Entrevista com o fotógrafo Ike Levy
April 17, 2006 by Mari Valadares
Filed under Poucas e Boas Entrevistas
“Minhas melhores fotos aconteceram sem grandes produções. Cada vez eu tenho mais certeza que o equipamento não é o mais importante e sim, o ser humano.”

01. Ike, quando você começou na fotografia? O que o despertou para a profissão de fotógrafo?
Desde muito cedo a câmera fotográfica esteve ao meu lado. Minha primeira câmera eu ganhei aos cinco anos de idade do meu pai, Jaime H. Levy, “ex-piloto de automobilismo” e um grande exemplo em todos os sentidos. Mais tarde, fui estudar Propaganda e Marketing, trabalhei no Brahma, aqui no Brasil e fui para os Estados Unidos trabalhar com importação e distribuição dos chocolates Garoto. Estava tudo indo bem até a chegada de um problema econômico, onde tivemos uma grande desvalorização da moeda brasileira e as exportações não eram mais lucrativas. Eu ainda não queria voltar ao Brasil. Aí uma amiga que trabalhava com o piloto de fórmula Indy Raul Boesel me perguntou se eu gostaria de fazer um ensaio fotográfico de uma corrida dele. Adorei a idéia! Ele gostou muito do resultado e me chamou para fazer um material mais completo para ele ter como acervo para divulgação. Foram 30 rolos de filme. Fiquei feliz quando percebi que o meu hobby poderia se tornar a minha profissão. Na época eu tinha apenas uma câmera e ela não podia dar nenhum problema. Aliás, ela nunca me deu problema. Hoje estou muito mais equipado, mas tenho um carinho especial por esta câmera. Até o barulhinho do “clic” é mais gostoso. (rs)
02. Para exercer a profissão, você acha que é necessário ter formação de fotógrafo? Um exemplo de não formação é o Sebastião Salgado, que vem da economia política.
Eu sou um autodidata. Li muito sobre o assunto, fiquei um tempo como assistente de um fotógrafo Cubano, Ignácio Rivas, mas posso dizer que aprendi fotografando. Sempre muito curioso, testava vários tipos de filmes, condições de luz, assuntos e assim fui construindo uma linguagem fotográfica. Uma característica das minhas fotos é a não utilização de flash. Sempre prefiro a luz natural.
03. Você já trabalhou na Europa e nos Estados Unidos, continente e país que valorizam a cultura muito mais que o Brasil. É difícil ser valorizado, ter reconhecimento profissional no Brasil?
É difícil sim, mas persistindo, tendo a humildade de encarar trabalhos não tão prazerosos, tendo preço bom, qualidade e entregando no prazo, as coisas começam a acontecer.
04. Com os avanços tecnológicos dos últimos tempos, a máquina fotográfica passou por mudanças, entrando na era digital, na era da imagem digital. Muitos profissionais encaram essa mudança como o fim da estética da imagem. Qual a sua opinião sobre isso?
No início tive certa resistência pela era digital. As câmeras não tinham a qualidade boa. Porém, a tecnologia é muito rápida e tive que me render, ou estaria fora do mercado. Hoje, trabalho bem com este equipamento, mas vejo uma garotada nova entrando no mercado sem ter passado pelo filme, revelação, ampliação e isso faz a fotografia se tornar banal. O cara clica aqui sabendo que depois vai dar uma tratada no Photoshop e tudo bem. Eu continuo tendo a mesma preocupação com a luz, fotometria como se estivesse com filme na câmera, a facilidade é ver o resultado na hora. Em moda, por exemplo, é ótimo! A modelo pisca os olhos, eu vejo e refaço a foto ali mesmo, sem ter que esperar revelar, ou seja, sem perda.
05. Depois de fotografar o automobilismo, o mundo fashion, paisagens, você encontrou um espaço para trabalhar com fotografia social. Nos Estados Unidos, trabalhou junto a Operation Smile, organização privada, que cuida de crianças com deformidades faciais. Já aqui no Brasil, você contribuiu para o Projeto Guri, que atende crianças carentes, na cidade de São Paulo. De que forma a fotografia contribui com projetos sociais? Como foi feito o seu trabalho?
Na verdade eu sempre estou envolvido em trabalhos sociais. Acho que é um contraste interessante entre o mundo da moda e a vida real. Isso me da força para continuar amando cada vez mais a minha profissão. Um dia eu estou com uma top model e no dia seguinte estou em uma cidade muito pobre, fotografando uma criança com as unhas sujas de terra tocando violino. Ou no caso da Operation Smile, fotografando uma criança na sala de cirurgia com a deformidade facial sendo reconstruída. Depois vejo a reação das mães vendo seus filhos “curados” e me emociono junto com elas por trás da câmera. Isso não tem preço. Hoje estou envolvido com o Núcleo Sebastian que ensina dança, teatro e cidadania às crianças abaixo da linha da pobreza.
06. Dentro desse currículo vasto, o que mais gosta de fotografar? Por quê?
Gosto muito de fotografar “gente” e “lugares”. Até hoje fiz oito exposições fotográficas com assuntos bem diferentes. Uma delas foi sobre o “beijo”. Foram 20 fotografias de diferentes tipos de beijar. Desde pai com a filha, casais, cães e teve até um beijo em baixo d´agua. Essa exposição eu dediquei à minha mãe. No início do catálogo dizia: “À minha mãe Maria Luiza, uma mulher vitoriosa! Aquela que me deu o primeiro beijo”.
07. Na sua opinião, qual é a diferença da fotografia, pintura e desenho, em relação a imagem ?
Gosto muito de desenhos, pinturas e vou mais além. Isso serve como inspiração para a minha fotografia. Hoje o mercado de trabalho é muito competitivo, acredito que para ter uma boa foto você tem que ver os trabalhos de outros fotógrafos, irem à exposições, ler, ouvir música e fotografar muito. Ter sempre o olhar atento. Minhas melhores fotos aconteceram sem grandes produções. Cada vez eu tenho mais certeza que o equipamento não é o mais importante e sim o ser humano.
08. Como as pessoas podem conhecer o seu trabalho?
Tenho um site que tem um pouco do meu trabalho: http://www.ikelevy.com.br/. Eu também vendo quadro de fotos para decoração de ambientes. A pessoa pode escolher fotos do meu acervo ou me propor um tema. Pode escolher o tamanho da foto e o tipo de moldura. Além de decorar, serve como um presente original.
Trabalhos realizados pelo fotógrafo (Para ver as fotos, clique em cima da imagem abaixo)
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| Trabalhos Ike Levy |
Fotos: Divulgação
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