Entrevista com Rodrigo Marconi, produtor musical do curta-metragem “Primaveras”
February 23, 2006 by Mari Valadares
Filed under Poucas e Boas Entrevistas

01. Qual a função de um produtor musical em um filme?
O produtor musical é a pessoa responsável pela realização da música de um filme. Ele convida o compositor, contrata os músicos para as gravações, marca os horários no estúdio, entre outras coisas. Eu sou compositor, nesse caso eu compus todas as músicas do filme, mas acumulei a função também de produtor musical, convidando os músicos, marcando o estúdio e participei, inclusive, da mixagem do filme (equilibrar os volumes das locuções, efeitos sonoros e locuções, enfim, todo o áudio do filme).
02. Rodrigo, você foi produtor musical do curta-metragem “Primaveras”, que estreou em 2005. O filme foi baseado no livro “As Primaveras” do poeta brasileiro Casimiro de Abreu, que integrou o movimento denominado romantismo e morreu aos 21 anos de tuberculose. Por que filmar a vida deste poeta?
Eu freqüento há muitos anos, no mínimo 20, uma pequena cidade na região dos lagos do estado do Rio de Janeiro, chamada Barra de São João, onde o nosso poeta nasceu. A poesia de Casimiro reflete a sua infância, e eu também desfruto do mesmo “mar sereno”, eu vejo o mesmo “céu bordado de estrelas” que o poeta eternizou em sua poesia meus oito anos, e entre ele e eu já se passaram quase 150 anos! E no fim de uma noite maravilhosa que passei nesta cidade tive a idéia de fazer o filme. Logo, levei a idéia ao meu amigo cineasta Bernardo Belfort, que escreveu um belíssimo roteiro. E nosso filme é isso: a união da imagem da minha música à música das imagens do Bernardo. Gostaria de lembrar que, sem o apoio da Fundação Cultural de Casimiro de Abreu, representada pela secretária de cultura Soninha – que possui um compromisso profundo com a cultura e mergulhou na nossa viagem viabilizando financeiramente o projeto – e do povo de Barra de São João, com certeza, nosso filme não seria realizado.
03. Qual foi o objetivo do diretor de fazer as cenas do curta-metragem em preto e branco?
Como você lembrou na pergunta passada, Casimiro fez parte de uma geração de poetas brasileiros que os estudiosos de literatura chamaram de romantismo. E ele é da segunda geração da poesia romântica, que ficou conhecida como Mal do Século ou Geração Ultra-Romântica junto com os grandes Álvares de Azevedo, Junqueira Freire e Fagundes Varela. Esse pessoal tinha como tema de suas poesias a solidão, o tédio, a melancolia e um profundo desencanto pela vida. Por esse motivo o diretor Bernardo Belfort optou pelo preto e branco bastante contrastado. Só uma cena do filme é colorida: quando ele falece e é recebido no paraíso.
04. O filme “Primaveras” teve alguma função social?
Acredito que sim. Falar da cultura brasileira, dos nossos grandes criadores, de pessoas que se imortalizaram com a sua produção artística é uma forma de mantermos viva a NOSSA história. Que país tem um Vinicius de Moraes? Um Drummond? Um Pixinguinha? Um Tom Jobim? Temos o dever de valorizar e divulgar nossos artistas! Eles são a nossa história! Na minha opinião, o Primaveras foi a forma que nós encontramos de fazer isso…
05. Como foi feita a escolha do elenco de “Primaveras”?
Tivemos a idéia de chamar o ator Danton Melo para dar vida a Casimiro de Abreu. Danton se encantou com o projeto e aceitou o nosso convite. Claudia Lira faz uma participação no filme como a musa do poeta. Todos os figurantes, em torno de 100, foram selecionados na própria cidade. Os moradores de Barra de São João fizeram parte do filme! A cidade acompanhou as filmagens durante uma semana e meia contribuindo enormemente para a realização do projeto. Nesse sentido, aproximamos o povo de uma pequena cidade à uma produção cinematográfica cumprindo também na feitura, uma grande função social.
06. Foi difícil musicar os poemas de Casimiro? Como foi o processo?
Difícil não foi… foi bastante trabalhoso. O trabalho de um compositor, como o de um escritor, é bastante solitário. Mas você não imagina a minha emoção quando um grupo de músicos de extrema sensibilidade transformam a partitura, até então um papel com um monte de bolinhas, em som. A música toma forma, cor, e uma interpretação verdadeira. Para um compositor não há nada mais gratificante do que a possibilidade de ouvir a sua criação.
07. Existe resistência na distribuição do gênero curta em salas de cinema do país. Se há dificuldades na sua distribuição, por que este veículo é um dos mais cobiçados pelos novos cineastas?
O espaço do curta metragem está mais restrito aos festivais de cinema. Mas eu acredito que tem uma enorme vantagem: como o curta não tem compromisso com a bilheteria nem retorno financeiro, se torna um grande espaço para pesquisas e experiências artísticas. Nele o diretor pode correr riscos, propor novos paradigmas… ah, e outra coisa: tudo depende da história que você pretende contar. Um poeta pode escrever um pequeno soneto ou um livro de poesias com 500 páginas, tudo depende do que o artista tem pra dizer. Às vezes você pode ter uma história interessantíssima que bastam apenas 15 minutos para ser contada… outras necessitam de 2 horas.
08. Quais são as maiores dificuldades de se conseguir incentivo para produção de filmes?
A gente vive num país com grandes problemas sociais. A educação e a saúde que deveriam ser prioridade estão de mal a pior. E no Brasil, que cultura é sinônimo de entretenimento então, nem se fala… A gente ainda não tem uma industria cinematográfica estruturada e isso nos faz depender de patrocínios de grandes empresas que abatem a grana investida num filme do imposto de renda. Convencer um empresário que ele deve apostar na cultura é uma tarefa bastante difícil. Mas acredito que estamos, aos poucos, estreitando esses laços…
09. Quais serão seus próximos projetos?
Esse ano eu termino a trilha dos filmes de dois novos e grandes cineastas que me proporcionam um prazer enorme ao trabalhar com eles. Os filmes são O Labirinto, de Gleyson Spadetti que conta com a participação esplendorosa de Alessandra Maestrini e O Brilho dos meus olhos, minha segunda parceria com o diretor Allan Ribeiro. Tenho propostas ainda de fazer uma peça de teatro, que é uma linguagem que sou apaixonado. Devemos ainda continuar com a série Música e Poesia que conta a vida dos poetas brasileiros através da sua produção artística, pois acredito na força cultural desse projeto. O Primaveras foi o primeiro, quem sabe não faremos um poeta paulista?
Foto: Divulgação
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