eu não sei se eu seria o pior de todos, mas você começa acreditar nessas coisas, você passa e acha que é ótimo, se não passa acha que é péssimo. E é tudo uma mentira, uma obsessão. Eu acho que o mercado está competitivo por causa disso assim, porque surge um mito hoje e todo mundo vai para aquele lugar. E o resto não existe mais e tem muita coisa boa, né?
Outra coisa que eu acho desleal nesse mercado é que tem essa coisa do ator aparecer, as pessoas aplaudem, vão lá, abraçam e tem gente que faz isso de graça, faz por carência, faz só para aparecer e desvaloriza muito nosso trabalho. Então, eu acho que isso dá mais uma ferrada na competição do que o mercado propriamente dito, essas oportunidades, enfim…

03. Além dos longas que você já fez, você também trabalhou em curtas, como Jogo da Memória (2005), Riso-Hiena (2002), Palíndromo (2001), República do Inferno (2001). Por que você gosta de fazer cinema?

Primeiro que você vai, faz uma vez e não precisa ficar voltando lá todo dia. (rs) O Palíndromo de 2001, até hoje foi o que mais fez sucesso, até hoje as pessoas me chamam para trabalhar, porque viram esse filme ou porque ainda assistem a esse filme. Não existe nenhuma peça que tenha me trazido tanto retorno. Também acho bom estar no lugar, pra mim facilita o trabalho. É muito diferente estar em um cenário, de um palco, como nesse filme agora (Meu Mundo em Perigo): um quartinho de hotel é um quartinho de hotel e você deita na cama e conversa…é muito mais fácil. Outra coisa que gosto muito, porém isso é tanto é uma maravilha quanto o inferno, mas nesse caso que estou falando, é uma convivência muito próxima, você fica muito próximo das pessoas, acaba conhecendo muito todo mundo, são muitas horas com o pessoal, em um ambiente fechado. E tem o fascínio de criança mesmo que a gente tem pela telona.

04. Você fez uma participação na novela Bang Bang (2005/2006), da Rede Globo, como Fox. Apesar do requinte da produção e inovações nunca vistas em novelas, a trama do autor Mário Prata não decolou e foi bombardeada pela crítica. Você acha que o telespectador já se acomodou com as mesmices das novelas ou Bang Bang realmente não era um produto muito bom?

Não assisto televisão, então para mim é difícil avaliar. Não é por nada, mas é que eu não consigo ficar sentado em um lugar vendo alguma coisa, eu prefiro conversar com alguém, ler um livro.
Quando me chamaram para fazer a novela, eu comecei a assistir alguns capítulos e eu me divertia muito, achava a novela engraçada, eu achava ótima.
O que eu vejo as pessoas fazendo e que eu acho uma coisa muito impressionante é que elas ficam sentadas na frente da TV reclamando de tudo que estão vendo e mesmo assim, não param de ver. (rs) Eu lembro de novelas da Janet Clair, Gilberto Braga, como Vale Tudo, umas coisas maravilhosas, que hoje em dia não tem mais. Eu sempre me pergunto: será que é o público? Eu conheço pessoas que são formadas pela TV, que nunca vão ao teatro. Eu sou do interior de Minas, lá não tem teatro, tem um cineminha que passa os “Blockbuster”, enfim…são formados pela TV, mas eles têm discernimento. Eu não acredito que seja uma coisa muito do público.
Uma coisa que eu também não entendo é por que as pessoas optam pelo pior? Na TV tem muita coisa ruim mesmo, mas não acho que isso é uma coisa da TV. Eu vejo isso nas artes plásticas, eu vejo isso no cinema, teatro, que dá uma espantada no público. Eu não sei quem opta por isso e também não sei por que fazem essa opção, mas eu não acho que seja o público que tenha se acomodado. Se você der coisas de qualidade para o público, eles vão sacar.

05. Há pouco tempo, você encerrou a temporada da peça “Centro Nervoso” (2006), direção e textos do escritor, roteirista, dramaturgo e cineasta Fernando Bonassi. O texto é dividido em 13 monólogos, que tratam da dor, sem fazer tragédia disso, “pois há muito que rir das nossas mazelas”. Vocês “encarnaram” as dores. Foi doloroso o processo de montagem da peça?

Não muito pelo contrário. Fernando Bonassi entrou no hall dos meus amigos eternos. É um cara incrível, generoso, ele tem um olhar, que é indescritível. Ele fala que não é diretor e eu já acho que ele deveria dar um curso de direção. (rs) Ele entregava o texto e falava: “Leva esse texto embora e amanhã você me traz uma cena”. Sem nenhuma orientação, nem nada. E do que a gente levava, ele sempre aproveitava alguma coisa. Eu sei que não é todo dia que a gente acerta e às vezes você faz uma cena que você sabe que foi horrorosa, fica até envergonhado e daí o cara fala assim: “Não, mas tem aquele momento que você faz ´não sei o que`…”. Um segundo que ele viu, um tipo de movimento corporal, um jeito que você anda, ele tira a cena inteira. Tinha uma cena que eu adoro, a cena que eu mais gostava de fazer, que chama “Perdendo Tudo”, que era a cena mais engraçada da peça, comédia mesmo. Ele disse pra mim: “Você se incomoda de fazer nú?” E eu disse que não me incomodava e ele disse que imaginava a cena com um cara nu, com um whisky, um cigarro. Ele falou isso e na hora veio na minha cabeça: “Que cara louco, que absurdo, ele perdeu tudo, até as roupas, ele está tomando um whisky e fumando um cigarro e não está nem aí, ele não se ligou”. A partir daí, eu inventei um monte de coisa, um cara gargalhando e quando acabou a cena o Fernando: “Que isso? Dá onde você tirou isso?” e eu disse: “Não foi o que você pediu?” (rs) e ele falou: “Não cara imaginei um cara triste, no cantinho, indefeso, fumando um cigarro…” Eu tinha feito o contrário do que ele tinha pedido e ele disse para não mexer na cena, porque o meu jeito era muito mais legal do que o que ele tinha pensado. Então é isso, não foi nada doloroso. O Fernando começava o ensaio pedindo por favor e terminava falando que era um prazer estar com a gente. Não era uma frase feita, você via que ele estava feliz, que ele gostava de estar ali. Isso é meio new age, mas por outro lado o público vê isso de alguma forma. Eu acho que lugares onde você passa por dores, por opressões, que você é mal tratado, pode ser uma peça, um filme, o público, na hora que assiste, de alguma forma, aquela energia negativa chega até ele. O processo foi muito prazeroso e eu acho um exemplo do que tem que ser feito.

06. Em 2004, você fez o espetáculo-jogo “Arena Conta Danton”, da diretora Cibele Forjaz, pela Cia. Livre da Cooperativa Paulista de Teatro. O espetáculo contava os últimos dias do revolucionário Georges-Jacques Danton e o processo político que o levou a guilhotina durante a Revolução Francesa. Vocês jogaram com a ficção e a realidade, pois o que aconteceu com Danton tem semelhanças com a história política atual e a estréia da peça foi no dia 11 de setembro, um ano depois do atentado nos Estados Unidos. A escolha da data teve a intenção de relacionar os fatos da peça com os dos 11 de setembro?

A gente escolheu o 11 de setembro, porque a gente falava de um período que ficou conhecido na história como terror e foi a primeira vez que se usou esse termo. Os caras da Revolução Francesa inventaram muita coisa boa e muita coisa horrorosa e o terror, eles inventaram também, que é esse estado que as pessoas ficam: “explodiram o meu vizinho, amanhã pode ser eu”, que é como a gente está hoje, a qualquer momento, pode ser qualquer um. Esse período, chamado terror, é muito próximo do que a gente conhece hoje como terrorismo, todo mundo é alvo. Eles foram matando e morreram 17 milhões de pessoas na guilhotina e não é uma bomba, que joga e mata mil, guilhotina é um por um. Então a gente escolheu a data de propósito, porque realmente parecia muito semelhante.

Vocês levaram essa peça para o exterior. Como é a recepção da peça lá fora? O que você sentiu?

Eu só me apresentei na Alemanha. Eles têm uma coisa lá, que é muito louca, porque os alemães ainda têm um pouco de culpa da guerra. Então, ainda tem nazista lá, há lugares de Berlim que as pessoas não têm vergonha de colocar bandeiras falando que estrangeiro não é bem vindo, por outro lado tem todo o resto da sociedade pedindo desculpas. Tem um cara incrível, que eu conheci lá, que faz um festival de dança brasileira todo ano lá e ele me mostrou uns catálogos com um monte de Cia brasileira, que eu nunca tinha visto na minha vida e o alemão me falando em português: ”eu acho que isso é uma grande falha de vocês, vocês não se auto prestigiam”. Lá, somos muito bem recebidos mesmo. Eu não sei, acho que um pouco por conta disso, dessa coisa deles quererem se desculpar de alguma forma.
O teatro lá tem uma importância muito grande e me dá uma tristeza, porque a gente fez esse espetáculo aqui durante a Copa do Mundo esse ano e por exemplo: o jogo era às 4 da tarde e o jogo às 9 da noite e tinha poucas pessoas no teatro, eu acho meio triste. Lá, a gente fez Danton, no dia da abertura da Copa do Mundo, em Berlim e o teatro estava cheio. Eu não senti a massa dominada como tem aqui. Eu saí um dia de jogo aqui e eu não consegui arranjar um restaurante pra comer, porque as pessoas achavam uma ofensa você procurar um restaurante para almoçar na hora do jogo e lá não, a cidade não parou, funcionou normalmente. Tem essa diferença muito grande, mas também, é um hábito de séculos.

07. Além do “Meu Mundo em Perigo”, tem mais alguma novidade?

Tenho o filme “Fim da Linha”, que é o primeiro longa do Gustavo Steinberg. A idéia era lançar esse ano. Fiz o “14 Bis”, do André Ristum, que também deve sair ainda esse ano. E tem, mas eu não sei quando sai, como sai, que é um projeto Brasil-Itália, um negócio grande, que é sobre a vida do Garilbaldi, um filme bonito, de época.

08. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.

Eu sugeriria as pessoas que elas experimentassem isso assim: priorizar o amor, priorizar a amizade nas relações profissionais. Como a gente tem um trabalho muito abstrato, a gente trabalha muito com gosto pessoal. No mesmo dia eu posso encontrar uma pessoa que me acha o melhor ator do mundo e posso encontrar uma pessoa que acha um lixo o meu trabalho. Durante muito tempo no mercado isso foi a prioridade Eu sugiro que as pessoas botassem esse foco, porque eu acho que é o que fica, um amigo que você conhece. Não acho que todo mundo que você conhece, você fica colado na pessoa pelo resto da vida, não é isso que estou falando…tem gente que você não pode ver “nunca mais”, mas eu posso encontrar a pessoa quando eu estiver com 60, 70 anos e vai ser uma pessoa que vou lembrar com carinho, que eu vou ter amor por ela. É uma coisa que eu sugeriria em geral, que as pessoas botassem mais esse foco, mesmo que a situação não seja a ideal.

Fotos: Reprodução, Fernanda Furquim 

Assista ao trailer do filme “Meu Mundo em Perigo”

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