Entrevista com a atriz Grace Gianoukas, diretora da Terça Insana

March 29, 2006 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Entrevistas


Grace Gianoukas. Foto: Site Porto Seguro Brasil

01. Grace, começo a entrevista voltando ao passado. Em 1984, você saiu do Rio Grande do Sul e veio tentar a sorte como atriz na capital paulista. Trabalhou na Rede Record, fez “Escolinha do Professor Raimundo” e a minissérie “Sex Appeal”, na Rede Globo, além de várias peças teatrais. O caminho para alcançar o reconhecimento profissional foi longo?

Decidi mudar pra São Paulo porque queria saber mais sobre tudo, pessoalmente, culturalmente. Mas, principalmente, vim porque fui chamada por um amigo. Sentíamos que precisávamos de mais tempo juntos, nos fazíamos muito bem, tínhamos carinho e respeito profundo, um pelo outro e não poderíamos nos afastar, ainda. Esse amigo era um mestre pra mim. Caio Fernando Abreu foi uma pessoa fundamental na minha vida.
Como vês, não vim tentar a sorte como atriz, vim pra ser arrebatada pela vida, pra ser instigada.
Trabalhei de garçonete, fiz cursos, vi filmes, conheci novos autores, novos artistas, estava no meio do movimento “punk”, do novo rock and roll. Queria aprender e tocar. Em 85 já estava escrevendo, criando, produzindo e interpretando meu próprio trabalho pelos espaços alternativos de São Paulo, Fazer televisão não me interessava, nunca esteve entre as minhas metas profissionais. TV não é um veículo para o livre pensamento, em geral é puro comércio e entretenimento manipulador de opinião.
Porém tive a sorte de fazer dois trabalhos em TV, verdadeiramente revolucionários: TV MIX e Ra-tim-bum, ambos dirigidos por Fernando Meirelles.
Reconhecimento profissional não é grana, nem fama, pra mim é o respeito do público e dos meus colegas. Construir isso demora muitos anos.

02. O que a levou seguir o caminho da comédia? Vocação?

Não sou comediante, sou atriz, fiz muitos trabalhos dramáticos, já me debulhei em lágrimas, fiz teatro surrealista, expressionista. Tenho usado a comédia como um recurso pra poder dizer tudo o que penso e não ficar tão pesado pra quem assiste. Uso o humor como um KY, pros questionamentos entrarem com mais suavidade. Se observares a Aline Dorel, a Cinderela, a Sta Paciência, verás que foram construídas a partir de uma dor profunda.

03. Em novembro de 2001 nasce o espetáculo “Terça Insana”. Esse espetáculo é em forma de teatro de revista, um gênero que se tornou popular no Brasil no século XIX e que tem como característica crítica aos costumes impostos e aceitos pela sociedade, feita com muito humor. Como surgiu a idéia da “Terça Insana”?

O panorama da arte na virada do século era desolador, não havia nenhum lampejo de ousadia: em cartaz superproduções com atores de TV, patrocínios milionários, mídia bombástica para espetáculos medíocres, que só ajudavam a espantar o desgostoso público das salas de espetáculos.
Eu estava inconformada com a mesmice preconceituosa e fútil, em que, com raras exceções, estava instalada a comédia brasileira desde os anos 90. Para mim era fundamental reagir, repensar tudo: Qual seria o ponto de onde partiriam as criações da próxima geração de comediantes?
Como artista, sentia a responsabilidade social de buscar novas formas, novos terrenos, novos assuntos para se fazer humor, que pudessem traduzir as revoluções ocorridas no pensamento, no comportamento moderno.
Acreditava que poderia fugir da pasteurização e buscar o humor crítico, contemporâneo, inteligente e inusitado. Mas, sobretudo, tinha certeza de que: “tínhamos que deixar de rir do outro para rirmos de nós mesmos”.
Decidi tomar uma atitude e criei a “Terça Insana”, em outubro de 2001, tava empenhada em criar alternativas, pesquisar e testar novos temas e estéticas para rir, proporcionar á classe artística, um espaço neutro, fora do mercado, para libertar a criatividade onde se pudesse trocar e apresentar idéias sobre humor.

04. E por que fazer graça com assuntos sérios, como por exemplo: política?

Quase não falamos de política, políticos, governo. Temos atitudes políticas

TEMOS COMPROMISSO ARTÍSTICO COM:

-personagens originais
-abordagens inusitadas
-humor que revele a graça em situações inéditas.
-elegância e inteligência crítica sobre o contemporâneo,
-não reforçar preconceitos.

O QUE NÃO ENTRA NA TERÇA INSANA?

-Imitação
-piada pronta
-preconceito

POR QUÊ?

Ainda hoje, é constante a sensação de dejavú diante de muitas produções de humor.
Preocupadas em agradar o público, essas montagens copiam as formulas que julgam “populares”, contam as antigas e previsíveis piadas de sempre, onde as mulheres são gostosas e burras, ou velhas feias e fofoqueiras, onde todo homossexual é ridicularizado, onde negros são serviçais ou maus caracteres, onde eternamente se pratica a humilhação de anões.
Este é um humor arcaico, covarde, pobre em auto-critica, que ignora os avanços filosóficos, científicos, sociais, inventa e institucionaliza preconceitos.
O que há de engraçado na sexualidade de alguém? E em ser anão? Ou estar fora dos padrões estéticos impostos pela mídia?

05. Como foi feita a escolha do elenco? Os atores são os mesmos do início?

Convidei, inicialmente, 3 atores que conhecia bem, admirava e que, pra mim, poderiam enfrentar o desafio de criar um show novo por semana. Eram também autores, mas nunca tinham feito uma loucura assim. Eram o Octávio Mendes, o Marcelo Mansfield e o Roberto Camargo. A característica da Terça é renovar sempre o elenco, dar oportunidade pra outras pessoas, então correr o risco de engessar em fórmulas.

06. De acordo com o site Mundo Cultural (http://www.mundocultural.com.br), foram criados mais de 342 roteiros diferentes, 500 personagens originais (pelo elenco fixo), 250 (pelos atores convidados). De onde sai tanta criatividade?

Sai de tudo que está a nossa volta.
Mas, vou falar por mim, como acontece comigo, afinal eu que inventei essa insanidade criativa e fico puxando todo mundo comigo.
Eu não sou um a pessoa pacata, não sou aquela criatura que aceita e louva o sistema porque nele sente-se segura, e que vai engolindo tudo que aparece pela frente. Sou uma chata, tudo que se apresenta na minha frente eu analiso: “ Isso tem a ver comigo? Isso me traduz? Isso é do bem? Isso melhora o mundo? Pra que precisamos disto? ….Isso é horrível…é ridículo…é preconceituoso…é classista?
Claro que muita coisa passa batida, só vou me dar conta mais tarde, afinal vivemos colados num paredão de fuzilamento, alvos de um bombardeio de novidades…ninguém tem tempo nem saco pra analisar tantas coisas…
Eu não consigo me conformar com certas coisas que todo mundo acha normal, ai ficava pensando que a louca desajustada era eu. Pra manter a minha sanidade, cultivo minha opinião, ainda luto pela liberdade de dizer sim ou não.
Então…idéias não param de pipocar….

07. Em 2006, já na 5ª temporada, o show terá temas mensais e o elenco fixo receberá dois convidados. Essas mudanças vieram para que os temas não fiquem escassos e caiam na mesmice?

Temas escassos? Mesmice? Muito pelo contrário. A importância da Terça Insana é um fato inegável, que até os mais acadêmicos são forçados a admitir: 342 roteiros diferentes de shows, 500 personagens originais criados pelo elenco fixo, 250 convidados…são números que vão muito além do que se poderia esperar como exemplo de fôlego e criatividade dos profissionais envolvidos neste projeto.
Atualmente a Terça Insana é um fenômeno teatral, que atinge um público estimado, no final de 2005, em 340mil pessoas de todas as tribos, classes sociais e faixas etárias. Além dos shows semanais, no Avenida Clube em São Paulo, a Terça Insana já se apresentou em Lisboa, em 11 capitais brasileiras e em diversas cidades do interior do Brasil.O primeiro DVD lançado pela Trama vendeu 10 mil cópias, o segundo será lançado em 2006; o site http://www.tercainsana.com.br/ recebe cerca de 350mil visitantes por ano;existem mais de 20 comunidades relacionadas ä Terça Insana criadas pelos fãs no orkut.
Ao escolher um espaço informal para suas apresentações, abordar de forma inusitada e hilariante temas contemporâneos, respeitando sempre a inteligência do público, a Terça Insana conquistou novos espectadores colaborando, assim, para o fomento de público para o teatro; forçando a reabertura de espaços alternativos para apresentação de teatro. Promoveu a união de profissionais e a rediscussão da própria área cultural. Inspirados na proposta ou no sucesso da Terça Insana, profissionais e amadores de todo o país, formaram grupos, montaram shows de humor. Novos empregos foram gerados.
A televisão, em pouco tempo, começou a abrir concursos para novos humoristas, a publicidade inspirou campanhas não só nos temas da Terça Insana, mas no próprio nome do projeto.
Para a direção da Terça Insana, o sucesso ratifica o projeto, sugere novas ousadias, novas responsabilidades para 2006.
A missão inicial está cumprida, o cenário teatral fervilha nos 4 cantos do país.
Agora está na hora da Terça Insana mergulhar mais fundo.
O show mensal, temático, possibilitará a elaboração mais complexa de cenas e situações de humor, maior lapidação de textos e personagens. Assim estaremos dedicada a detalhes da criação, por vezes negligenciados no formato improvisado dos shows semanais..

08. “Terça Insana” virou uma febre. Filas para comprar ingressos, reservas de lugares com antecedência para garantir presença, são situações que as pessoas passam para assisti-los. Você e o elenco imaginavam essa repercussão?

Eu, nunca imaginei isso. Criei o projeto pensando em mexer a areia parada no fundo, pra espantar o desanimo, era voltado exclusivamente pra classe artística, embora a platéia fosse aberta pra todo mundo , Só que nunca imaginei que pessoas fora da classe pudessem ter algum interesse em assistir isso.

09. Qual a sua opinião sobre a comédia que hoje os meios de entretenimento, como a TV, nos “vende”?

Gosto da Grande Família, da primeira temporada de Os Normais. Gosto de Chaves pela ingenuidade e despretensão.
Detesto programas que perpetuam o preconceito.
Têm alguns que parecem te perguntar: “Vamos fazer de conta que somos todos idiotas?”. São medíocres, previsíveis e cheios de chavões. Mas pra quem se sente seguro dentro do sistema, deve ser um bálsamo…

10. Seria possível transformar o espetáculo “Terça Insana” em programa humorístico para TV?

Não. Tem que inventar outra coisa, mas mantendo a linha de humor.

11. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.

“O HOMEM É O ÚNICO SER VIVO QUE SE FAZ DE BURRO. É ISSO QUE O DIFERENÇA DE TODOS OS OUTROS ANIMAIS…EXCETO DO PRÓPRIO BURRO.”
-Bart Simpson-

Foto: Reprodução

Veja Grace Gianoukas como Aline Durel

Quer ter a entrevista com a atriz e diretora Grace Gianoukas em seus arquivos? Clique aqui entrevista-grace-gianoukas (para abrir o arquivo .pdf precisa ter o programa Adobe Reader – Imprima se necessário, preserve o meio ambiente)

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