Entrevista com Sérgio Guilherme Filho, vocalista da banda Gram

November 6, 2005 by Mari Valadares  
Filed under Poucas e Boas Entrevistas


A banda Gram

A banda Gram

01. Você fazia parte do grupo Mosva, junto com o Marcello Pagotto e o Luiz Ribalta e depois fundaram o Gram, com o Marco Loschiavo e Fernando Falvo. Como se deu a formação do Gram? Vocês mantiveram o mesmo estilo?

O Mosva acabou porque dois integrantes saíram, um foi pra Curitiba – PR e o outro não queria morar em São Paulo. E o Mosva foi uma coisa bem engraçada, porque a gente compôs todo o disco, com letras em inglês e depois formamos uma banda para gravar. Daí tentamos lançar na Inglaterra, quando a gente foi pra lá pela segunda vez com o Beatles Cover. Levamos para algumas gravadoras, selos menores e aí, não deu muito certo, até porque nem existia uma banda. Nós aproveitamos que estaríamos lá, não gastamos nada, de
cidimos lançá-lo. Quando a gente voltou, os outros caras não estavam por aqui e não tinha como ensaiar. Substituímos esses dois músicos e formamos o GRAM. Então a mudança foi só essa. É lógico que com os novos integrantes a cara da banda mudou bastante. E também, eu fazia letras em inglês e tinha duas coisas que tinham me incomodado: A primeira foi que a gente quase não conseguiu entrar na Inglaterra da segunda vez, isso foi uma coisa que me deixou bem chateado e a outra coisa foi um papo que tive com o Lobão. Ele foi no IG (www.ig.com.br) uma vez e eu falei sobre escrever letras em inglês, letras em português e ele me xingou muito (rs): “Meu, que escrever letra em inglês o quê, fazer música pra gringo o caralho”. Ele xinga pra caramba, tem argumentos ótimos. E aquilo ficou na minha cabeça. Então quando a gente formou o GRAM, decidi fazer as letras em português, porque é a nossa língua. Tive um certo bloqueio, um pouco de medo, pois 90% das minhas influências são em inglês. O pouco que ouvia de português eram as músicas da minha adolescência, como Ira, Os Paralamas e Chico Buarque.

02. Qual o significado da palavra GRAM?

GRAM não significa nada. Hoje a gente sabe que tem uma bactéria com o nome Gram, mas quando pensamos no nome, nós queríamos uma coisa que fosse universal, que não tivesse significado, que fosse curta, rápida de falar e o Luiz Ribalta ouviu essa palavra, era o nome de alguém e falou pra gente e gostamos.

03. O Gram deu um salto com a aparição no MTV Apresenta. Essa grande repercussão assusta ?

Não foi tão grande assim, foi o previsível. Desde o começo, a gente sempre soube que o estilo de som que fazemos atinge uma fatia específica de pessoas. Tem que atingir esse público primeiro mesmo, talvez um público mais ligado à poesia, a interpretação mais teatral, melodias pouco óbvias. O MTV Apresenta foi um programa que ajudou bastante, muito mais pessoas viram que não era só um clipe, um gato e uma música.

04. Quais são as influências da banda? Você se inspira em quê para escrever as letras das músicas?

The Beatles por exemplo, está dentro da gente, porque é uma banda que escutamos desde criança. Eles influenciaram toda banda que surgiu depois deles. Você vai pensar em um arranjo, você já tem um caminho a seguir. O Samuel Rosa do Skank falou uma coisa bem legal uma vez: “No futuro não vai existir mais música pop, vai existir música Beatles” (rs). E ele tem razão, porque a estrutura de fazer uma música pop quem inventou foi os Beatles. Eles saíram um pouco do rock n`roll de Elvis, do Chuck Berrie, pegaram acordes do erudito, alguma coisa do jazz, eles trouxeram para o pop e souberam fazer isso. Então a partir daí, influenciou todo mundo.
Quando componho, procuro analisar tudo, não apenas música. Além dela, eu me influencio pelas coisas que estão ao meu redor, como política, religião e também na minha vida em relação às outras pessoas.
De banda mesmo, eu ouço Radiohead, que se renova cada disco. A gente sempre tenta fazer isso, renovar, apesar de que no Brasil é um pouco mais difícil, pois você tem o compromisso com o público e até um pouco de dificuldade de divulgar a música, se não for pelos meios de comunicação, que às vezes não dão tanto espaço para coisas novas. Então, você tem que pensar alguma coisa mais acessível. Também procuro saber qual a gíria, como se fala hoje, para poder atingir o público, pois não adianta falar como se falava nos ano 60 ou nos anos 30. Você tem que usar uma linguagem mais moderna.

05. Como surgiu a idéia da história do gatinho do clipe da música “Você pode ir na janela”?

Surgiu no sofá do meu apartamento (rs). Sempre me perguntam isso e eu não sei muito bem o momento que foi, quando que eu tive a sacada do número, que é a grande sacada mesmo, que mexeu com muita gente e que alavancou tudo. Até a gravadora foi por causa do clipe. Eu lembro que a gente tinha que fazer um clipe, que é a única maneira de entrar na MTV e aí a gente orçou esse clipe numa produtora, pedimos até o roteiro para eles. Como não estávamos a fim de gastar, eu decidi que iria fazê-lo.
A música me passa uma coisa angustiante, me passa uma situação que você está num looping, algo hipnótico. Então comecei a pensar em coisas assim. A primeira coisa que eu lembro era um cara caindo, correndo e essas ações sem ter um fim. E de repente fez “pum”. Eu não lembro quando tive a idéia de usar um gato. Não estava pensando em nada, e de repente saiu.

Sérgio Filho

06. Quando sai o próximo cd? O que os fãs podem esperar?

A gente está fazendo a pré-gravação. Já temos 16 músicas, que faltam cinco letras. Como o ano que vem é ano de Copa do Mundo, isso influencia todo o mercado de certa forma. Eu acho que a gravadora vai querer lançar depois da Copa. É até uma estratégia, senão ofusca o lançamento. Agora eu não sei, de repente eles acham que tem que lançar em abril e lança. Precisamos entregar a pré-gravação até dia 20 de dezembro para o produtor, que é o Rafael Ramos.
E eu acho que dessa vez o lançamento será melhor planejado, pois quando a gente lançou pela Deck, já tinha sido lançado independente e muita gente já conhecia o disco. O clipe já existia. Então, quando eles lançaram “Você pode ir na janela” como single, já estava parando de passar na MTV e quando parou na MTV, começou tocar a música na rádio. Ficou meio descompassado.
Agora, musicalmente a gente evoluiu, as letras não falam mais só de relacionamento, tem outros assuntos, política, religião, comportamento, também relacionamento, mas variou bastante. Nosso som está mais pesado, tem mais guitarra. Tem música mais pop que o primeiro e pensando em música, pop pra mim é quando você ouve e já sai cantando. Acho que tem umas três com esse potencial, mas têm muitas músicas estranhas, com arranjos bem difíceis mesmo.

07. Numa reportagem na Revista Playboy o Gram foi comparado ao Los Hermanos – “o ótimo Gram soa mesmo como uma espécie de Los Hermanos paulistano”. O que você acha dessa comparação?

(rs) Isso aí já vem desde o começo. Eu acho assim, às vezes a impressa precisa dar uma referência. Tem gente que não é mal intencionada, porque têm muitos que são e falam: “Copiou dos Los Hermanos”, daí eu acho que é mal intencionada. Esse tipo de comparação preguiçosa, pra espetar, não acho legal não. Agora, quando fala: “Lembra Los Hermanos”, “lembra Radiohead”, daí beleza, é uma referência. Tudo que for um pouquinho melhor, a melodia um pouquinho mais encrencada, com harmonias imprevisíveis vai ser Los Hermanos. Cansei de ver bandas que não tem nada a ver, mas já foram comparadas, também por isso.
Então, eu nem me importo, porque eu sei que não é. Se você analisar musicalmente as duas bandas, você perceberá que são bem diferentes.

08. Qual o papel do canal MTV para as bandas?

A MTV é um canal que é importantíssimo, como qualquer canal que abra espaço para bandas independentes. Se o clipe for aprovado, eles colocam no ar, nem que seja uma vez. Facilita muito mais se você consegue conquistar especificamente algumas pessoas, que eu acho que foi nosso caso. A gente não tinha ninguém conhecido lá dentro, a única pessoa que a gente conhecia era um cara que trabalha no IG, que já tinha trabalhado lá e ele simplesmente falou: “Você tem que entregar pra esse cara”. Então a gente entregou e foi esse cara que conquistamos. A partir dele muita coisa boa aconteceu, que foi aquele programa Bandas Novas, hoje Banda Antes. Depois outras pessoas começaram a gostar do GRAM lá dentro.
Tem a TV Cultura que é muito importante, que abre bastante espaço para bandas novas e tem muitas emissoras de rádios, como a Brasil 2000, em São Paulo, que é um bom lugar para começar bem legal. Pra gente foi bem importante.

Mari entrevista Sérgio Filho

09. Qual o papel da internet para as bandas de hoje?

Eu acho que a internet serve pra tudo assim, até pra você conversar diretamente com o fã. Você pode até tomar um rumo através das comunidades da banda, como no site orkut. Você entra e lê o que os fãs estão esperando para o próximo disco, não que faremos, mas de repente é uma pista. Nós fazemos o que a gente acha melhor, mas é uma ferramenta. Queira não queira, você fala: “Aquela música funcionou mais”, ou então: “Que clipe a gente vai lançar”, você joga uma enquête lá e eles decidem. A Internet serve pra isso e também pra divulgação. As pessoas mesmo, entre grupos, divulgam. Eles pegam MP3, vídeos com cenas dos shows e ficam passando um para o outro. A gente de uma certa forma até incentiva.
Quando você tem um trabalho bom, ele vai ser divulgado, seja na Internet, seja na TV, seja na rádio, ele vai espalhar.

10. Muitos artistas, como o Lobão e o grupo Titãs, lançaram cds independentes e os vendiam em bancas de jornal por um preço diferente do cobrado por gravadoras. O que você acha dessa atitude? Até que ponto a gravadora atrapalha o trabalho do artista?

A gravadora até agora não atrapalhou em nada, só ajudou. Quando a gente era independente a gente vendia a 10 reais também. Eu dei muito disco, nem vendia, eu dava. Se você pode fazer isso, acho legal. Agora, a gravadora tem investimentos, é um custo e eles pegam isso, com uma margem de lucro em cima desses 10 reais a mais e coloca na loja. Fora o lojista que põe o preço dele. Tudo isso conta, você paga por uma divulgação maior. Se fosse é independente, usa a Internet, toca em vários lugares de graça, só por divulgação, tudo isso tem custo. Com uma gravadora, o preço que você paga é o preço pra ver sua banda na TV, na rádio. Se um dia a gente voltar a ser independente, daí o preço cai de novo.

11. Uma mensagem para os freqüentadores do site “Poucas e Boas da Mari”.

Pelo pouco que conheço do teu trabalho, eu acho que o site tem tudo pra ser uma coisa legal, tem tudo pra ser um meio de comunicação interessante para as pessoas. Espero que você tenha muito sucesso no teu novo projeto.

Fotos: Reprodução e Verônica Gentilin

Quer ter a entrevista com o Sérgio Guilherme Filho em seus arquivos? Clique aqui  Entrevista com Sérgio Guilherme Filho(para abrir o arquivo .pdf precisa ter o programa Adobe Reader – Imprima se necessário, preserve o meio ambiente)

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Comments

6 comentários no texto "Entrevista com Sérgio Guilherme Filho, vocalista da banda Gram"

  1. adriana on Fri, 20th Mar 2009 11:01 am 

    adorei tudo .

  2. Diego Serra on Wed, 25th Mar 2009 10:09 pm 

    Sérgio, volta pra mim!

  3. gavi on Mon, 11th May 2009 6:52 pm 

    o cara acha que é Johnn,… o cara que abandona seu publico, mais de 14.500 fan só no orkut…..mais de mais do que isso, seguidores que sentiam o mesmo que diziam suas letras…sem deixar uma explicação um -hey galera tô precisando de um tempo… mais um dia quem sabe… ha na boa, não curti o que esse cara fez não, e mais, os outros caras da banda deveriam seguir sem ele porque ele não é o gram, gram é a banda e seus milhares de fanss

  4. miguel janio on Wed, 28th Apr 2010 12:05 am 

    eu não sei porque no brasil as bandas tem esse defeito,eles começão um trabalho e depois que conquistão um montão de fãs,eles simplesmente acabam,assim tbm como los hermanos,e nós fãs como é que ficamos? pô,sergio filho não gostamos de sua atitude,más espero que volte..

  5. carlo dias on Fri, 17th Sep 2010 2:50 am 

    muito boa a entrevista, uma ótima banda, 100%…

  6. carlo dias on Fri, 17th Sep 2010 2:52 am 

    toda banda acaba um dia, e hj em dia isso acontece mais cedo, pois a vida é uma correria, eu canto em uma e a gnt sabe o trabalho que da pra reunir pra um ensaio, banda não enriquece ninguem não…

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