Entrevista com a atriz Tuna Dwek
July 1, 2006 by Mari Valadares
Filed under Poucas e Boas Entrevistas
01. Tuna, você também é socióloga, tradutora, escritora… Essas funções de alguma maneira ajudam você na carreira de atriz?
Com certeza! Eu nunca pensei que a sociologia fosse me ajudar tanto no momento de ler um texto. Durante quatro anos de faculdade a gente ouviu uma máxima, que era assim: “você tem que inserir no contexto histórico”, “você tem que situar o que você lê, uma obra ou um fato, num contexto histórico”, “nunca nada está isolado”. Então quando eu leio um texto de teatro, automaticamente à estrutura do meu pensamento já se direciona para esse universo mais sociológico, histórico, antropológico. É impressionante como me ajuda. Dentro do curso de ciências sociais você também tem muita aula de história. Logo, se você entender historicamente o que estava acontecendo, você pode construir teu personagem de uma maneira mais profunda. Obviamente que você precisa da técnica e estudar. A gente tem que estudar o tempo todo. E estudar não é aquela coisa chata, erudita. O ofício do ator é um dos mais completos que existem, pois você tem que saber um pouquinho de tudo. Quanto mais você souber, mais você vai poder rechear seu personagem.
Então você é a favor da reciclagem?
Eu sou super a favor. O que é um ator? Ou um autor? Ele é um cronista, ele é um jornalista, ele é um repórter, ele traça um perfil do que acontece. Eu acho que quanto mais a gente puder reciclar, se preparar e se aprofundar, melhor nosso trabalho vai ficar. É um pouco como Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, falava: “quanto mais eu sentir, quanto mais coisas eu puder viver, mais eu vou ser”. Mas esse “mais” é uma coisa da profundidade, da intensidade da vida e não o acumular saber. Senão fica ridículo, erudita, chata, pedante. É a mesma coisa que línguas, se eu puder desenvolver esse diferencial que eu tenho que é de poder atuar em algumas línguas, nossa eu vou poder enriquecer tanto meu universo artístico. E ajudar pessoas também. Quando eu fiz a minissérie “Um Só Coração”, tinha essa coisa cosmopolita de São Paulo, então uns tinham que falar com sotaque e me perguntavam como falar. Você pode compartilhar com seus colegas, acho isso maravilhoso. Logo tudo isso que você citou, contribui sim para meu trabalho como atriz. Apesar de que eu me formei com 30 anos, né? Primeiro eu acumulei muitas coisas.
02. Você participou das minisséries “Um Só Coração” (2004), de Maria Adelaide Amaral e “JK” (2006), também de Maria Adelaide, com o dramaturgo Alcides Nogueira, na Rede Globo. Em “Um Só…”, foi Marinette Prado e em “JK”, Olímpia Garcia. Teve uma que tenha sido mais especial que a outra?
Curiosamente, por coincidência, fiz duas pessoas que existiram. Acho isso muito especial! A Marinette Prado, por exemplo, foi à idealizadora da Semana de Arte Moderna de 22, em São Paulo. Eu fiz teste pra entrar. Aliás, tudo que eu fiz na minha vida foi tudo por teste. Tinha que falar francês fluente, porque ela era francesa. Da mesma maneira que a Olímpia era espanhola e tinha que falar espanhol fluente. Não sei te dizer qual foi mais especial, pois uma foi a primeira, então é sempre super especial e a outra, a personagem era maior, mais densa e eu pude desenvolver mais. Agora, igualmente um desafio: contracenar com pessoas muito mais experientes que eu, porque televisão é uma coisa que fiz muito pouco, embora eu tenha feito muitos comerciais. Depois fui fazer “Da Cor do Pecado”, que foi uma delicia atuar, também uma francesa. E por fim, uma pontinha na novela “Essas Mulheres”, da Rede Record, outra francesa, a Fedra.
Todos os seus papéis na TV são ligados a línguas estrangeiras. É coincidência ou há a intenção de chamá-la para interpretar esse tipo de personagem?
Acho que é intencional, porque eles sabem que eu falo de verdade, não faço de conta.
Você sabe que durante muitos anos eles não me chamavam e sempre esteve na minha ficha, no meu cadastro, que eu falava essas línguas. Um produtor de elenco me disse que muita gente chega lá e escreve que fala várias línguas e que quando vão testar, não falam. Agora que eles sabem que eu falo, eles me chamam.
03. Para “compor” Olímpia Garcia, na minissérie “JK”, você fez laboratório em cinemas eróticos da capital paulista. Pesquisar, viver outros universos que não são sua realidade para a “composição” da personagem é necessário?
Mergulhei na personagem. Fui para Madri e era assim: 24 horas pensando, falando e treinando em espanhol. Voltei para o Brasil e um amigo meu, assessor de imprensa, me levou na Rua Aurora, na Avenida São João. Eu queria entender de perto esse universo, porque o universo da “cafetinagem”, que é o universo da prostituição, tem uma visão muito glamourosa no cinema, no teatro, na TV. Mas na verdade, o ponto de partida deste mundo é a necessidade. Não é alegre não, viu? Eu queria ver “como funciona” uma cafetina. Eu fui num lugar que chama “Orion”, na Rua Aurora. Tinha o show das strippers, que são lindas, super profissionais. Depois eu conversava com elas.
Elas sabiam sua intenção?
Não, não. Se eu falasse minha intenção, ia ser uma coisa tão desrespeitosa, como se eu estivesse indo em um zoológico observar. É feio, desrespeitoso. Então, eu fui como uma cliente que elogiava o trabalho delas. Em alguns lugares, ficávamos uns cinco minutos, porque me deprimia. É triste! Você entra numa realidade pesada. Acho necessário esse laboratório. No filme “Bicho de Sete Cabeças”, por exemplo, as pessoas foram ver o que é um hospital psiquiátrico. Quanto mais informação você puder ter sobre o que você vai fazer profissionalmente, mais rico fica seu trabalho. Você não vai imitar ninguém, isso é atuação pobre.
Porém, não é que eu vou utilizar o que eu vi em cena. Não! Mas isso já está dentro de mim, é orgânico. Por exemplo: aquele cabaré era meu? Eu sou dona do pedaço, eu que mando naquelas meninas. É o que a cafetina faz: uma relação de poder. Talvez eu não soubesse como desenvolver isso, se eu não tivesse visto. A gente tem pudor de fazer um personagem mandão, autoritário, mas todo mundo tem isso dentro de si. Quanto mais você usar de você naquele personagem melhor fica seu trabalho, quanto mais informação você tiver melhor teu personagem. Então, pra mim foi super útil.
04. Você participou do programa humorístico “Minha Nada Mole Vida”, da Rede Globo. Fazer humor é um desafio ao ator?
Nossa senhora! Mas foi uma delícia participar. O que a gente se divertiu!
Existe um tipo de interpretação que é assim, como diz o Alvarenga (diretor do programa): “joga fora o texto, como se você estivesse falando normalmente, mas uma barbaridade”.
As pessoas me acham engraçada no dia a dia e eu não entendo. Não sei onde sou engraçada. Elas dizem que eu não me dou conta que sou engraçada e que sou assim, pois não faço graça. Então, eu aprendi: humor você tem que falar tudo com verdade. Claro que é um desafio. E você não pode “querer fazer rir”, vai ficar patético, ridículo, canastrão. Acho menos difícil fazer drama, menos difícil eu tocar você com a emoção do que com o humor. Drama todo mundo tem. No humor é o timing, é o tempo. E você tem que estar muito bem disposto para fazer comédia. Na minha vida aconteceu várias ocasiões que eu tinha que conjugar aquela máxima “o show tem que continuar”, porque inúmeras vezes eu sai do velório de um grande amigo e tive que ir para o teatro fazer comédia. É impressionante!
É difícil separar a vida pessoal da profissional?
“O personagem fica lá na casa dele lá no palco e no dia seguinte eu vou encontrar com ele de novo”. Eu acho que o ator tem que ter essa esquizofrenia, ou seja, quando você está no palco você é totalmente outra pessoa e acabou aquilo, “bye bye personagem”. Da mesma maneira que você for fazer uma personagem louca, você tem que estar a mais equilibrada possível. Não vai colocar seus problemas no palco, porque teatro não é terapia. Agora, isso você só adquire com a experiência, só aprende errando. Com o tempo aprende a separar, se não você não faz nem bem uma coisa, nem outra.
05.Você atuou em alguns curtas-metragens, como “Manual para Atropelar Cachorro” (2005) e “O Quintal dos Guerrilheiros” (2005).
Eu fiz um agora que se chama “Minha Obra”, da atriz Bárbara Paz, o primeiro curta-metragem dela.
É interessante para a carreira de um ator fazer curta metragem, um gênero que esbarra na dificuldade de sua distribuição nos cinemas do país?
Aí tem duas coisas: a distribuição, que é problema deles, né? (rs) Pois se não for distribuído vai ter menos visibilidade. E para o ator tudo que você puder fazer é útil. Quando eu estava na Escola de Arte Dramática, eu fui fazer figuração no “Vera”, no “Feliz Ano Velho”, para “saber o que era uma câmera”. Estava na escola, estava ali pra aprender, então, tudo que você puder fazer é útil, até pra selecionar o que não vai fazer, selecionar o que não vai acrescentar nada. Não é que você vai ficando seletivo de maneira idiota ou arrogante, você vai ficando seletivo quando uma coisa não acrescenta mais nada ao seu aprendizado e trajetória.
06. O ator Antonio Fagundes disse ao jornal Folha de S. Paulo (Folha Ilustrada, 11 de junho de 2006), que o teatro sempre foi elitista, desde a Grécia Antiga. Você concorda com a opinião do ator? Se sim, há alguma política pública que poderia mudar essa situação?
Que teatro que é elitista? Porque existe um teatro que vai até o espectador. O teatro elitista é aquele que espera que o público venha a ele. Não dá pra generalizar. O que acontece é que o teatro separa a platéia do palco, o que não é uma separação de classes, mas como o ingresso é caro, principalmente aqui num país como o Brasil, talvez ele tenha usado essa palavra. Pode ser que eu seja ingênua, otimista, mas eu acho que todo mundo gosta de teatro. Desde a criação mais carente, adoram teatro. Sabe por quê? Porque é feito por humanos.
E por que desde a Grécia? Na Grécia tinha a Ágora, a praça pública, não tinha que pagar ingresso. Pelo contrário, inclusive na idade média, na renascença, quando tinha a comédia Dell’Arte, na Itália. A comédia Dell’Arte ela percorria o país e se apresentava nas praças públicas de graça. Cadê a elite? Adoro o Fagundes, acho ele um cara inteligentíssimo, mas eu não concordo. Não dá para você esperar uma política cultural ou o Ministério resolver que vai subsidiar o teatro.
07. Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira foram biografados por você nos livros “A Emoção Libertária” e “Alma de Cetim” respectivamente. O fato de você ter uma amizade de anos com os escritores ficou mais difícil o trabalho?
Acho que facilita ao invés de dificultar. Difícil é escrever.
E eles? Tiveram alguma dificuldade de expor a vida a você?
Não! Eu acho que eu tenho que render minhas homenagens a Deus, a Dionísio e aos dois todos os dias, porque foi uma dádiva. Eles foram de uma generosidade. Quando você é muito amiga você tem confiança na pessoa. Outra coisa que eu acho é que quando você cria uma amizade a partir de um trabalho, é uma amizade que tem tendência a durar a vida inteira, pois no trabalho você passa pelo caráter, pela personalidade, pela dedicação, pela ética, pela honra, passa por todos os valores. Isso que vai determinar se você vai continuar minha amiga ou não. Então, a gente teve uma confiança irrestrita. No caso do Tide (Alcides Nogueira), quando o entreguei o texto, ele ficou muito emocionado e falou que era irretocável. “Não vou mudar uma vírgula”. E completou: “Esse sou eu, não sei como você conseguiu traduzir de uma maneira tão impecável”. Eu fiquei muito orgulhosa dele falar isso e com a Maria Adelaide também. Ela obviamente retocou, tirou coisas dali, daqui, mas é o meu livro.
A gente tem essa liberdade, por exemplo, de uma falar para outra: “Vamos parar por aqui, hoje? Amanhã a gente continua”, pois como são balanços de vida, mexe muito com a pessoa. No caso da Adelaide, ela mexeu em coisas muito profundas. Ela teve um câncer, ela teve um irmão seqüestrado, ela recomeçou do zero muitas vezes. Eu digo no “departamento de dores”, né? E no “departamento de alegrias”, também há um balanço de vida: nascimento dos filhos, casamento. O Tide foi mexer na infância dele, na adolescência, nos poetas prediletos, na morte da mãe. Eles se entregaram completamente a mim, como eu fui direcionando de uma maneira delicada. Eu sempre falo que uso as “pinças da delicadeza”. Primeiro: porque mexe na intimidade das pessoas. Segundo: o compromisso ético que você tem de não passar para os outros, o que você sabe da pessoa. Não é uma revista de fofocas, é um livro e se não há boa fé, você pode por a perder um monte de coisa.
Foi idéia sua as biografias?
Partiu deles. A Imprensa Oficial do Estado, Rubens Edwald Filho e o Marcelo Pestana ligaram para o Alcides e falaram: “Nõs gostaríamos de ter sua biografia” e o Tide falou: “Eu gostaria de sugerir uma pessoa pra escrevê-la…”. Mas eles só me contaram depois que foi publicado. Eu ia entrar na maior crise se soubesse antes. Hoje o livro já está em sua segunda edição. E com a Maria, perguntaram: “O que você acha da Tuna escrever sua biografia”. “Maravilhoso”, ela responde.
Tuna, no momento, escreve duas biografias: da fotógrafa Vânia Toledo e da atriz Denise Del Vecchio. A biografia da Denise foi idéia de Tuna, que disse ao “Poucas e Boas da Mari” que teve uma aula sobre a história do teatro.
08. Você escreve bastantes biografias de pessoas que fazem parte da cultura do Brasil. Por que a preferência por esse gênero literário?Olha que pergunta! Eu nunca escrevi romance, nunca escrevi ficção, acho que sou incapaz até. É muito difícil escrever na primeira pessoa. Nossa! Meu Deus! Porque não é ghostwritter, é escrever um livro como se fosse aquela pessoa, né? Então não posso dizer se é o que eu prefiro, pois eu nunca escrevi outra coisa.
Tem vontade de escrever?
Não! Sinto-me incapaz. Agora, quando eu começo a contar uma história, meus amigos falam que eu tenho que escrever, insistem e eu nem me dou conta. Eu nunca me atrevi, não tenho essa ousadia, por enquanto.
09. Em uma entrevista, você disse que todo ator é inseguro. Agora com a sua resposta sobre os gêneros literários, você diz ser incapaz de escrever romances, ficção, etc. Você se considera insegura como escritora, como atriz?
Em tudo! Tudo parece maior do que eu. Tudo parece um desafio imenso. Eu tenho uma entrega tão absoluta, que quando eu consigo, eu falo: “Meu Deus! Eu consegui”.
Existe uma entrega, uma perseverança que é orgânica em mim. É tão natural, que eu vou, quando vejo, eu já fiz. O que eu atribuo tanta insegurança? Eu acho que é o medo do desconhecido e a certeza absoluta que a gente não controla nada. Eu aprendi muito isso com duas coisas: a primeira é com as mortes, com as perdas e com a natureza. Eu também sou mergulhadora e às vezes quando eu ia mergulhar e o mar “virava”, daí eu tinha que voltar para casa conformada com aquilo. E o que é o palco? Na coxia, eu fico insegura, com medo de esquecer o texto, por exemplo. Não é que a gente vai para o negativo. Não é isso. É porque é o imponderável. Você tem certeza que não vai esquecer o texto? Óbvio que dá medo!
Você sabe se vão gostar do seu livro, da sua matéria, da sua atuação? Você não sabe e o teu desejo é que gostem e a tua necessidade é de ser aprovada, sim.
10. Novelas, minisséries, livros, peças, filmes. Conte o que vem pela frente.
Agora vem o livro da Vânia Toledo e da Denise Del Vecchio. Meu nome está em nove projetos de teatro. Fiz várias leituras desses textos já. Estou em compasso de espera. Tem também o filme da Bárbara Paz, o “Minha Obra”, que será lançado no Festival Mix e em agosto vou fazer um projeto com a Eugênia Teresa de Andrade. Da mesma maneira que ela fez as “Satrianas”, que foi um café filosófico no SESC Anchieta, sobre Simone De Beauvoir e Sartre se encontrando, ela vai fazer isso com o Brecht e eu vou ser a dona do cabaré. Nós vamos fazer no galpão do SESC Pompéia, do dia 10 a 20 de agosto.
11. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.
Pouca e Boas é uma máxima ótima, porque prefiro fazer poucas peças e boas ou poucos trabalhos e bons a me desperdiçar fazendo um monte de coisa para dizer que estou fazendo.
E tem outra frase que eu adoro, que é uma frase do Van Gogh que diz o seguinte: “O que é feito com amor, está bem feito”.
Fotos: Marcos Ribas e Divulgação
Quer ter a entrevista com a atriz Tuna Dwek em seus arquivos? Clique aqui entrevista-com-tuna-dwek (para abrir o arquivo .pdf precisa ter o programa Adobe Reader – Imprima se necessário, preserve o meio ambiente)




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