Entrevista com a jornalista Fernanda Furquim, sobre séries de TV

December 7, 2005 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Entrevistas


Fernanda Furquim

01. Para começar, o que é sitcom? Toda série é uma sitcom? Quando foi criado esse gênero?

Sitcom é a abreviatura de Situation Comedy, ou Comédias de Situações. Dessa forma apenas as séries cômicas podem ser chamadas de sitcom. O gênero no formato que conhecemos começou no rádio, mas originou-se do teatro de variedades no qual eram apresentadas esquetes cômicas com situações do cotidiano. Quando chegou ao rádio elas eram apresentadas em vários formatos de tempo, ou seja, de 5, 10, 15, 20 a 30 minutos. Cada semana os mesmos personagens ou personalidades viviam situações diferentes. Chegou à televisão na década de 50. Nessa época I Love Lucy consagrou-se com a mais importante (mas não a primeira) sitcom da televisão porque ela trouxe ingredientes que são utilizados até hoje: a gravação em película (até então era ao vivo ou quando muito gravada em vídeo), a presença do público em um estúdio (muitas eram gravadas em um teatro (a exemplo do que foi feito no Brasil com Sai de Baixo), e para isso foi necessário adaptar o estúdio para acomodar um público que contava com um animador para manter as pessoas atentas e alegres quando era forçada a parar por algum motivo técnico ou repetir a cena e a mais importante de todas, o uso de três câmeras, até então era utilizada apenas uma.

02. Até 1978, a programação da TV no Brasil permitia identificar uma situação de “colonialismo cultural”, com 70% de programação estrangeira, contra 30% nacional. Hoje a situação é bem diferente. As séries estrangeiras são quase inexistentes na programação brasileira. Por quê?

Nos anos 70 o Brasil vivia a Ditadura Militar e a programação brasileira estava sujeita a censura prévia (muitas vezes não tão prévia assim). Os enlatados, como ficaram conhecidas as séries estrangeiras (porque vinham em latas de filmes), eram uma opção para completar a programação que também sofria com a questão dos orçamentos. Essa opção sempre foi utilizada pela TV brasileira desde que surgiu na década de 50, trazida por Assis Chateaubriand. Quando ele decidiu trazer essa invenção ao Brasil, não se preocupou muito com a grade de programação. O importante era implantar um veículo de comunicação. Depois de implantado ficou um vazio: o que levar para o ar? Por isso que no início a programação era centrada em horários limitados de exibição que foi rapidamente expandindo graças à exibição dos enlatados. Paralelo a isso, a compra desses produtos também era uma imposição do mercado americano. Com o fim da Ditadura nos anos 80 a programação brasileira começou a tomar mais espaço porque as produções puderam contar com investimentos maiores e a ter liberdade de abordagens com o fim da censura. Os enlatados ainda ocuparam uma parte, embora menor, da programação brasileira e hoje encontraram um espaço garantido na TV a Cabo, muitos dos quais administrados por empresas estrangeiras que apenas mantém um escritório no Brasil (mas a programação e o sinal são elaborados e emitidos de lá de fora). Atualmente as séries estrangeiras só chegam à programação quando fazem muito sucesso na TV a cabo, quando a brecha na programação ainda não foi preenchida por um programa nacional e quando é imposta por força de contrato com alguma distribuidora como é o caso do SBT que tem contrato de exclusividade com os produtos da Warner e da Disney.

03. A televisão constrói uma realidade na forma de um sistema de representações sociais. Os problemas retratados em séries norte-americanas são geralmente atividades criminosas ou indesejadas, problemas sociais (drogas, aborto, etc), casos médicos e problemas de amor e de casamento. Até que ponto isso influencia na sociedade?

Existe essa questão de que a TV influencia a sociedade e vice-versa. No início existiram programas, principalmente americanos, que eram produzidos com o intuito de direcionar o comportamento social. Pode até ter conseguido em algumas camadas e por algum tempo, mas a sociedade não deixou de mudar por conta disso. Tanto é que a programação mundial é facilmente classificada por décadas. Em relação às séries de televisão, mais especificamente a americana, eles levavam uma década inteira para abordar um determinado comportamento. Muito embora os temas considerados tabus sempre estivessem camuflados nas entrelinhas. A vantagem da televisão é conseguir trazer para dentro das casas das pessoas situações nas quais elas podem se identificar e (se Deus quiser) permitir que elas se questionem; é levar para dentro das casas das pessoas um mundo de informações e imagens às quais elas não teriam acesso por falta de tempo, interesse, geografia, dinheiro ou cultura. Cabe à televisão saber utilizar essa vantagem.

04. As séries atuais não se diferem das séries antigas. Não há novidades nos temas, personagens e linguagem. A única mudança é o antigo inserido no moderno. Por que essa falta de interesse dos produtores na busca pelo novo?

A novidade fica por conta da abordagem. Uma série que fale sobre sexo hoje em dia é muito diferente de uma série de até cinco anos atrás. As séries em geral são descendentes de outras produções do passado imediato ou antigo. Dessa forma, podemos pegar um personagem hoje em dia e traçar sua ascendência com muita facilidade porque uma série gera outra e assim por diante. Pegue a Carol de O Sexo e a Cidade e faça uma linha do tempo, você consegue chegar em séries como Ally McBeal, Supergatas, A Gata e o Rato, Mary Tyler Moore, Júlia e I Love Lucy, entre muitas outras. É a personagem do universo feminino tentando se colocar em uma sociedade machista dentro do tema dominação do sexo. A mesma brincadeira pode ser feita com outros personagens dentro de outros temas e universos. É a evolução das séries ou da espécie humana dentro de uma sociedade. Com a chegada da TV a Cabo as séries começaram a evoluir com mais rapidez. Existe a necessidade e a vontade de se buscar o novo, o que não existe, muitas vezes, é a visão e conseqüentemente o apoio. No momento as séries americanas passam por uma nova crise (que ocorre de cinco em cinco anos quando muda a programação, tempo médio de duração da maioria das séries que alcançam sucesso – existem as exceções). Sempre que passam por uma crise, ou seja, sempre que as séries que faziam sucesso e eram o carro chefe das emissoras termina, eles entram em desespero para buscar seu novo carro chefe. Atualmente estão apostando todas as fichas em Lost, Desperate Housewives e algumas outras. Se investissem em uma programação diversificada e apostassem em temas variados ao mesmo tempo, não haveria apenas um ou dois carros chefes por emissora. Assim, quando a produção desses destaques terminassem, não entrariam em crise e a busca pelo novo seria constante.

05.Até onde o poder dos patrocinadores influencia a programação da TV?

Até o último fio de cabelo. A TV é um produto comercial, é um grande veículo de “classificados”, se sustenta disso. É usado como veículo de propaganda do governo em épocas e países de ditaduras, é usado como divulgador de programas criados com o intuito de vender algum produto é um adaptador de ideologias ou crenças. É uma grande e poderosa vitrine e seu foco depende de quem está no comando do veículo. Era normal nos anos 50 um episódio de uma série entrar em seu intervalo comercial e aparecer o ator daquela mesma série (usando a roupa do personagem) e fazer anúncio do produto do patrocinador. E isso valia também para programas jornalísticos e de variedades. Algo que hoje é feito nos programas femininos das tardes de segunda a sexta. Como você vê, esse processo de venda também não é novidade porque se vende mais um produto que tem o aval do seu personagem ou personalidade favorito. O poder dos patrocinadores determinava quem ficava e quem saía (tanto atores quanto roteiristas e diretores) Houve casos de atores serem trocados por má conduta social ou por questões ideológicas. No início da televisão o programa era comprado por dois ou três patrocinadores. Acho que foi a partir dos anos 60 que eles começaram a vender espaços comerciais por minutos e não mais o programa inteiro. Assim se livraram da dependência limitada de patrocínio. Com a concorrência de produtos cada vez maior fica mais fácil conseguir anunciantes. Mas em compensação o cancelamento de um programa é mais rápido devido à obrigatoriedade de se fazer sucesso imediato.

“A série Bonanza foi criada com o único objetivo de vender TV em cores, foi a primeira série colorida da TV Americana”. Fernanda Furquim

06. A Globo (re)produziu a séria Carga Pesada em 2003 e já está na sua terceira temporada. Em 2006, estréia na Rede Record a série Avassaladoras, baseada no longa-metragem de Mara Mourão, de mesmo nome. Será uma volta do gênero a televisão brasileira?

A TV brasileira não tem tradição nessa área. Não tem porque não quis. Talvez porque tenha sempre associado o gênero como importado e sempre preferiu apostar na evolução das novelas (como se essa fosse um produto originado no Brasil). Quando termina uma novela, vem outra no lugar. Quando termina uma série, não vem nada depois. Mas de vez em quando aparece uma aqui outra ali. Apesar do sucesso que as séries antigas alcançaram, veja por exemplo Sítio do Pica-Pau Amarelo, A Grande Família (antiga), O Bem Amado (que só manteve sua produção porque o público pediu mais), Malu Mulher, Armação Ilimitada e outras, não criou-se uma linha de produção para esse gênero. Não visualizaram e conseqüentemente não apostaram nesse filão. Eu acho que as séries brasileiras só voltaram a ser produzidas graças ao sucesso dos “enlatados” na TV a cabo. Eles sustentam canais como Sony e Warner, e gerou o surgimento de outros como o Retrô Channel e o TCM, entre outros. Até o GNT que era um canal só voltado a documentários e programas jornalísticos já está incluindo em sua programação séries estrangeiras. A venda de DVDs de séries é enorme e regular. Acho que todo esse sucesso fez com que canais abertos investissem na produção de séries como A Grande Família (nova) e Os Normais. Mas como eu disse, ainda não se tornou um filão. Eu diria que está em fase experimental, de novo. Eu sinceramente espero que se mantenha. Está mais que na hora de diversificar essa programação brasileira limitada até hoje a novelas, programas humorísticos, de entrevistas e de auditórios. De vez em quando aparece uma minissérie e uma série aqui e ali. Cadê os telefilmes? Por que não produzem filmes para a TV? Cadê os desenhos animados brasileiros? Em Porto Alegre existe há anos a sessão Curta na TV (ou algo assim) que exibe filmes de curta metragem toda a semana em um canal aberto (no caso a RBS que é filiada a Globo). Por que só lá?

Mari Valadares e Fernanda Furquim no CineSesc (SP)

Mari Valadares e Fernanda Furquim no CineSesc (SP)

07. A série Avassaladoras retratará as confusas relações entre mulheres independentes e bem-sucedidas e homens nos dias atuais, uma espécie de Sexy In The City (1998) brasileira. Não há novidade no tema. No seu livro, “SITCOM, Definição e História”, você explica que nos anos 70, face aos movimentos feministas dos anos 60, as sitcoms já passaram a enxergar a mulher como alguém com capacidade e não apenas como uma dona de casa. Por que continua sendo um tema tão atual?

É atual porque até os dias de hoje não havia sido explorado em sua plenitude. Sempre faltou alguma coisa. Mas o que está sendo atual mesmo é o sexo (que era o que faltava). Nunca se falou tanto sobre o comportamento sexual (mais o feminino que o masculino porque esse era mais tabu, tanto quanto a vida sexual dos gays). É interessante isso porque nos anos 50/60 Kinsey realizou uma pesquisa sobre o comportamento sexual masculino e foi um sucesso de venda porque retratava o homem vivendo da forma como deveria ser. Mas quando fez a mesma pesquisa sobre o universo feminino foi condenado por deturpar a imagem da mulher americana. E não pense que isso não valia também pro Brasil um país forçadamente cristão. Agora com a abertura a temas tabus temos a abordagem do universo feminino de maneira completa, inteira. A mulher não é mais aquela neurótica porque trabalha fora ou porque não trabalha fora. Não é mais vista como aquela que tem de fazer de tudo para manter um casamento porque o casamento é pra sempre, etc, etc. Agora ela pensa e pensa em tudo. A partir dos anos 70 vimos séries como Mary Tyler Moore que pensava sobre a carreira, sobre os amigos, mas não falava abertamente de sua vida sexual. Nos anos 80 As Supergatas falavam do sexo abertamente, mas como era um grupo de mulheres de certa idade, já tinham passado da menopausa e não tinham relacionamentos a não ser uma vez ou outra, o discurso ficava por conta da conscientização sobre a vida da mulher com mais de 60 anos. Nos anos 90 vimos a Ally McBeal que pensava sobre a carreira, amigos e relacionamentos, ou seja, sexo. Mas ela estava eternamente presa à sua insegurança e a um amor dos tempos de faculdade. Destruía tudo o que tocava. Sua neurose era à base de tudo. Agora, a partir do ano 2000, começaram a surgir mulheres que vivem em busca de carreira, amores, amigos, relacionamentos que pensam e gesticulam e falam tal qual gente de verdade.

Alfred Kinsey foi um entomologista e zoólogo norte-americano, que fundou o Instituto de Pesquisa sobre Sexo, hoje chamado de Instituto Kinsey para Pesquisa sobre Sexo, Gênero e Reprodução. Suas pesquisas sobre a sexualidade humana influenciaram profundamente os valores sociais e culturais dos Estados Unidos, principalmente na década de 60, com o início da revolução sexual

PARA SABER MAIS:
Blog Revista TV Séries

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Comments

1 comentário no texto "Entrevista com a jornalista Fernanda Furquim, sobre séries de TV"

  1. andré luiz vidal on Mon, 9th Nov 2009 10:59 pm 

    oii quero muito fazer parete de um grupo de teatro estou louco aqui parado e é minha vida teatro, queria muito uma oportunidade, muito obrigado.

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