Entrevista com o preparador vocal Tato Fischer

August 17, 2006 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Entrevistas


01. Tato, você é preparador vocal de cantores e atores desde o início dos anos 70. Foi o primeiro pianista e fundador da banda “Secos e Molhados”, junto com Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad. Ator, músico, formado em psicologia, colunista, pianista, diretor, palestrante. O prazer de ensinar superou a vontade de seguir carreira artística no cenário musical brasileiro?

Sua perguntaa é pertinente e eu até poderia responder um sim, entendeu? Na verdade, acho que são coisas diferentes. O prazer de ensinar é muito grande, enorme. Eu não sei se ele substituiu, mas hoje pra mim é primordial. Em relação à carreira, eu mudei a tônica e o objetivo, me apresento onde eu acho que tenho que me apresentar, sem ter que virar um “super star”.

02. Como citado na pergunta anteror, você foi o primeiro pianista e fundador da banda “Secos e Molhados”. A banda ficou conhecida nos anos 70, como revolucionária, pelos temas políticos em suas canções e performances teatrais. Vocês chocavam a sociedade na época. A intenção era realmente essa? Chocar?Eu acho que nunca teve isso. Eu vou falar um pouco do que vejo do Ney. Tudo veio do Ney, inclusive a banda Kiss vem daí. Um cara viu o Ney, quis levar o Ney, ele não quis e o cara fez o Kiss (rs). Eu fazia teatro com o Ney e na semana de estréia dos Secos e Molhados, eu lembro que ele chegou assim e disse: “venha ver uma coisa”. Ele abriu uma mochila com 500kg de purpurina e completou: “vamos colocar essa moçada para jambrar”, a moçada da banda, porque era um negócio pra ser um UP. Acho que chocava pela coisa que era em si, mas o objetivo não era esse. Chocar no sentido: “vejam que lindo!!!” Tanto que foi uma coisa explosiva. No mercado de disco, por exemplo, mudou toda a configuração. Quem vendia mais era o Roberto Carlos, com 300 mil discos, veio o Secos, já no primeiro disco, vendeu mais de 1 milhão de cópias.

 

 03. Seu trabalho como preparador vocal tem função terapêutica, através do canto. Como é esse processo?

Primeira coisa é descobrir a pessoa. Se você vem fazer um trabalho vocal comigo, eu quero ver quem é você, eu quero te ouvir, eu quero perceber o que você faz e trabalhar em cima do que está me trazendo. Começa por aí e por isso ele tem função terapêutica. Vou buscar em você, o que você tem de melhor e trabalhar em cima disso. Como se fosse uma terapia mesmo?
O objetivo primeiro não é a sessão de terapia, mas ele passa a ser terapêutico, a partir do momento que ele faz você por pra fora o que você tem de melhor. A terapia tem esse objetivo, te conduzir a um melhor ser.

04. No artigo “Técnica do Canto”, para o site www.m-musica.com.br, você fala sobre os benefícios para o artista ter domínio sobre técnica vocal. Quando a técnica atrapalha o profissional?

A técnica não atrapalha, quer dizer, dessa técnica de que eu falo, a técnica que eu vou buscar o seu jeito de cantar. Tem gente que chega aqui, como a Lucia Helena Côrrea, que canta pra caralho, nunca estudou canto, nunca freqüentou uma escola de canto, mas ela teve uma escola; a mãe que cantava. Então, quando ela começa a cantar, ela usa a técnica que é a dela. Se ela cantar e ficar rouca, essa técnica não serve. Se ao cantar, ela desafina, alguma coisa está errada. Mas se ao cantar ela se põe inteira…O que ela precisa trabalhar é para ir nessa direção. Então, a técnica é o que você extrai de melhor da pessoa,.A técnica vai atrapalhar sim, se não utilizá-la corretamente. Por exemplo, o canto lírico, se não fizer legal, vai machucar. Lembro que o maestro, um grande maestro, Paulo Moura, que trabalhou na TV Cultura muito tempo disse a um amigo meu que queria fazer aula de canto lírico: “por que você quer estragar a sua voz?” (rs) Não estou dizendo que isso atrapalhe ou estrague, mas pode atrapalhar se não trabalhar legal. As pregas vocais são músculos, então você tem que tomar todo cuidado.

A jornalista e cantora Lucia Helena Corrêa estava presente durante a entrevista com o Tato. Na verdade, o “Poucas…” pediu “licença para atrapalhar” o ensaio dela, para a realização da entrevista.

05. Você foi acusado de improvisador por alguns colegas, de acordo com um outro artigo seu: “Que escola seguir”, também pelo “m-musica”. Falaram do seu estilo, reclamaram da sua postura e queriam saber que escola seguia. Muito espirituoso, você responde que seguia a “escola de samba”. É desse jeito que você encara as críticas?

Tem que ser e inclusive usar isso a seu favor. Você acha que um dia o Jamelão foi em alguma escola, sem ser a de samba? (rs) Pode até ter ido, mas…eu duvido (rs). É claro que você tem que ouvir, se a pessoa está fazendo uma crítica, aquilo pode ser um alerta, que você passa a usar de alguma maneira. Se não for, também. (rs) Você tem que tirar de letra, ouvir e ver o que você faz com aquilo.

06. Desde 1994, você dirige o grupo vocal “Amídalas Cantantes”, da cidade de Santo André – SP. O grupo é formado por pessoas de mais de sessenta anos.

A grande maioria. Tem gente com mais de 70 anos.

Como é a experiência com um grupo da terceira idade?

É fantástico! Na verdade, as pessoas são muito legais. O que mais gosto desse trabalho é o fato de não me preocupa com o lance da idade. Já fiz oficinas que já estudou todo mundo, desde criança até idoso e funciona muito legal. Claro que é diferente, quando se pega um grupo de uma determinada faixa etária. Nesse grupo mesmo das Amídalas, a gente tem adolescente, tem alguns jovens de 30 anos e 25, tem uma deficiente visual, tem uma garota de 15 anos, que é portadora de down e funciona como um grupo de pessoas, entendeu? Não é excludente.

Não é dividido por faixa etária, quando há apresentação?Não, fazemos todo mundo junto.

 07. Como as pessoas podem conhecer o seu trabalho e os trabalhos de seus alunos?Ou assistindo uma aula ou assistindo alguma apresentação. Eventualmente fazemos apresentações. Em outubro temos uma apresentação marcada, ainda não tenho o dia exato, nem o local. Mas acessando o site: http://www.tatofischer.com.br/ tem as informações.

 Vocês faziam apresentação no Café Piu Piu, né?

 Muito, esse ano mesmo, nós já fizemos duas apresentações lá. Essa próxima não será no Piu Piu, mas por uma questão de agenda, mas em outubro teremos uma apresentação. Essas apresentações eu chamo de “Aula Aberta”, os alunos levam as pessoas para assistir o trabalho realizado por nós. Geralmente é um público bem familiar – amigo, namorado, pais, irmãos…enfim.

Café Piu Piu: Rua Treze de maio, 134 – Bela Vista – São Paulo

08. Quais são os tipos de profissionais que procuram o seu trabalho?

É muito variado: palestrantes, estudantes, músicos, cantores, artistas, jornalistas…O canto de alguma maneira te centra, ele te dá um forma de você se descobrir e através disso você aplica para a voz. Por isso, eu acho que não é dirigido por um grupo só de uma determinada profissão.

09. Uma mensagem para os freqüentadores do blog “Poucas e Boas da Mari”.

Cante, cante, cante muito, cante sempre, cante sem parar!

Fotos: Mari Valadares

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